4 de junho de 2026

Por uma frente popular internacional, entrevista com Luigi de Magistris

Luigi de Magistris foi Procurador público entre os anos de 2002 e 2009, Deputado Europeu entre 2009 e 2011 e prefeito de sua cidade natal, Nápoles, por dois mandatos

Por uma frente popular internacional, entrevista com Luigi de Magistris

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Por Paolo Vittoria* e Arnaldo Cardoso**

Combinando recursos intelectuais e políticos alicerçados na experiência, Luigi de Magistris, ex-prefeito de Napoles – Itália, na entrevista que segue tratou de questões de significativa importância que transcendem o escopo nacional italiano e se projetam como desafios para diferentes sociedades no atual quadro de crise estrutural e sistêmica do capitalismo e da democracia liberal representativa.

A entrevista aconteceu na sequência de um Encontro Internacional e uma série de outros eventos organizados pelos Núcleo di Esperienze, Studi e Lotta del PT Verona e Comitato di Lotta di Verona – Itália coordenados pela articuladora política Giuditta Ribeiro e apoiados pela advogada e professora Anita Mattes, ambas brasileiras residentes na Itália há anos. A entrevista foi conduzida pelo professor Paolo Vittoria da Università Federico II di Napoli, doutor em Pedagogia, estudioso sobre a pedagogia de Paulo Freire, editor e jornalista.

Luigi de Magistris foi Procurador público entre os anos de 2002 e 2009, Deputado Europeu entre 2009 e 2011 e prefeito de sua cidade natal, Nápoles, por dois mandatos (2011-2021). Tem se destacado no diálogo intelectual e político no quadro da esquerda italiana e europeia, compartilhando aprendizados de sua exitosa experiência como administrador público atento às demandas e dinâmicas dos movimentos sociais de base, associações populares, listas cívicas, entre outros atores e formas de participação popular democrática.

Entre as várias realizações de seus mandatos a frente da complexa cidade de Nápoles, região da Campânia, sul da Itália, o encaminhamento dado ao resultado de um referendo popular nacional realizado em junho de 2011 que contabilizou mais de 30 milhões de votos dos cidadãos italianos afirmando a defesa da água como bem público, merece ser destacado como exemplo de problema local inserido num quadro global de crise do capitalismo como modo de produção e de debilitamento da democracia liberal representativa, cujos sintomas mais visíveis são o aumento da desigualdade social, piora das condições de sobrevivência da maioria da população e acirramento das disputas de corporações internacionais pela apropriação privada e exploração de recursos naturais fundamentais para a vida no planeta.

Jornal GGN produzirá documentário sobre esquemas da ultradireita mundial e ameaça eleitoral. Saiba aqui como apoiar

Cumprindo o que determinou o resultado do referendo popular, o prefeito De Magistris fez nascer em 2013, em lugar da empresa anterior – uma sociedade de capital aberto regida pelo direito privado – uma empresa novamente pública, a ABC Napoli – cuja sigla significa “Água Bem Comum” –  que em vez de perseguir lucros para remunerar investidores tem como prioridade garantir a qualidade do serviço público, fornecer água de qualidade, reinvestir seus resultados em infraestrutura e melhoria do serviço para a coletividade. Apesar de muitos percalços, disputas judiciais e políticas, ao povo napolitano tem sido garantido o acesso à água potável de qualidade, com menores preços comparativos e transparência da gestão e de projetos.

Abaixo transcrevemos os principais trechos da entrevista com Luigi de Magistris, originalmente produzida em italiano, com tradução livre para a presente publicação.

Tem se falado muito de uma frente pacifista na Europa. Qual é o significado que você como intelectual e político de esquerda dá à palavra “paz”?

LM – Acredito que a maioria dos países europeus tem uma posição muito profunda e atenta sobre a paz. Gostaria de compartilhar aqui minha experiência como prefeito de Nápoles. Acho que a paz deve ser construída a partir da base da sociedade, dos movimentos populares; na cidade de Nápoles trabalhamos muito com uma “diplomacia de baixo”, criando uma série de relações, colaborações, cooperação para a paz. Promovemos a amizade entre cidades do Mediterrâneo europeu, do Oriente Médio e da África que fizeram de Nápoles um ponto de encontro entre territórios atormentados por guerras, como as vividas pelos povos curdo, palestino e sahrawi.

Com uma resolução aprovada pela Câmara Municipal foi declarada “Nápoles cidade da paz”; declaramos o porto de Nápoles desnuclearizado: navios, submarinos, porta-aviões movidos a energia nuclear ou portando bombas atômicas não eram bem-vindos. Com as associações e movimentos pacifistas criamos comitês cíveis de paz, em substituição a uma militarização cada vez mais intensa; conferimos cidadania honorária ao intelectual curdo Abdullah Öcalan e ao líder palestino Abu Mazen; organizámos o acolhimento de crianças sahrawi e a abertura de portos a refugiados políticos de outras guerras. Todos esses atos não foram contra ninguém, mas a favor da autodeterminação dos povos, do reconhecimento comunitário. Nesta minha experiência o pacifismo não é uma palavra vazia, mas fruto da vivência, da prática política.

