4 de junho de 2026

Entrevistas no JN destacam potência de Lula e truculência de Bolsonaro

Desde 2018, o Brasil vive um clima intenso de degradação da cena política, esgarçamento social, altíssima polarização e um intenso processo de desinformação

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Entrevistas no JN destacam potência de Lula e truculência de Bolsonaro

por Anna Christina Bentes e Eliara Santana

Na semana de 23 a 26 de agosto, o Brasil ficou ligado ao jornal de maior audiência da TV brasileira, o Jornal Nacional, da Rede Globo. O motivo? A série de entrevistas com os quatro candidatos que ocupam as primeiras posições na corrida eleitoral – Luiz Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Simone Tebet. Cada um deles foi sabatinado por 40 minutos no JN por William Bonner e Renata Vasconcelos. E o grande interesse do público, sem dúvida, direcionou-se a duas entrevistas: a de Jair Bolsonaro, no dia 23/08, e a de Lula, no dia 25/08.

Há muito mais nessas entrevistas do que apenas a movimentação política ou os desdobramentos político-eleitorais após a exposição dos candidatos – há construções textuais/discursivas fundamentais, há construções simbólicas marcantes, há construções narrativas midiáticas que terão papel muito importante no cenário. Desde 2018, o Brasil vive um clima intenso de degradação da cena política, esgarçamento social, altíssima polarização e um intenso processo de desinformação com uma avalanche de fake news.

Portanto, as entrevistas, nesse cenário, ganham um destaque muito grande. Nossa proposta, neste artigo, é trazer um olhar específico para o papel e a relevância das questões textuais/discursivas nas entrevistas de Lula e Bolsonaro. Fazer uma breve análise comparativa dessas entrevistas pode ser um bom modo de entender as razões da chamada “polarização” no Brasil, justamente no momento em que ambos os candidatos parecem ter consolidado a intenção de votos, com Lula à frente e Bolsonaro em segundo lugar.

Vamos fazer, então, algumas observações iniciais sobre os participantes dessa interação institucional, a entrevista da bancada do Jornal Nacional com os candidatos à eleição presidencial de 2022, a partir de alguns aspectos principais.

Os atores no palco

Uma primeira observação: o campo político brasileiro está acostumado à presença de Lula nas eleições presidenciais desde a redemocratização. E Lula, por sua vez, está acostumado a enfrentar todas as intempéries desse campo, desde a sua primeira participação como candidato a um cargo eletivo e, depois, nas inúmeras vezes em que se candidatou ao mais alto cargo da nação, ao cargo de Presidente da República do Brasil, tendo vencido duas vezes eleições presidenciais e se consolidado como o melhor Presidente da República desde a redemocratização do Brasil na década de 1980.

Jair Bolsonaro, no entanto, não exibe esse histórico. Venceu a eleição presidencial do Brasil de 2018 em um contexto político e social conturbado, apelando para o mote que mais seduz o eleitorado, especialmente aquele setor mais desprotegido da população: o de não pertencer ao mundo que estruturava o campo político brasileiro até então. Agiu como alguém que não pertencia mesmo a esse mundo, mobilizando intensamente as redes sociais por meio de uma linguagem ao mesmo tempo sensacionalista, provocativa e ameaçadora. Ganhou a eleição sem participar de um único debate e sem dar a conhecer um plano de governo.

Lula, um ex-chefe de estado respeitado no Brasil e no mundo e que saiu do cargo com uma aprovação popular ainda não repetida, de quase 90%. Bolsonaro, um Presidente isolado internacionalmente e que amarga um índice de reprovação de seu governo que beira os 60%. É com essa bagagem que esses mesmos dois personagens da política brasileira estão disputando a eleição presidencial de 2022, disputa essa que foi adiada em 4 anos em função da injusta prisão de Lula em 2018.

Os entrevistadores e seu posicionamento

Em relação aos entrevistadores, temos o jornalista William Bonner, apresentador do Jornal Nacional há 26 anos e editor-chefe do mesmo jornal há 23 anos. E Renata Vasconcellos, jornalista que divide com Bonner a bancada do JN desde novembro de 2014, há aproximadamente 12 anos. Desde as entrevistas de bancada realizadas nas eleições presidenciais de 2014 e 2018, os entrevistadores do JN vêm sofrendo sérias críticas ao modo como conduziram as diferentes entrevistas com os/as candidatos/as à presidência da República ao longo dessas eleições.

