4 de junho de 2026

Da Tragédia à Farsa, por Zizek

Enviado por Antonio Ateu

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John Gray (boo) on Zizek (sigh)

 

https://www.youtube.com/watch?v=t7nnUo_QdsY]

 

“Da Tragédia à Farsa”

Eu quero desenvolver uma linha de raciocínio muito simples e linear sobre um ponto: por que na nossa economia a caridade não é mais apenas uma idiossincrasia de alguns caras legais, mas o constituinte básico da nossa economia.

Gostaria de começar com o futuro do assim chamado “Capitalismo Cultural”, a forma do capitalismo hoje em dia, e então mostrar como a mesma coisa se aplica à economia no sentido mais estrito do termo. 

Principalmente, se nos velhos tempos – por “velhos tempos” refiro-me a algo bem preciso, antes da transformação do capitalismo pós-68 naquilo que geralmente chamamos de capitalismo cultural pós-moderno preocupado com a ecologia, e por aí vai. O que mudou?

O que mudou é que antes dessa época havia uma simples (mais ou menos simples) oposição entre “aqui é o consumo, você compra, você especula etc, etc …” e aquilo que ficava mais “acima”, o que você faz por uma sociedade como … como Soros.

Ele é ainda do velho tipo, eu afirmo.

Para simplificar, de manhã ele pega o dinheiro, de tarde ele devolve metade do dinheiro para caridade, para o apoio a causas, etc. 

Mas argumenta-se que, hoje em dia, a tendência crescente do capitalismo é juntar as duas dimensões num construto único e idêntico.

De forma que quando você compra algo, o seu dever anti-consumista de fazer algo pelos outros, pelo meio-ambiente, etc, já vem incluído.

Se vocês acham que estou exagerando, dêem uma volta na esquina, e entrem em alguma loja da Starbucks.

Vocês verão como eles lhes dizem explicitamente, e eu cito a campanha deles, “Não é apenas aquilo que você está comprando,”

“É a causa que você está comprando.” E então eles descrevem para vocês, ouçam:

“Quando você compra no Starbucks, independentemente de você se aperceber ou não,”

“você está comprando algo maior de que apenas uma xícara de café,”

“você está comprando uma ética do café”

“Através do nosso programa Starbucks Planeta Comum,”

“nós adquirimos mais café do que qualquer outra empresa no mundo baseado em um comércio justo”

“garantindo que os agricultores que cultivaram as sementes recebam um preço justo pelo seu duro trabalho”

“E nós investimos e melhoramos as práticas de plantio de café e comunidades”

“É um bom karma do café”

“E uma parte do preço do café Starbucks ajuda a decorar o ambiente com mobília confortável, etc, etc”

Isso é o que eu chamo de Capitalismo Cultura na sua essência.

Você não compra apenas um café, você compra o próprio ato do consumo. Você compra a própria redenção por ser um consumidor. Você faz algo para melhorar o meio-ambiente, você faz algo para ajudar crianças famintas na Guatemala, você fal algo para reestabelecer o sentido comunitário aqui e acolá, etc, etc.

Isto … de novo … eu poderia continuar como o …quase absurdo exemplo que é o chamado Tom’s Shoes, uma empresa americana cuja fórmula é “1 para 1”.

Eles dizem que para cada par de sapatos que você compra com eles, eles dão um para alguma nação africana, etc, etc, de forma que você saiba que “1 para 1”, um ato de consumo mas, incluído nele, você paga para ser redimido por fazer algo de bom pelo meio-ambiente etc, etc 

Isto … isto cria uma espécie de … como posso dizer … de super-investimento semântico, ou fardo.

Não se trata de comprar apenas uma xícara de café, mas de preencher, ao mesmo tempo, uma série de mandamentos éticos, etc, etc. E, de novo, esta lógica, penso eu, está, hoje em dia, quase universalizada, como … sejamos honestos …. Quando você vai a uma loja, provavelmente você prefere comprar maçãs orgânicas.

