Tenho até este momento mantido um baixo tom de crítica aos meus colegas engenheiros de São Paulo, mas agora chegou ao limite, à cara de pau ultrapassou tudo.
Escutei uma entrevista do atual presidente da Sabesp, o conhecidíssimo professor Jerson Kelman. Este profissional tem uma trajetória brilhante assumindo postos políticos tanto em governos estaduais como federais como poucos profissionais de engenharia. Devido ao seu porte acadêmico e científico com láureas diversas, direção de órgãos de classe importantes e relevantes para o país como a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), com publicações dos mais diversos gêneros que beiram a duas dezenas de milhar, não podia, não deveria, não tinha a necessidade de torturar a lógica para encaixar seu raciocínio e agradar o seu atual patrão, o Governador Geraldo Alckmin.
Em uma entrevista concedida a Globo o Professor tortura a lógica quando perguntado várias vezes pelo entrevistador se havia ou não um racionamento em São Paulo, para não ter que concordar com o entrevistador e desmentir o governador ao mesmo tempo o brilhante professor saiu com a seguinte resposta.
“...uma pessoa, como mostrou a reportagem, que está sem água diversas horas é evidente que esta pessoa está sob racionamento, isto é óbvio, agora não há uma situação sistêmica de racionamento em toda e região metropolitana ### ### a grande percentagem da população que está aderindo, está sendo consciente, está diminuindo o consumo, mas não está sofrendo,…”
Após isto o entrevistador retoma a mesma pergunta, só perguntando das razões para não aceitar o racionamento.
“...O governo não quer assumir que está racionando?”
No que responde a brilhante e maquiavélica mente.
“…deixa só eu dizer o seguinte, quem está sem água em casa está sendo racionado, mas isto não está generalizado, quer dizer, por exemplo, se eu disser assim: Tem uma epidemia de gripe em São Paulo? Não tem! Mas tem gente com gripe digo, febre #### cama, tem, são coisas diferentes…”
…..
Após isto o apresentador retoma a mesma questão.
“O senhor também diz que não há racionamento? O Senhor acha que não há?”
No que insiste o professor:
“Isto é semântica, estou dizendo o seguinte, a pessoa que está sem água está racionada, mas não está toda a população racionada….”
Vamos então as descaradas falácias e o contorcionismo verbal adotado na entrevista.
Primeiro em declarar que não há racionamento o realmente Presidente da Sabesp não erra, pois segundo definição do dicionário Houaiss, racionamento implica em:
“distribuição ou venda controlada de certos víveres ou bens carentes, determinada pelas autoridades governamentais para assegurar uma distribuição mais justa entre os consumidores ou usuários”,
ou se formos à raiz da palavra, racionar:
“distribuição em quantidades medidas em rações <racionar a água na cidade, devido à seca>”
e o que ocorre em São Paulo é pior do que isto.
O falta do bem escasso está sendo feita de uma forma totalmente fora da lógica do racionamento, pois quem sofre o corte de água são as pessoas que através de uma loteria geográfica associada ao desenvolvimento da rede de distribuição de água simplesmente não vê este bem chegar a sua casa. Ou seja, o critério de distribuição do prejuízo da seca não é a atribuição de “medidas em rações”, como expresso no nosso bom Houaiss, mas uma má, escolha do cidadão em ter construído ou comprado a casa em um local onde a pressão da rede era menor, neste ponto podemos dizer que o sujeito que sofre o corte sistemico da água não está sendo racionado, como diz o presidente da Sabesp, está sendo penalizado por ter comprado uma casa num local impróprio sem saber que este local era impróprio, ou seja uma pena a alguém sem intensão de crime.
Por outro lado à comparação com a gripe é extremamente falha, pois os casos de gripe numa cidade são distribuídos aleatoriamente em vários bairros ou casas e no caso deste falso racionamento é mais parecido com surtos sucessivos de malária em determinada região da cidade, pois diferentemente da malária, na gripe a pessoa cria anticorpos e no caso de São Paulo são sempre os mesmos que sofrem a interrupção do fornecimento.
Após isto, o Professor Kelman passa a divagações sobre a diminuição voluntária do consumo, embolando com a explicação de porquê somente alguns são atingidos por este racionamento, não racional, deixando de certa forma implícita que determinados cidadãos economizam água enquanto outros não.
A forma em que é dito isto (esta afirmação é mais subjetiva) induz o ouvinte a atribuir à falta de água em determinada região como produto do desperdício daqueles que estão antes na rede, ou seja, numa região há gastadores que não economizam água e como resultado disto os que estão próximos a eles vão ficar sem água.
Depois vem O PIOR DE TUDO a descrição final da forma em que a Sabesp enfrenta e enfrentará o problema da falta de água. O método a ser empregado descrito pelo presidente da Sabesp é mais ou menos como a piada do cavalo do inglês, que a cada semana ele diminuía a ração para que ele se acostumasse a não comer, o problema foi que quando o cavalo estava quase se acostumando ele morreu.
Ou seja, a Sabesp, segundo as palavras de seu novo presidente vão começar a reduzir a ração a cada semana, e esta redução será feita principalmente pelas pessoas que não tiveram o cuidado de na compra de sua casa ter medido a pressão na rede, pois quem mora no fim da rede, ou em pontos mais altos ou com outros problemas da Sabesp vão chegar daqui a algum tempo a não ter água permanentemente em suas residências, lojas ou fábricas.
Para complementar a entrevista o entrevistador fala numa coisa que estão induzindo as pessoas ao desconhecimento e a ignorância, a famosa expressão “diminuir a pressão”. Este termo está sendo utilizada constantemente como uma forma de não dizer que a Sabesp está diminuindo a quantidade de água (o volume).
Ao lado da reportagem há um INFOGRAMA sugerindo uma solução MÁGICA para falta de água, a colocação de um reservatório (Esta é o máximo em empulhação).
Alguém da Sabesp ou outra “sumidade” em abastecimento público dá como solução à falta de água a colocação de um reservatório que sirva para suprir a residência em 24 horas de consumo. Isto vem a ser a maior estupidez e enganação dos pobre-coitados dos clientes da Sabesp, vindo a ser um ótimo negócio para os fabricantes, vendedores e instaladores de reservatórios, porém um péssimo negócio para a população, pois esta solução simplesmente favorece quem está numa zona em que a água é mais constante e piora as condições daqueles que recebem água somente a noite.
Por quê? Simples, vamos explicar, imagine que a Sabesp que fornecia 250.000 litros de água para uma dada região com 1000 habitantes (250 litros /habitante), devido à falta ela passa a distribuir somente 100.000 litros para os mesmos 1000 habitantes (100 litros/habitante). Se não houvesse reservatórios nas casas, quem acordasse a noite e juntasse alguns baldes conseguiria os seus suados 100 litros e os utilizaria com comedimento durante o dia. Com gulosos reservatórios as casas que estiverem em pontos mais baixos (pressão mais alta) ou simplesmente no início da rede recolherão, por exemplo, 250 litros/habitante e somente 200 pessoas ficarão com água, para o resto como diz o presidente da Sabesp eles ficarão sem água.
Ou seja, ou através de falácias, jogos de palavras, discurso enrolado, explicações incorretas e outras formas de manipulação da linguagem, não só o presidente da Sabesp como o governo de São paulo em geral, vão enganando o consumidor, esquecendo-se de dizer que na piada do cavalo do Inglês o cavalo morre no fim da história.
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