4 de junho de 2026

Lúcio Flávio Pinto escreve sobre a verdade agredida

 

A verdade agredida

 

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Vivemos na melhor democracia de toda história republicana do Brasil, que já dura 27 anos, embora seja quase um nada pela bitola das mais antigas democracias ocidentais. Nunca houve tanta liberdade de expressão em terras brasileiras. Mas há uma anomalia nesse nirvana político, observa José Roberto Guzzo na última edição de Veja: “a principal ameaça à liberdade de imprensa no Brasil vem de jornalistas”.

O alvo do articulista da revista paulista são aqueles jornalistas que pregam “a necessidade de submeter a controles externos o que escrevem ou dizem os jornalistas brasileiros. É algo inédito – estão lutando pelo direito de não informar”.

Esses jornalistas gostariam de calar os críticos do governo, os que não rezam pela cartilha do PT, aqueles que são apontados como integrantes do monopólio da mídia, aliados da elite e sacerdotes do neoliberalismo.

A tese é controversa e por isso mesmo deve ser debatida à exaustão. Os jornalistas criticados por Guzzo usam fatos reais no diagnóstico que fazem dos vícios da imprensa nacional e a deformação que ela induz na opinião pública.

Mas seu receituário levará a efeitos colaterais piores. Na defesa da verdadeira democracia, ameaçam destruir qualquer força democrática, inclusive a falsamente democrática, inevitável se o que se pretende é chegar a um regime de plena liberdade de expressão, equilibrada pela respectiva responsabilidade.

De minha parte, aponto o outro lado da questão, sobre a qual posso dar meu testemunho: a intolerância dos órgãos da grande imprensa diante da crítica que se lhes é feita. Os donos ou responsáveis pelos veículos de comunicação, sobretudo os impressos, ao invés de contraditar os críticos, estabelecendo um debate proveitoso para todos, ficam irados e reagem usando seu poder, mais do que seu direito.

E, quando recorrem ao direito, pressionam nos bastidores do judiciário para conseguir o que querem: eliminar o crítico, especialmente o renitente, que não se submete à sua vontade.

Dez anos atrás, em 21 de janeiro de 2005, fui agredido por um cidadão que era, ao mesmo tempo, dono do maior grupo de comunicação do norte do país, diretor do jornal dessa corporação, jornalista registrado no sindicato da categoria, advogado e presidente da comissão em defesa da liberdade de imprensa da OAB do Pará.

É sempre elucidativo relembrar as circunstâncias dessa agressão:

– Eu almoçava descontraidamente com meus amigos de um “senadinho” das sextas-feiras.

– O restaurante em que estávamos fica em um parque publico, onde a secretaria de cultura do Estado tem sua sede. O lugar estava lotado.

– O agressor tinha 19 anos a menos do que eu.

– Ele me atacou pelas costas, não permitindo nem que eu pudesse me levantar para me defender, enfrentá-lo ou fugir.

– Sua agressão foi acompanhada por dois capangas, um dos quais também me agrediu, e a um dos meus amigos, jogado ao chão, como eu. Ambos eram militares da ativa da PM, que deviam estar naquele momento no quartel.

– Consumado o ato, o agressor foi levado às pressas para evitar a caracterização do flagrante.

E se alguém estivesse armado? E se, dentre as dezenas de pessoas presentes, alguém saísse na minha defesa? Se virasse tumulto e quebra-quebra?

São hipóteses, embora irreais. O ataque foi tão decidido e rápido que não houve tempo sequer para que a maioria das pessoas o acompanhasse. Muitos só se deram conta da anormalidade quando o agressor e sua tropa já haviam fugido.

Qual a razão dessa selvageria acompanhada de covardia?

Um artigo que escrevi, publicado no meu Jornal Pessoal dias antes. Era sobre o irmão de Ronaldo e principal executivo do grupo de comunicação, Romulo Maiorana Júnior, com o título de “O rei da quitanda”. Não havia qualquer referência a Ronaldo no texto.

Ele disse que sua reação foi motivada por referência que fiz ao seu pai como contrabandista. A família recusava-lhe o título, mas Romulo Júnior acabou por admitir o fato num dos artigos publicados em O Liberal com a sua assinatura. Justificou a prática da contravenção penal por Romulo Maiorana: ele precisava sustentar sua família.

Foi preciso suportar 14 processos, ajuizados pelos irmãos depois da agressão, para obrigá-los, à força da verdade comprovada por numerosos fatos juntados aos autos, a reconhecer que eu tinha razão. Mas por que não admitiram isso de público? Por que não se desculparam publicamente? Por que continuaram a me perseguir?

Porque querem o monopólio da crítica, que lhes deve dar a prerrogativa de não aceitar a verdade quando ela não lhes sirva ou desagrade. A grande imprensa, em particular a paraense, não se quer ver diante do espelho adverso, apenas ser a dona dessa iniciativa. Publica fotos de cadáveres brutalizados, de pessoas humildes envolvidas em crimes, de desafetos em posição desfavorável, mas nada pode prejudicar o brilho que projetam de si mesma. É o complexo de Dorian Gray em sua forma mais extremada – e sem o toque artístico de Oscar Wilde.

Nunca se viu em O Liberal uma carta de leitor criticando o jornal. Nenhuma matéria minimamente crítica aos seus donos. Quando desencadeiam campanhas, não é em defesa da causa pública. É para atender seus interesses corporativos ou pessoais, muitos deles mesquinhos ou fracamente ilegítimos.

Manobram as informações conforme as circunstâncias. Alguém que é exaltado num dia ou frequenta assiduamente suas colunas sociais pode ser deserdado no dia seguinte e ser rebaixado ao nível mais sórdido, quando não é morto em vida. Passam de um polo ao outro ignorando o leitor, sem lhe dar explicações, sem a menor tintura de coerência.

Para que esse poder, que é enorme, seja absoluto, não querem que a verdade seja registrada, quando ela lhes é negativa. É por isso que de 33 processos propostos contra mim desde 1992, 19 são de responsabilidade de três Maioranas.

São ações inspiradas em motivo fútil, suscetibilidade excessiva ou abuso de direito. Mas foram recebidos, processados e receberam decisões favoráveis da justiça paraense, com suas nobres e relevantes exceções.

Mas não sucumbi nem traí meu compromisso com meu leitor, a sociedade, o povo e comigo mesmo. Para que a memória não desapareça, estou lançando neste fim de semana um novo livro: Arma letal, a imprensa do Pará. Ele não trata diretamente da agressão, já suficientemente exposta. Sua preocupação é fazer ver o leitor por que tanto empenho contra um jornal que ocupa o lugar de um David (sem a funda monitorada pelos céus) contra um Golias reforçado.

O objetivo é expurgar a verdade da história, substituindo-a por fábulas, mitos e mentiras. Espero que os leitores conscientes e ativos não deixem que isso aconteça.

A verdade agredida

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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