Por que? Seja honesto consigo mesmo.

Eu não acho que você realmente acredite que aquelas maçãs que custam o dobro do preço das velhas maçãs geneticamente modificadas “que todos adoramos”, que elas sejam realmente melhores.

Eu afirmo que aí nós somos cínicos, céticos, mas isso faz você se sentir melhor “Faço algo pela nossa Mãe Terra, pelo nosso planeta, etc, etc”. Você compra isso tudo. Então a minha questão é que este interessante curto-circuito em que o próprio ato egóico de consumo já contém o preço do seu oposto.

Baseado nisso tudo, acho que devemos voltar ao velho e bom Oscar Wilde que ainda é o que melhor descreveu esta lógica da caridade

Deixem-me citar apenas algumas páginas do início do seu “A alma do homem moderno sob o socialismo”, onde ele diz que, abre-aspas,

“é muito mais fácil ter simpatia pelo sofrimento,”

“do que ter simpatia pelo pensamento”

“As pessoas vêm-se cercadas de uma pobreza hedionda,”

“por uma feiúra hedionda, por uma fome hedionda.”

“É inevitável que elas sejam fortemente afetadas por tudo isto”

“De acordo com admiráveis, mas mal-direcionadas intenções,”

“Elas, de forma muito séria e sentimental,”

“atribuem-se a tarefa a si próprias de remediar os males que vêem”

“Mas os seus remédios não curam a doença,”

“Elas apenas a prolongam”

“Na verdade, os seus remédios são parte da doença”

“Elas tentam resolver o problema da pobreza,”

“por exemplo, mantendo os pobres com vida”

“ou no caso de uma escola muito avançada,”

“entretendo os pobres”

“Mas isto não é uma solução”

“É um agravamento da dificuldade”

“O objetivo correto é tentar reconstruir a sociedade”

“de uma tal forma que a pobreza seja impossível”

“e que as virtudes altruístas tenham conseguido realmente evitar o desvio deste objetivo”

“Os piores donos de escravos são aqueles que são bons para os seus escravos”

“e que assim impedem que o núcleo do sistema seja percebido por aqueles que sofrem com ele”

“e entendido por aqueles que o contemplam”

“A caridade degrada e desmoraliza”

“É imoral usar a propriedade privada”

“de forma a aliviar os males horríveis que resultaram da instituição da propriedade privada”

Acho que estas linhas são mais atuais que nunca. Por mais bonito que possa parecer, rendimento básico, ou este tipo de trato com os ricos não é a solução. Há para mim um outro … por causa de uma série de problemas … Vejo aqui um outro problema. De novo, isto é para mim a última tentativa desesperada para fazer o capitalismo caminhar para o socialismo

“Não descartemos o mal”

“Vamos fazer o próprio mal trabalhar para o bem”

Lembrem-se, vocês não são velhos o suficiente, eu sou.

Como éramos malucos há trinta, quarenta anos atrás sonhando com o socialismo com uma face humana 

Da forma como está hoje, o mais radical horizonte da nossa imaginação é o capitalismo global com uma face humana. Temos as regras básicas do jogo acrescentamos a elas um pouco mais de humanidade, mais, mais tolerância, mais benefícios, etc, etc

Primeiro, a minha atitude aqui é dar ao Diabo o que ao Diabo pertence e reconheçamos que nas últimas décadas, pelo menos, até recentemente, pelo menos na Europa Ocidental, quero dizer, não estou de papo furado,

Não pensem que em algum momento da história da humanidade, um percentual relativamente alto da população viveu em relativa liberdade, bem-estar, segurança, etc, etc. Eu vejo isto como uma ameaça gradual, mas nem por isso menos séria. 

Quando eu dei a entrevista para Hard Talk, ontem o cara, otário, que é um cara brilhante, não é apenas um otário qualquer, ele disse-me: “Mas você é basicamente misantropo”. Eu disse-lhe “Sim!”, eles louvam a nação britânica.

