3 de junho de 2026

Posso ser até processado! Mas que estão mentindo, estão.

Tenho até este momento mantido um baixo tom de crítica aos meus colegas engenheiros de São Paulo, mas agora chegou ao limite, à cara de pau ultrapassou tudo.

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Escutei uma entrevista do atual presidente da Sabesp, o conhecidíssimo professor Jerson Kelman. Este profissional tem uma trajetória brilhante assumindo postos políticos tanto em governos estaduais como federais como poucos profissionais de engenharia. Devido ao seu porte acadêmico e científico com láureas diversas, direção de órgãos de classe importantes e relevantes para o país como a Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), com publicações dos mais diversos gêneros que beiram a duas dezenas de milhar, não podia, não deveria, não tinha a necessidade de torturar a lógica para encaixar seu raciocínio e agradar o seu atual patrão, o Governador Geraldo Alckmin.

Em uma entrevista concedida a Globo o Professor tortura a lógica quando perguntado várias vezes pelo entrevistador se havia ou não um racionamento em São Paulo, para não ter que concordar com o entrevistador e desmentir o governador ao mesmo tempo o brilhante professor saiu com a seguinte resposta.

“...uma pessoa, como mostrou a reportagem, que está sem água diversas horas é evidente que esta pessoa está sob racionamento, isto é óbvio, agora não há uma situação sistêmica de racionamento em toda e região metropolitana ### ### a grande percentagem da população que está aderindo, está sendo consciente, está diminuindo o consumo, mas não está sofrendo,…

Após isto o entrevistador retoma a mesma pergunta, só perguntando das razões para não aceitar o racionamento.

“...O governo não quer assumir que está racionando?

No que responde a brilhante e maquiavélica mente.

…deixa só eu dizer o seguinte, quem está sem água em casa está sendo racionado, mas isto não está generalizado, quer dizer, por exemplo, se eu disser assim: Tem uma epidemia de gripe em São Paulo? Não tem! Mas tem gente com gripe digo, febre #### cama, tem, são coisas diferentes…

…..

Após isto o apresentador retoma a mesma questão.

O senhor também diz que não há racionamento? O Senhor acha que não há?

No que insiste o professor:

Isto é semântica, estou dizendo o seguinte, a pessoa que está sem água está racionada, mas não está toda a população racionada….

Vamos então as descaradas falácias e o contorcionismo verbal adotado na entrevista.

Primeiro em declarar que não há racionamento o realmente Presidente da Sabesp não erra, pois segundo definição do dicionário Houaiss, racionamento implica em:

distribuição ou venda controlada de certos víveres ou bens carentes, determinada pelas autoridades governamentais para assegurar uma distribuição mais justa entre os consumidores ou usuários”,

ou se formos à raiz da palavra, racionar: 

distribuição em quantidades medidas em rações <racionar a água na cidade, devido à seca>

e o que ocorre em São Paulo é pior do que isto.

O falta do bem escasso está sendo feita de uma forma totalmente fora da lógica do racionamento, pois quem sofre o corte de água são as pessoas que através de uma loteria geográfica associada ao desenvolvimento da rede de distribuição de água simplesmente não vê este bem chegar a sua casa. Ou seja, o critério de distribuição do prejuízo da seca não é a atribuição de “medidas em rações”, como expresso no nosso bom Houaiss, mas uma má, escolha do cidadão em ter construído ou comprado a casa em um local onde a pressão da rede era menor, neste ponto podemos dizer que o sujeito que sofre o corte sistemico da água não está sendo racionado, como diz o presidente da Sabesp, está sendo penalizado por ter comprado uma casa num local impróprio sem saber que este local era impróprio, ou seja uma pena a alguém sem intensão de crime.

Por outro lado à comparação com a gripe é extremamente falha, pois os casos de gripe numa cidade são distribuídos aleatoriamente em vários bairros ou casas e no caso deste falso racionamento é mais parecido com surtos sucessivos de malária em determinada região da cidade, pois diferentemente da malária, na gripe a pessoa cria anticorpos e no caso de São Paulo são sempre os mesmos que sofrem a interrupção do fornecimento.

Após isto, o Professor Kelman passa a divagações sobre a diminuição voluntária do consumo, embolando com a explicação de porquê somente alguns são atingidos por este racionamento, não racional, deixando de certa forma implícita que determinados cidadãos economizam água enquanto outros não.

A forma em que é dito isto (esta afirmação é mais subjetiva) induz o ouvinte a atribuir à falta de água em determinada região como produto do desperdício daqueles que estão antes na rede, ou seja, numa região há gastadores que não economizam água e como resultado disto os que estão próximos a eles vão ficar sem água.

Depois vem O PIOR DE TUDO a descrição final da forma em que a Sabesp enfrenta e enfrentará o problema da falta de água. O método a ser empregado descrito pelo presidente da Sabesp é mais ou menos como a piada do cavalo do inglês, que a cada semana ele diminuía a ração para que ele se acostumasse a não comer, o problema foi que quando o cavalo estava quase se acostumando ele morreu.

Ou seja, a Sabesp, segundo as palavras de seu novo presidente vão começar a reduzir a ração a cada semana, e esta redução será feita principalmente pelas pessoas que não tiveram o cuidado de na compra de sua casa ter medido a pressão na rede, pois quem mora no fim da rede, ou em pontos mais altos ou com outros problemas da Sabesp vão chegar daqui a algum tempo a não ter água permanentemente em suas residências, lojas ou fábricas.

Para complementar a entrevista o entrevistador fala numa coisa que estão induzindo as pessoas ao desconhecimento e a ignorância, a famosa expressão “diminuir a pressão”. Este termo está sendo utilizada constantemente como uma forma de não dizer que a Sabesp está diminuindo a quantidade de água (o volume).

 Ao lado da reportagem há um INFOGRAMA sugerindo uma solução MÁGICA para falta de água, a colocação de um reservatório (Esta é o máximo em empulhação).

Alguém da Sabesp ou outra “sumidade” em abastecimento público dá como solução à falta de água a colocação de um reservatório que sirva para suprir a residência em 24 horas de consumo. Isto vem a ser a maior estupidez e enganação dos pobre-coitados dos clientes da Sabesp, vindo a ser um ótimo negócio para os fabricantes, vendedores e instaladores de reservatórios, porém um péssimo negócio para a população, pois esta solução simplesmente favorece quem está numa zona em que a água é mais constante e piora as condições daqueles que recebem água somente a noite.

Por quê? Simples, vamos explicar, imagine que a Sabesp que fornecia 250.000 litros de água para uma dada região com 1000 habitantes (250 litros /habitante), devido à falta ela passa a distribuir somente 100.000 litros para os mesmos 1000 habitantes (100 litros/habitante). Se não houvesse reservatórios nas casas, quem acordasse a noite e juntasse alguns baldes conseguiria os seus suados 100 litros e os utilizaria com comedimento durante o dia. Com gulosos reservatórios as casas que estiverem em pontos mais baixos (pressão mais alta) ou simplesmente no início da rede recolherão, por exemplo, 250 litros/habitante e somente 200 pessoas ficarão com água, para o resto como diz o presidente da Sabesp eles ficarão sem água.

Ou seja, ou através de falácias, jogos de palavras, discurso enrolado, explicações incorretas e outras formas de manipulação da linguagem, não só o presidente da Sabesp como o governo de São paulo em geral, vão enganando o consumidor, esquecendo-se de dizer que na piada do cavalo do Inglês o cavalo morre no fim da história.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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