4 de junho de 2026

Frei Betto: Thomas Merton, Místico do Século 20

Enviado por Antonio Ateu

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Thomas Merton, místico do século 20

Do Correio da Cidadania

Por Frei Betto

A palavra mística causa estranhamento. Para muitos, isso é coisa do outro mundo ou de pessoas alucinadas. Ora, o místico é como qualquer outro ser humano. O que o difere é ser um eterno apaixonado por quem, nele, é mais íntimo a ele do que ele a si mesmo: Deus.

A 31 de janeiro, Thomas Merton faria 100 anos. É um dos quatro mais conhecidos místicos do século 20, ao lado de Simone Weil, Teilhard de Chardin e Charles de Foucauld. Fui apresentado às suas obras por Dom Timóteo Amoroso Anastácio, capelão das monjas beneditinas de Belo Horizonte, no início da década de 1960.

Filho de pai neozelandês, que era pintor, e mãe usamericana, Merton nasceu na França. Recebeu o batismo na Igreja Anglicana. Aos 11 anos, aluno interno na Inglaterra, já lia William Blake, D.H. Lawrence e James Joyce.

Ingressou na Universidade de Cambridge e, de mudança para os EUA, em 1934, em Columbia cursou espanhol, alemão, literatura francesa, geologia e direito civil. Acercou-se da Juventude Comunista.

A leitura de O espírito da filosofia medieval, de Étienne Gilson, despertou seu interesse pela escolástica. Mergulhou nas obras de Tomás de Aquino e Duns Scotus. No entanto, foi um monge budista, de quem se tornou amigo, que o despertou para o cristianismo. Aconselhou-o a ler Santo Agostinho. Em 1938, em Nova York, Merton foi admitido na Igreja Católica.

Doutor em literatura inglesa aos 24 anos, tornou-se crítico literário do New York Times e do New York Herald Tribune. A obra de São João da Cruz suscitou-lhe a vocação sacerdotal, no que foi desestimulado pelos franciscanos. Entre 1939 e 1941, escreveu um diário e três romances (todos recusados pelas editoras), enquanto fazia trabalho social junto à população negra do Harlem.

Os retiros espirituais na abadia cisterciense (monges trapistas) de Gethsemani, em Kentucky, o convenceram a se tornar trapista, ordem religiosa austera e contemplativa (No Brasil, há uma comunidade trapista em Campo do Tenente, PR). Ao deixar Nova York, aos 27 anos, Merton distribuiu suas roupas no Harlem; os livros, aos franciscanos; e rasgou dois de seus romances.

Merton viveu em Gethsemani de 1941 a 1968, onde foi mestre de um noviço nicaraguense que, mais tarde, se revelaria excepcional poeta: Ernesto Cardenal. Em 1948, a publicação de sua biografia precoce, A montanha dos sete patamares (título inspirado na Divina Comédia, de Dante)alcançou repercussão mundial. No Brasil, foi editado pela Vozes. Sua leitura influiu em minha vocação religiosa.

Ao longo de seus 27 anos como monge, Merton escreveu compulsivamente. Homem algum é uma ilha é um de seus livros mais traduzidos. Vinculou-se aos movimentos pacifistas e destacou-se como crítico da guerra do Vietnã.

Do eremitério em que morava nos três últimos anos de vida, sua voz ecoava através de artigos, livros, entrevistas e vasta correspondência. Com a sua tradutora no Brasil, a monja beneditina Maria Emmanuel de Souza e Silva, trocou 951 cartas entre 1954 e 1968.

Interessado no zen-budismo, aos 53 anos, em 1968, viajou ao Oriente para se aprofundar na espiritualidade budista. Entrevistou-se com o Dalai Lama e, em Bangcoc, a 10 de dezembro daquele ano, proferiu conferência sobre “Monaquismo e marxismo”. Pouco depois, o encontraram morto no quarto, eletrocutado pelo fio desencapado do ventilador. Foi sepultado nos EUA.

Mais de 40 obras de Merton mereceram publicação no Brasil, graças a amigos como Alceu Amoroso Lima, que o considerava “o João da Cruz do século 20”. Em nosso país, a Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton (www.merton.org.br) difunde sua espiritualidade e obra.

Frei Betto é escritor, autor de “Fome de Deus” (Paralela), entre outros.

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8 Comentários
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  1. Hans Bintje

    21 de janeiro de 2015 3:41 pm

    Influencia intelectual

    Thomas Merton é uma referência enorme para mim.

    É um companheiro de viagem — física / espiritual — de deslumbramento pelo mundo, pelo que consigo ver ou apenas intuir.

    E o caminho não acaba aqui e eu abro os braços para o que virá, sem medo, para encontrar com o motivo e a razão de existir.

    Que bom poder contar com um amigo assim nessa jornada!

    Mind Blown

  2. Ramalho12

    21 de janeiro de 2015 6:25 pm

    Somos marionetes do determinismo “divino”

    Deus. Se Deus fosse bom, 1% da população mundial não deteria mais de 50% da riqueza do planeta. E não se diga que tal se dá porque o homem é mau, é excrescência da ordem divina. O homem faz parte da natureza e, assim  como boi come capim, o gato caça o rato e alguns pássaros cantam, o ser humano explora seu semelhante por imposição natural, ou divina, ou por causa de ambas. Em todas as sociedades, sempre houve e há exploracão do homem pelo homem, o que alguns expressam dizendo que “o homem é um animal político”. É também esse determinismo que leva o homem a descobrir, inventar, tentar sobreviver e ampliar seu espaço vital. Desse determinismo “divino”, só se salvam, do ponto de vista de uma ética humanamente compreensível, o amor (especialmente o materno) e a expressão artística (especialmente a musical).

  3. antonio francisco

    21 de janeiro de 2015 8:41 pm

    Dois dos livros dele

    http://www.ocampones.com/?p=6469

    Homem Algum É uma Ilha

    http://www.saraiva.com.br/homem-algum-e-uma-ilha-132173.html

  4. Anarquista Lúcida

    21 de janeiro de 2015 9:45 pm

    É. Tá na moda agora. Crime de blasfêmia e culto a “místicos”

    Céus! Tanta gente desistindo das conquistas do Iluminismo. Claro que de um frei, mesmo “de esquerda”, nao se espera outra coisa, mas o que me assuta é que esse discurso de m* está se espraiando. 

    1. Humberto A Borges

      22 de janeiro de 2015 2:01 am

      Thomas Merton, Místico do Século 20

      Vc por acaso já discerniu em toda sua pretensa sabedoria que a m* de fato está em sua cabecinha?

      1. Anarquista Lúcida

        22 de janeiro de 2015 8:24 pm

        Vc deve ser um crente, né? Daqueles bem ortodoxos

        Nem admite a hipótese de que alguém possa considerar sua religiao “sagrada” como um discurso de m*. Ora passe bem. Nao é a minha cabeça que acredita em fábulas. 

    2. Natan Pardinho

      22 de janeiro de 2015 3:21 am

      Já se perguntou por que o seu

      Já se perguntou por que o seu “Iluminismo” está sendo deixado de lado?…não adianta, sempre se volta à suas origens…

      1. Anarquista Lúcida

        22 de janeiro de 2015 8:25 pm

        Já. Porque o obscurantismo religioso está se espraiando

        E nao é só na França nao. Veja-se a atitude dos malafaias da vida aqui. E a eterna mania da ICAR de se meter no que nao é da conta dela, o ventre das mulheres. Que as religioes se metam na vida dos seus crentes, se eles permitem isso, mas que nao queiram sair do seus quintais, ora, ora. 

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