“Você sabe muito bem que há um certo tipo de misantropia” que é muito melhor como atitude social do que este otimismo profundamente caridoso.

Acho que uma mistura de uma leve – não uma pesada – tendência apocalíptica deixem-me chamar-lhe de … como dizem … soft

Gianni Vatimmo fala de pensamento soft. Eu não concordo com ele mas eu chamaria tendência apocalíptica soft. Não é 2012, nós sabemos, mas nós estamos chegando a um certo ponto zero.

As coisas estão, infelizmente, [ … ecologicamente, socialmente com novos apartheids, etc, estamos chegando a um certo ponto – biogenética, etc – onde … eu não estou dizendo, é óbvio, não sou um idiota que será um retorno ao velho partido leninista de forma alguma. De novo, estou certo aqui: a experiência comunista do século XX foi foi uma mega, mega – do ponto de vista ético, político, econômico, etc – catástrofe.

Eu apenas estou dizendo que se os velhos valores caridosos do liberalismo – eu os amo, mas … – a única forma de os salvar é fazer algo mais

Sabem o que estou dizendo?

Não sou contra a caridade, meu Deus! Num sentido abstrato, claro, é melhor do que nada.

Apenas estejamos cientes de que há um elemento de hipocrisia aí de uma forma que, e não duvido de gente que o conheceu de que Soros é um cara honesto mas há um paradoxo, ele conserta com a mão direita o que estragou com a esquerda

É tudo o que digo. Por exemplo, claro que devemos ajudar as crianças, é horrível ver uma criança cuja vida está arruinada por não poder pagar uma operação que custa 20 dólares.

Mas a longo prazo, como teria dito Oscar Wilde, se você apenas opera a criança, então ela vai viver um pouco melhor, mas na mesma situação que o produziu.

Tradução: Gustavo Lapido Loureiro

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26 Comentários
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  1. Allex

    10 de janeiro de 2015 1:28 pm

    Gosto dos textos desse cara,

    Gosto dos textos desse cara, mesmo não concordando com tudo. Zizek nos arranca da nossa zona de conforto sem qualquer piedade. Quando li “Bem vindo ao deserto do real” foi como vibrar em uma nova e desafiadora sintonia, enchergar obviedades e obscuridades que antes passavam despercebidas. E essa arte aí do vídeo? É uma forma genial e muito intigante de traduzir a fala do cara. A foto dele deitado na sua cama cofortável, ao lado de um quadro de Stalin, sem dúvida é mais uma de suas provocações. Precisamos ler mais Zizek, Agambein, Serge Latouche e outros.E, principalmente, precisamos aplicar o que aprendemos com eles.  Isso não é um capricho intelectual, é uma necessídade. E é urgente.

    1. Andre Araujo

      10 de janeiro de 2015 4:45 pm

      Zizek tem ideia interessantes

      Zizek tem ideia interessantes mas como tantos da contra-cultura, tem como meio de vida contratos de palestras, livros e progamas de radio e tv ajustados com o mundo capitalista, ele abomina o capitalismo mas pede para depositar os fees da palestra em um banco de Nova York.

      1. Centelha, o retorno

        10 de janeiro de 2015 5:23 pm

        Você é muito engraçado.

        Você é muito engraçado. Parece acreditar que só um sujeito capaz de viver uma vida totalmente desconectada do capitalismo poderia criticar o capitalismo com legitimidade (que tal um indígena amazônico de tribo isolada, um caçador coletor bosquimâni, ou um eremita perdido nos cafundós do Butão?). Mas aí, ninguém ficaria sabendo, pois para divulgar suas ideias, o cara precisaria utilizar tecnologias produzidas sob o sistema capitalista, o que já lhe tiraria a credibilidade e blá blá blá. Enfim, a crítica ao capitalismo seria ilegítima ou impossível. Arrã.

        1. Andre Araujo

          10 de janeiro de 2015 6:06 pm

          Meu caro, acredito nos

          Meu caro, acredito nos simbolismos. Vi que o comunismo iria acabar quando a Sra.Raissa Gorbachev , primeira dama da URSS, em visita a Londres pagaou uma compra de sapatos com carão de credito American Express.