Três principais aspectos de entrevistas anteriores do JN sofreram recorrentes críticas por parte dos mais diversos setores da sociedade: 1) a estruturação da entrevista, com um tempo rigidamente pré-determinado para cada assunto; 2) o conjunto de assuntos tematizados; e 3) a postura agressiva com alguns/mas entrevistados/as, o que resultava em um número grande de interrupções das falas deles/as. Nesse sentido, suas imagens profissionais e a imagem da Rede Globo de Televisão ficaram ainda mais abaladas, sendo que a opinião pública passou a ter uma visão ainda mais crítica da condução de um dos eventos de maior impacto nacional para os rumos das eleições presidenciais brasileiras: a entrevista da bancada do JN com os candidatos à Presidência da República.

Uma de nossas teses é a de que o editor-chefe do JN se apropriou das críticas feitas ao longo desses últimos anos de forma a tentar evitar tanto a diminuição do impacto e da influência do evento em si no contexto das eleições presidenciais brasileiras, como também a perda da confiança nos entrevistadores relativamente à condução da entrevista.

Vamos então destacar um aspecto importante no conjunto das mudanças da postura da bancada do JN: o tempo e as interrupções. O tempo da entrevista foi alongado para 40 minutos, e o tempo de fala dos entrevistadores diminuiu sensivelmente. Na entrevista com Bolsonaro, os entrevistadores Bonner e Renata tiveram cerca de 15 minutos de fala, para as perguntas e retomadas, e Jair Bolsonaro falou por cerca de 24 minutos. Na entrevista com Lula, Bonner e Renata tiveram cerca de 10 minutos de intervenção, e Lula falou por cerca de 30 minutos. A nosso ver, essa diferença na participação dos entrevistadores ao longo de cada uma das entrevistas aconteceu em função da própria dinâmica que se estabeleceu em cada uma delas.

A entrevista de Jair Bolsonaro

Bolsonaro foi para o confronto com os entrevistadores Bonner e Renata ao longo de toda a entrevista. Quando o primeiro tema foi instaurado por Bonner, a questão do ataque ao sistema eleitoral brasileiro e o golpe, a primeira resposta de Bolsonaro consistiu em uma acusação ao jornalista: “Primeiro, você não está falando a verdade quando fala “xingar ministros”. Isso não existe, é uma fake News da sua parte”. A generalização feita por Bonner – “xingar ministros”, foi estrategicamente tomada por Bolsonaro ao pé-da-letra. Quando Bolsonaro, mais adiante, assume que de fato xingou um ministro especificamente, chamando-o de “canalha”, ganha força sua justificativa: o ministro estava perseguindo Bolsonaro por meio de um processo ilegal, mas, atualmente, tudo está pacificado.
Ao mesmo tempo em que “cola” em Bonner, logo no início da entrevista, a imagem de “produtor de fake news”, Bolsonaro também reforça a imagem que ele, Bolsonaro, construiu do ministro do STF: a de que o ministro está se utilizando de expedientes ilegais contra o presidente, reforçando a ideia de perseguição, bastante importante na mobilização das fake news nas redes bolsonaristas. Na sequência, houve nova acusação de Bolsonaro ao personagem evocado – o ministro do STF-, amenizada em seguida: “Espero que seja uma página virada”. A segunda acusação se dá quando Renata Vasconcellos, mais adiante na entrevista, afirma que o Brasil é visto como um destruidor de florestas. Jair Bolsonaro acusa novamente um dos membros da bancada de estar mentindo. E, em um momento seguinte, Bolsonaro acusa Bonner de o estar estimulando a ser um ditador.

Outro recurso muito usado por Bolsonaro e que interferiu bastante na dinâmica da entrevista foi o desmentido. Bolsonaro desmentiu Bonner e Renata muitas vezes. Alguns exemplos: Renata Vasconcellos afirma que Bolsonaro chegou a suspender a compra da vacina Coronavac e ele afirma: “Não, não houve suspensão de minha parte”. Em outro momento, Renata relembra o caso de Manaus, afirmando que pessoas tinham morrido por falta de oxigênio e ele responde em duas ocasiões: “Negativo, negativo, menos de 48 horas estavam chegando cilindros em Manaus”; e mais adiante, quando a entrevistadora continua afirmando que Manaus ficou nove dias sem oxigênio, Bolsonaro a desmente: “Não é verdade isso, não é verdade”.
As acusações diretas e os desmentidos de Bolsonaro ajudaram a criar ainda mais tensão entre ele e os entrevistadores. Em um certo momento, Bonner teve que sair em defesa de Renata sobre uma atribuição de fala a ela por parte de Bolsonaro com a qual ela não estava concordando. Nesse e em outros momentos da entrevista, iniciou-se uma configuração discursiva de debate.

