4 de junho de 2026

Por mais psicologia na análise política, por Cesar Monatti

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A estupefação provocada com freqüência pelas notícias de novos comportamentos, posturas e atitudes de agentes políticos de trajetória longa e conhecida pode estar sustentada por um desvio de interpretação.

Por via de regra, a análise política tende a adotar uma abordagem do geral para o particular e, poucas vezes, com exceção de conjunturas muito peculiares, o contrário.

Em especial, a influência da sociologia, da antropologia, da economia, etc., com sua busca de identificação de padrões numa quase forçosa emulação das ciências naturais, induz a uma visão dos fenômenos políticos a partir de grandes categorias como classes sociais, agentes econômicos, etnias e grupos de interesse.

Nesse sentido, o comportamento individual dos atores políticos fica relegado, quase sempre, a estudos biográficos post mortem ou a especulações superficiais que usualmente bordejam os limites da futrica, da generalização leviana e do preconceito.

As questões que vem à tona quando da eclosão de atitudes políticas de rompimento ou adesões inusitadas e virtualmente incompreensíveis de experientes personalidades políticas são, em primeiro lugar, como e quanto considerar os aspectos humanos individuais na interpretação dessas iniciativas e, além disso, como avaliar a dificuldade do entendimento dessas escolhas sem cair no fuxico ao estilo das revistas sobre sub-celebridades ou na análise psicológica “de almanaque” dos envolvidos.

De todo modo, são tantas e tão impactantes situações recentes na política brasileira que remetem a sentimentos individuais, muito mais do que objetividades ideológicas como fonte de rupturas, e tão numerosas declarações bizarras de gente que ostenta longos e ricos currículos na vida pública, que parece ser necessário e urgente colocar-se a política nacional no divã.

Na medida em que a psicologia foi desenvolvida ao redor do eixo da sexualidade e do gênero, aspectos relacionais entre pessoas de famílias convencionais ou não convencionais têm força para potencializar o entendimento da dimensão psicológica do discurso e da práxis política.

Relações entre lideranças políticas que possam reproduzir simbolicamente os relacionamentos homem-mulher, pai-filho, filha-pai, irmão-irmão, entre outros, podem e talvez devam ser objeto de atenção de analistas políticos. 

A mais recente explosão pública de franqueza de uma personalidade política proeminente sobre seu “estarrecimento” com os rumos do partido político que “ajudou a construir”, agregada às anteriores de alguns ex-correligionários que, para além das declarações, tomaram rumos político-partidários de dissidência podem se constituir num bom tema de análise psicológica da política brasileira contemporânea, haja vista que por outras vertentes mais generalizantes do conhecimento torna-se virtualmente impossível compreenderem-se tais decisões e condutas.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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7 Comentários
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  1. altamiro souza

    12 de janeiro de 2015 3:09 pm

    para entender esas

    para entender esas personalidades, é preciso analisar

    as atitudes individualistas  deles, apegadas

    a interesses momentaneos, carreiristas.

    nada de novo nesse ambiente.

    o interesse das massas?

    aí já é querer demais deles

  2. Free Walker

    12 de janeiro de 2015 3:53 pm

    A política no divã.

    Texto excelente.

    Pois inexplicável, pegando um caso isolado, duas mulheres de passado completamenta antagônicos como Kátia Abreu e Dilma Rousseff se tornarem amigas leais e confidentes. KA no ministério é cota de Dilma, saiu do PSD para o fazer “número” e o PMDB não ficar reclamando, pois na verdade KA é do grupo de Kassab.

    Nada explica a mudança de lado de KA, até dois anos atrás uma combativa liderança liberal de direita (era nosso orgulho). A senadora demista tão combativa na CPI do Cachoeira, a senadora que desafiava o machismo de Roberto Requião, o político criador de cavalos paranaense também conhecido como Maria Loka,  no Congresso.

     

  3. Emma

    12 de janeiro de 2015 4:05 pm

    Humanos ?!

    Já está lá na obra do bom e velho Shakespeare o quanto sentimentos como inveja, ciúmes, cobiça etc…se exacerbam na luta pelo Poder. Às vezes nem são efeitos, mas causas do descontentamento de quem quer mais espaço no mundo político, ser mais visto, mais reconhecido, apreciado etc… Se viu muito dessas emoções durante a campanha eleitoral e continuamos vendo agora.

     

  4. Flavio Patricio Doro

    12 de janeiro de 2015 4:36 pm

    Análise psicológica não é coisa trivial

    Quando se trata da análise psicológica de um personagem público temos, logo de cara, duas grandes dificuldades.

    Uma, conhecer a pessoa o suficiente, em diversas situações, para efetuar uma análise competente – além, é claro, de ter os conhecimentos necessários de psicologia.

    Outra, fazer uma divulgação que atenda ao interesse público sem expor desnecessariamente a intimidade e a imagem da pessoa pública em questão.

    Não é coisa trivial. Tal análise psicológica poderia até ser de bastante ajuda para entender o que se passa, mas não temos como ler a mente das pessoas, além de termos de ter cuidado com a sua imagem.

    Um exemplo de análise bem feita, mas que por si só ilustra a dificuldade de lançar mão desse recurso com maior frequência, é a que o Luís Nassif fez de José Serra há mais de quatro anos: https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/serra-e-fhc-uma-relacao-delicada .

  5. JorgeSP

    12 de janeiro de 2015 7:50 pm

    não há nada de explosão

    não há nada de explosão emocional, problema psicológico,  etc. na atitude da senadora marta.

    é ato planejado e bem pensado, calculado até os últimos detalhes.

    assim o texto invalidou a própria tese que pretendia demonstrar.

    marta, devolva o mandato de senadora que voce conseguiu com os votos dos petistas que apoiam candidatos da legenda.

    devolva o mandato e boa-sorte em seu novo partido – melhor, boa sorte ao seu novo partido…

    1. Emma

      13 de janeiro de 2015 1:30 pm

      PRATO FRIO

      Não me parece que o texto fale em “explosão emocional” . Ciúmes, inveja, despeito, rancor, cobiça, vaidade etc… são sentimentos que provocam desejo de vingança que, como diz a máxima, “é um prato que se come frio”.  A revanche pode ter sido (foi) planejada, o que mantém a tese do autor do texto. O que move tudo isso precisa ser avaliado à luz da psicologia também. Na minha modestíssima opinião, claro…

  6. Jorge Moraes

    13 de janeiro de 2015 1:24 pm

    Convite bem-vindo

    O convite à abordagem psicanalítica sobre os fenômenos políticos – que serão sempre culturais – é muito bem-vindo.

    São vários os textos que demonstram a possibilidade / necessidade de avaliarmos  fatos e cenários sociais a partir do “enviesado” olhar  psicanalítico, 

    Em Freud – Mal-estar na civilização, Totem e Tabu e Futuro de uma Ilusão – as eventuais desconfianças quanto a aplicabilidade da teoria / prática sobre conjuntos de indivíduos restam dissipadas.

    A leitura do mundo tal como ele é – e está – não pode dispensar – seria no mínimo um desperdício – a interpretação diferenciada que a psicanálise proporciona.

    Ademais, cumpre examinar a questão do analista político – indivíduo, portanto – nos exames e juízos que profere sobre os fatos e ações de conjuntos e de protagonistas da ação real. Parece-me não só lícito, como também razoável, especular sobre a interferência do ser sobre a apreciação do todo. 

     

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