          O comunismo em Cuba já indicava seu fim quando o governo de Cuba vendeu 50% da empresa HABANOS S.A., unica fabricante de charutos de Cuba, à espanhola ALTERIS S.A., antiga La Tabacalera S.A., que pertence à British American Tobaco, truste mundial do cigaro (no Brasil tem a Souza Cruz)..

          1. Allex

            11 de janeiro de 2015 1:17 pm

            André, Arthemísia, acho que

            André, Arthemísia, acho que não tem como não ser contraditório vivendo e morrendo nesses ” tempos vagabundos que escolheram pra gente” (Cazuza). O capitalismo só pode ser superado por dentro, nos seus interstícios, com seus próprios meios (Marcuse). Como explica o Centelha, um bosquímano do pacífico ou um nativo esquecido no coração da amazônia, p.e.,não serão combatentes contra os demandos do capital predatório; ao contrário, são ainda mais oprimidos e explorados por ele. Da minha parte, acredito no “impossível”, na superação desse atual modo de viver e na construção de uma sociedade radicalmente diferente. E, podem crer, faço a minha parte e sofro as consequências. Mas enquanto isso, vou comprando aqui e me contendo alí. Mesmo porque, comprar e vender o que nos é essencial é bem diferente de chafurdar no consumismo desembestado e na alienação sem culpa. E isso, claro, inclui também os intelectuais, com suas vaidades e necessidades. O próprio Zizek aponta essa contradição em seus livros. Enfim, o importante é manter o debate e fazer escolhas pessoais e sociais que contribuam para enfraquecer o monstro, dia após dia. Ou será que não somos capazes de viver sem nossas roupas descoladas, nossos livros, nosso notebook e nossas belas viagens de férias??

          2. Allex

            11 de janeiro de 2015 1:17 pm

            André, Arthemísia, acho que

            André, Arthemísia, acho que não tem como não ser contraditório vivendo e morrendo nesses ” tempos vagabundos que escolheram pra gente” (Cazuza). O capitalismo só pode ser superado por dentro, nos seus interstícios, com seus próprios meios (Marcuse). Como explica o Centelha, um bosquímano do pacífico ou um nativo esquecido no coração da amazônia, p.e.,não serão combatentes contra os demandos do capital predatório; ao contrário, são ainda mais oprimidos e explorados por ele. Da minha parte, acredito no “impossível”, na superação desse atual modo de viver e na construção de uma sociedade radicalmente diferente. E, podem crer, faço a minha parte e sofro as consequências. Mas enquanto isso, vou comprando aqui e me contendo alí. Mesmo porque, comprar e vender o que nos é essencial é bem diferente de chafurdar no consumismo desembestado e na alienação sem culpa. E isso, claro, inclui também os intelectuais, com suas vaidades e necessidades. O próprio Zizek aponta essa contradição em seus livros. Enfim, o importante é manter o debate e fazer escolhas pessoais e sociais que contribuam para enfraquecer o monstro, dia após dia. Ou será que não somos capazes de viver sem nossas roupas descoladas, nossos livros, nosso notebook e nossas belas viagens de férias??

        2. Arthemísia

          10 de janeiro de 2015 8:21 pm

          Calma, o AA está só apontando

          Calma, o AA está só apontando as contradições do autor, coisa que o próprio autor faz em sua análise sobre o sistema. 