Se, por um lado, os entrevistadores da bancada tentaram produzir uma imagem de isenção da empresa jornalística e deles mesmos no contexto de mais uma eleição presidencial no Brasil, fazendo perguntas e comentários que traziam uma perspectiva crítica ao governo Bolsonaro, concedendo turnos longos ao entrevistado, tentando ouvir suas respostas sem interromper muito suas falas, por outro lado, Bolsonaro tensionou em vários momentos a interação, acusando-os, desmentindo-os, mentindo, criando falsas narrativas, desviando-se dos tópicos estabelecidos, acusando outros atores sociais (ministro do STF, o PT, a esquerda) de ações não comprovadas.

Mesmo buscando produzir uma imagem de isenção por meio de perguntas e comentários críticos, os entrevistadores da bancada do JN não conseguiram deixar de, em muitos momentos, exibir certas expressões faciais, alguns sorrisos (principalmente no caso de Bonner) e um certo tom professoral de fala durante suas performances. No entanto, o efeito esperado não aconteceu: não apenas não conseguiram “enquadrar” Bolsonaro como alguém que não sabe o que diz, como também acabaram por produzir uma imagem de oposição política ao candidato, e não a imagem de isenção que tanto tentaram reconstruir.

Bolsonaro, por sua vez, reforçou a imagem de “eu fiz tudo certo, mas sou perseguido pela mídia e pelo STF”. Não olhou nenhuma vez ao longo da entrevista para a câmera do público, e sua postura corporal e seu olhar buscavam rebaixar os entrevistadores: olhava “de cima”, aumentava o tom de voz, projetava a cabeça para trás, o corpo para frente, invadindo simbolicamente o espaço do outro, tudo isso acompanhado de acusações, desmentidos, mentiras. Nunca a bancada do JN entrevistou um político com esse perfil. O entrevistado conseguiu colar uma imagem negativa nos entrevistadores. E conseguiu valorizar ainda mais, em cadeia nacional, a sua visão sobre os vários assuntos trazidos e sobre a mídia tradicional. Esta última foi taxada de responsável pela produção de desinformação e de notícias falsas, em oposição à sua própria figura. Em outras palavras, Bolsonaro se construiu, na bancada do JN, como aquele que fala a verdade.

A recepção da entrevista pelos diversos atores sociais reconfigurou esses sentidos. Mas a “bagagem” do candidato Bolsonaro em relação ao seu modo de se projetar como um líder de extrema-direita nacional foi consolidada em um espaço não dominado por ele. Ele conseguiu manter a sua imagem, sem abrir mão dessa imagem em nenhum momento.

Nesse sentido, mesmo tendo reconfigurado a entrevista em relação ao tempo concedido ao entrevistado, mesmo buscando não interromper o entrevistado, mesmo tentando passar uma imagem de calma e de isenção em relação à posição política do entrevistado, a bancada do JN não conseguiu fazer o público notar os efeitos dessa reestruturação ao longo da entrevista com Jair Bolsonaro. Ao contrário, as ações do entrevistado desnortearam os entrevistadores, e eles acabaram por voltar a configurar alguns momentos da entrevista como um embate entre opositores, o que reforçou a imagem de JB como um “perseguido” para seus seguidores.

A principal estratégia de Bolsonaro é a de confrontar os inimigos e se defender do constante perigo no qual está imaginariamente imerso. O medo de Bolsonaro, iconizado nessa entrevista à bancada do JN, revelado por suas posturas de constantes ataques contra tudo e contra todos aqueles que se colocam antagonicamente em seu caminho, levou o país à mais completa desestruturação institucional. Amedrontrar para governar.

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A entrevista de Lula

A entrevista com o candidato Luiz Inácio Lula da Silva é marcada por um tipo de alternância de turno razoavelmente tranquila. O/a entrevistador/a perguntava, e o entrevistado respondia. Os turnos do entrevistado foram longos, e ele quase não foi interrompido. Esse novo formato foi bastante inédito, dada a postura do JN em relação ao ex-presidente nos últimos anos. Sobre isso, falaremos mais adiante.