Caso contrário, “paz” e “guerra” tornam-se palavras vazias, sem verdadeira luta política. Ninguém afirma ser a favor de guerras, mas com atitudes de violência e opressão reproduzem o mesmo sistema.

Com a economia de guerra, no entanto, o capitalismo triunfa e zomba dos povos inocentes, não é mesmo?

O capitalismo está em crise e mostra senilidade, agressão e brutalidade. Está, portanto, em uma fase muito perigosa. Basta ler o discurso do primeiro-ministro da Itália Mário Draghi – claramente um dos guardiões do sistema capitalista – segundo o qual, para reanimar a economia e enfrentar as crises energéticas, é preciso reativar combustíveis fósseis, incineradores, energia nuclear, suspender os limites de emissões na atmosfera. Estamos diante de “médicos da política” que, para curar as doenças que eles mesmos produziram, usam remédios ainda piores, tornando o planeta incurável.

Somos oprimidos por uma concepção oligárquica, de cima para baixo e cada vez mais privatista de todos os, bens comuns e públicos; estamos diante do recrudescimento do sistema capitalista com um entrelaçamento perigoso entre economia de guerra, economia do crime e economia predatória.

Guerra e máfias: mesmas estratégias de aproveitar emergências e o estado de exceção?

O sistema capitalista precisa de emergências, de um estado de exceção e quer que isso se torne normalidade. Pensemos nas emergências ambientais sobre as quais o sistema criminoso tira proveito: a isso chamamos de eco máfia. O sistema criminoso formado por máfias, política e negócios não quer que a emergência termine. Quanto mais houver emergências, mais dinheiro fácil circulará para eles, com linhas de crédito diretas, regras suprimias, privatizações, e as pessoas aceitam porque há uma emergência. Ao não podermos mais tirar petróleo e gás da Rússia o carvão é relançado esquecendo-se as mudanças climáticas. A guerra e as máfias têm muito em comum, em termos de atitudes militares, mas também culturais; a opressão dos poderosos sobre os fracos, o massacre, a estratégia de intimidação.

Na Itália você está trabalhando com outros políticos e intelectuais de esquerda para uma alternativa unindo forças de esquerda; uma frente popular em cooperação internacional com movimentos sociais como os camponeses de diferentes territórios e lideranças indígenas como no Brasil. Nos fale sobre isso.

Temos um trabalho ético, político, social e  econômico de grande complexidade a ser desenvolvido. O ponto de virada pode ser justamente no momento mais dramático da crise do sistema capitalista: guerra, pandemia, desigualdade, fome, destruição do meio ambiente e variados crimes. Estou falando de um sistema diante do qual não há muitas alternativas: ou conseguimos atingir esse sistema no seu cerne, de forma pacífica, democrática e constitucionalmente orientada, substituindo-o por outro modelo, ou nos encontraremos em um ponto de não retorno. As próximas guerras que serão por bens essenciais como água e trigo explicitarão ainda mais o extremo fracasso do capitalismo. Democracia não é apenas votar, mas fortalecer outros valores, princípios e comportamentos. No caso italiano, faz-se imperioso uma conduta ética, principalmente dos agentes públicos, alinhada com a Constituição italiana nascida da resistência ao nazifascismo. Essa memória deve ser defendida com todas as forças. O primeiro artigo da Constituição italiana coloca a soberania popular como fundamento da República.

Uma frente popular contra o capital e suas estratégias de consenso.

Acredito que a política, inclusive a de representação e de manutenção das instituições políticas deve se conectar com as massas populares. Popular requer ouvir as pessoas, tomar decisões junto com as comunidades, atentos às muitas realidades que animam a vida democrática, exatamente o contrário de populista que – em sentido pejorativo – explora o povo, alimenta medos, ansiedades e sofrimentos, atualmente usando das mídias para homologar um pensamento único. A palavra “popular” tem um forte significado para mim. Refiro-me sobretudo aos grupos populares mais aflitos, com menos direitos, mais oprimidos. Minha experiência como prefeito de Nápoles foi anômala para o sistema, porque governamos a cidade fora do sistema. Conduzimos um governo popular com grande autonomia, enfrentando a oposição de todos os grandes partidos presentes no Parlamento.

É mais fácil realizar “grandes obras” do que mudar a mentalidade, o sentimento, os humores de um povo, trabalhando para a justiça social, as energias certas: uma cultura de paz, valorizando a educação e a cultura. Nesse sentido, o “popular” incomoda o sistema, porque está desvinculado dele. Essa é a essência ética e o ideal político a partir do qual devemos nos organizar. É claramente anticapitalista.

* Paolo Vittoria, pedagogo, pesquisador, professor universitário, editor e jornalista.

**Arnaldo F. Cardoso, sociólogo, cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), escritor e professor universitário.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Maria

    14 de junho de 2022 4:48 pm

    Ótima entrevista que nós trás esperança!

Recomendados para você

Recomendados