  2. Centelha, o retorno

    10 de janeiro de 2015 1:29 pm

    Teses que esse artigo do

    Teses que esse artigo do Zizek me inspirou:

    a) caridade é uma forma de dominação, na medida em que toma o outro como objeto e o mantém nesse lugar. Só é uma prática ética se prevê um horizonte factível no qual o benfeitor se torna dispensável como tal.

    b) benefícios de proteção social (como por ex. o Bolsa-Família) são toleráveis por serem impessoais (= políticas de Estado), e emergenciais. Melhor “dar o peixe” que deixar o sujeito muito pobre morrer de fome enquanto não se arranja um modo de “ensiná-lo a pescar”. Mas o horizonte (em termos de planejamento e política pública) deve ser não só ensinar a pescar, como também dar acesso a vara, linha, anzol, isca e ponto de pesca. Que tal por ex. reforma agrária, crédito, assistência técnica, e políticas de compras públicas da produção  para escolas, hospitais, presídios, etc.? Que tal difusão de Sistemas Agro-Florestais para pequenos e médios proprietários, eliminando venenos e adubos químicos, preservando o meio ambiente, estimulando uma agricultura socialmente inclusiva? Etc.

    c) o capitalismo na atualidade “converge” para o desastre (concentração crescente de renda e riqueza, cf. Pikkety; colapso ambiental).

    d) nem Zizek nem ninguém sabe a fórmula de uma alternativa viável ao capitalismo e menos ainda uma receita de como alcançar essa alternativa, se e quando ela for elaborada.  ENTÃO, é preciso “reduzir os danos” do capitalismo existente, limitar seus custos humanos, ambientais, sociais e culturais, enquanto não se inventa uma saída para algo menos pior – senão o risco é não haver quem viva para inventar a tal saída.

    e) o risco inerente às proposições desse artigo do Zizek é que se traduzam no que vulgarmente se difunde em alguns setores de esquerda: “Quanto pior, melhor!” Posição simplista, irresponsável e porra-louca.

    1. Allex

      11 de janeiro de 2015 1:26 pm

      Muito bom! Também acho que é

      Muito bom! Também acho que é mesmo por aí.  O problema é que somos todos um bando de frouxos que só sabemos falar e escrever.  Todos, mas parece que nós brasileiros ainda mais.

  3. Filipe Rodrigues

    10 de janeiro de 2015 1:40 pm

    Ótimo Zizek!!!

    O maior pensador da atualidade.

    Um importante contraponto a chatice pós-moderna/globalista de Anthony Giddens que deixou o mundo mais chato e pausterizado.

    Eu por exemplo admiro pensamentos culturais divergentes: o Marxismo cultural dos anos 60 e o capitalismo pop dos anos 80. Muito melhores que o pós-fim da história, onde o capitalismo é hegemônico, financista e aos pobres sobrou a caridade…

  4. Fábio de Oliveira Ribeiro

    10 de janeiro de 2015 1:53 pm

    Zizec foi incapaz compreender

    Zizec foi incapaz compreender o essencial. A “economia de caridade”, que se torna uma realidade fenomênica justamente sob o implacável neoliberalismo, tem uma finalidade de matriz religiosa e  psicológica. A caridade, praticada pelos neoliberais, aplaca suas consciências pesadas em razão de defendem a redução de direitos para os “outros” e a criação de privilégios para si mesmos. Além disto, cria deles uma imagem diferente daquela que eles realmente merecem. Eles agem como vampiros sanguinários, frios e calculistas, mas são vistos como elfos generosos. Há um outro lado desta questão que poderia ser desdobrado. A “economia de caridade” era uma característica da Idade Média, onde ricos e muito ricos tinham privilégios distintivos (nobiliárquicos) e se aproximavam de Deus distribuindo aos pobres algo que lhes permitisse seguir existindo. A caridade “colava” as duas metades da sociedade medieval, impedindo que ela explodisse. O neoliberalismo com sua economia de caridade, portanto, equivale à uma remedievalização das relações sociais, pois os pobres não se sentem inclinados a agir de maneira coletiva e política em razão de cada qual contar individualmente com a caridade dos milionários e das celebridades hoje (como os pobres se curvavam e recolhiam as moedas atiradas na porta da Catedral durante a Idade Média).

    1. geralda colen

      10 de janeiro de 2015 2:04 pm

      Algo como: “é preciso de haja

      Algo como: “é preciso de haja pobres para que os ricos possam melhor exercer a virtude da caridade?”

       

      1. Fábio de Oliveira Ribeiro

        10 de janeiro de 2015 2:41 pm

        Esta era uma idéia corrente

        Esta era uma idéia corrente na Idade Média e provavelmente os neoliberais consideram isto uma verdade consagrada por Deus. Eles, os neoliberais, costumam alegar que Deus cria seres desiguais, possibilitando em razão disto a sacralização e a naturalização das diferenças sociais. A virtude dos ricos estaria na generosidade, a dos pobres em aceitar a pobresa e recolher as doações agradecendo-as. Se todas as pessoas tiverem direitos iguais e não necessitarem de caridade, a virtude da generosidade deixaria de ser associada à riqueza. E os ricos, minha cara, não querem ser apenas ricos, eles querem ser adorados, querem se sentir virtuosos e indispensáveis. Isto explica em parte o ódio que eles devotam aos direitos concedidos aos “outros”, que segundo sua lógica distorcita retiraria deles direitos inatos. 

    2. tcalegario

      10 de janeiro de 2015 2:06 pm

      Bom dia Fábio.
       
      Cada parte

      Bom dia Fábio.

       

      Cada parte do texto pode ser aberto para uma discussão tremenda.

       

      Acredito que ele, como filósofo que é, deixou isso nas entrelinhas.

       

      Para manter a lógica do texto.

       

      Mas só vamos saber perguntando a ele.

  5. altamiro souza

    10 de janeiro de 2015 1:59 pm

    radical, meio

    radical, meio incendiário.

    mas necessário para mostrar a hipocrisia capitalista.

  6. tcalegario

    10 de janeiro de 2015 2:04 pm

    Lindo.

    Lindo.

  7. Marcelo Castro

    10 de janeiro de 2015 2:08 pm

    sou mais o Suplicy

    Para mim um mundo aceitável seria aquele onde todos tivessem um mínimo para viver com dignidade e a partir daí dependeria da capacidade de cada um. Deste ponto de vista o nosso quixotesco Eduardo Suplicy fez muito mais pela humanidade do que o prolixo Zizek que nada explica ou esclarece.

  8. Fernando Barcellos Ximenes

    10 de janeiro de 2015 2:12 pm

    Zizek morto

    Zizek morreu em 5 de janeiro de 2015, por overdose de cocaína. Como escreveu Hannah Arendt, é impossível compreender alguém enquanto vivo — pois quem está vivo, por definição, é mutante e mutável. O tempo vai nos permitir compreender Zizek.

  9. Fernando Barcellos Ximenes

    10 de janeiro de 2015 2:18 pm

    Correção: aparentemente boato

    O Internet Chronicle publicou a notícia da morte de Zizek, supostamente ocorrida em 5/1/2015. Ao mesmo tempo, o La Republica publicou um texto de Zizek sobre o atentado ao Charlie Hebdo.

     

    Aparentemente, é um desses boatos que rolam pela Internet.

  10. Paulo Silvério

    10 de janeiro de 2015 3:06 pm

    Café Sim, Café

    Fui ali na venda do Zé da esquina comprar umas commodities . Passei na farmácia do bem e pedi band aid ( no plural ) – complicadíssimas conjunções. Mas na cor verde, Havaianas destacam-se sobre a areia branca. Então citei Voltaire ao amigo cão : ”  A que cargas d’agua Osama foi fazer no fundo azul?”

  11. Maria Rita

    10 de janeiro de 2015 3:47 pm

    Agora entendo a razão porque

    Agora entendo a razão porque a expressão muito usada pela propaganda dos anos 80/90 “Valor agregado” sempre me pareceu de sentido duvidoso. Talvez a palavra certa para defini-la seja hipocrisia ou farisaísmo.

  12. Filipe Rodrigues

    10 de janeiro de 2015 3:49 pm

    Já imaginaram que quem tem

    Já imaginaram que quem tem mais costume de dar esmola para mendigo é quem é contra o Bolsa-família????

  13. NICKNAME

    10 de janeiro de 2015 4:22 pm

    Em favor da caridade religiosa ou não.

    Tem na rádio em Recife e tv uma campnha pra não se dar esmola a crianças nas ruas pedindo. E dizendo que é crime , pois criança é pra estudar. Ora, não estamos na Suécia. Não sou religioso, mas lembro a caridade de Dom Hélder Câmara, era mais socialista do que a quase totalidade dos socilaistas e afins que conheci e vejo. Não à-toa, perdeu 3 premios Nobeis (não entro no mérito do Nobel) por interferência do regime civil-militar. O conheci, vi, quando estudei num colegio jesuíta. Por sinal, uma piada: mais rápida maneira de vir a se formar um ateu é estudar num colégio jesuíta. Meu padre diretor dizia piadas que nenbhum jovem professor liberal teria coragem de dizer à classe (turma, alunos). E há uma forte religiosidade em ativismos quaisquer, isso faz parte do ser humano. Devagar com pretensas radicalidades críticas.

  14. Free Walker

    10 de janeiro de 2015 4:51 pm

    Darwin explica

    “Quando os desbravadores ingleses conheceram os kwakiutl, índios da ilha de Vancouver, na costa oeste do Canadá, ficaram impressionados com um detalhe: aquela gente era obcecada por dar presentes. A honra e a importância de cada pessoa e de cada tribo eram medidas pela capacidade de dar redes, joias, canoas, óleos, peixes, escravos, entre muitas outras mercadorias. Quem quisesse subir na hierarquia local sabia o caminho: dar o máximo de presentes que pudesse. Durante o potlatch, o principal evento do calendário daqueles índios, chefes de aldeias competiam para saber qual deles era o mais generoso. Perder a disputa resultava em rebaixamento de status e uma terrível humilhação para os kwakiutl, que chegavam a botar fogo em tudo o que tinham para ostentar desapego.

    Nós certamente não compartilhamos tanto desapego, mas também temos o costume de trocar presentes. E somos assim não é só por influência das propagandas de shopping ou do consumismo. Distribuir objetos como prova de afeição é provavelmente uma característica universal humana, compartilhada por todos os povos que já passaram pela Terra.

    O costume ganhou uma explicação evolutiva a partir de 1971, quando o biólogo americano Robert Trivers publicou o artigo The Evolution of Reciprocal Altruism. Para Trivers, o homem não é naturalmente bom nem naturalmente mau: é um altruísta recíproco. Ajuda se tiver sido ajudado ou se acreditar que será retribuído no futuro. Se enfurece e pune quem não coopera ou não retribui.

    Se somos recíprocos por natureza, distribuir mimos é um bom meio de criar comprometimento. Quem ganha um presente sente imediatamente a necessidade de retribuição. É por isso que tantas sociedades, em tantas épocas, usaram presentes para estabelecer conexões e fechar contratos ou alianças de guerra. Agrados abrem portas.

    O leitor deve estar pensando: “não foi por interesse pessoal que dei presentes neste Natal”. Eu acredito. A evolução da reciprocidade pode explicar a capacidade humana de presentear, mas não diz nada sobre os motivos de cada indivíduo ao comprar presentes que encantem suas pessoas favoritas.”

    Leandro Narloch

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      11 de janeiro de 2015 2:36 pm

      É um erro confundir o
      É um erro confundir o evergetismo da Cidade Antiga, que reforçava coesão social mediante a distribuição de presentes (geralmente às pessoas mais bem relacionadas) e a realização privada de obras públicas com a doação de esmolas aos pobres durante a Idade Média. Erro ainda maior é tentar comparar a extinção de direitos numa sociedade moderna para possibilitar a generosidade dos ricos neoliberais com a autentica generosidade em sociedades tradicionais que não conheciam o Estado e nas quais a ideia de “direitos sociais” seria incompreensível.

  15. Ricardo Santos

    10 de janeiro de 2015 5:00 pm

    (Sem título)

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=d5CzZqauTVs%5D

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