Bonner inicia a entrevista assumindo uma afirmação para os telespectadores do jornal: “O Supremo Tribunal Federal lhe deu razão, considerou o então juiz Sergio Moro parcial, anulou a condenação do caso do Triplex e anulou também outras ações por ter considerado a vara de Curitiba incompetente. Portanto, o senhor não deve nada à Justiça”. Não foi uma fala qualquer, aleatória. Foi uma afirmação com um reconhecimento embutido de que Lula foi de fato absolvido de todas as acusações feitas no longo período da Operação Lava Jato. Mesmo que, na sequência, Bonner emende “mas houve corrupção na Petrobras”, o que se sobressai é o reconhecimento da inocência de Lula.

Em seguida, o apresentador pergunta como ele irá evitar que isso volte a se repetir. Lula começa a entrevista agradecendo a pergunta sobre o tema da corrupção. E responde à pergunta. Os atos de Lula que são reiterados na entrevista são outros, muito diferentes dos de Bolsonaro. Não há desmentidos das falas dos jornalistas ou acusações a eles. Faz poucas acusações. Uma delas é a do bloqueio das ações de Dilma Rousseff quando exercia a Presidência da República por parte do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e por parte do candidato derrotado nas eleições de 2014.

O principal ato de Lula ao longo da entrevista é o de fazer avaliações/críticas sobre as instituições, sobre o contexto político e sobre as ações do governo Bolsonaro. O segundo ato mais importante que Lula performatiza ao longo da entrevista é o de rememorar ações de seu governo e as ações da Lava Jato. O terceiro ato mais importante é o de fazer propostas gerais de governo e de ações que tomará, caso ganhe as eleições. Ele ainda faz críticas aos pressupostos das perguntas feitas pelos entrevistadores de maneira não agressiva. Não é à toa que suas falas foram recepcionadas como uma “aula”por atores sociais diversos.

O primeiro ato de Lula ao responder à pergunta sobre o tema da corrupção é o de rememorar as ações de seu governo. A sua segunda resposta, ainda sobre o tema da corrupção, reafirma o que falou na primeira resposta e acrescenta críticas às ações atuais de Bolsonaro (a decretação de sigilo de 100 anos, a escolha de amigo para cargos institucionais, tais como o atual diretor da Polícia Federal no governo etc.). Em vários momentos, para rememorar suas ações passadas como presidente da República, pede aos jornalistas para lembrarem: “Você tá lembrada?”, “Renata, você se lembra …”, “É que você não deve lembrar…” (para o Bonner). “Tão lembrado…” etc.

Ao fazer as críticas ou avaliações sobre as instituições, ou ainda, quando questiona pressupostos das perguntas dos entrevistadores, Lula mobiliza um poderoso recurso discursivo: o da recategorização. A primeira vez que ele faz isso é quando critica o instituto da “delação premiada”, recategorizando-o como um “roubo institucionalizado”, dado que a pessoa corrupta, por colaborar com o Ministério Público e com a Polícia Federal, ficava como parte do dinheiro fruto da corrupção de que participava. A segunda vez que isso acontece é quando Renata afirma que o atual procurador da República é “leal ao presidente da República”.

Lula recategoriza essa qualidade do PGR e afirma que não quer “procurador leal a mim”, mas sim, um procurador “leal ao povo brasileiro”. Ou ainda quando a entrevistadora Renata fala do orçamento secreto como uma moeda de troca. Lula, então, responde: “Isso não é moeda de troca, é usurpação do poder”. Em seguida, Lula avalia o que acontece hoje na relação entre Executivo e Judiciário. Ou ainda quando Bonner tenta categorizar a militância petista como “intolerante”, e Lula produz a analogia com o futebol, recategorizando-a, positivamente: “A militância é como torcida organizada”.

Quando Lula faz uma crítica à pergunta de Bonner sobre a aceitação do vice, Geraldo Alckmim, pela militância do PT, ele o faz por meio de uma asserção produzida em tom intimista, chamando Bonner pelo nome e afirmando: “Bonner, nós não estamos vivendo no mesmo mundo”. Em seguida, afirma: “Eu tô até com ciúme do Alckmim”, passando a descrever a habilidade de seu vice de cativar a militância petista. Esse tom mais intimista, mobilizado por Lula em vários momentos, tanto em relação a Bonner (o chama pelo nome no início da resposta várias vezes), como em relação a Renata, cria um clima de distensão, mesmo quando as respostas de Lula são críticas às perguntas dos entrevistadores.

Não tendo fugido dos difíceis e críticos temas propostos, Lula exibe conhecimento do passado e revela sua potência como político e como gestor, ao mostrar que domina temas importantes para o país e que sabe conviver democraticamente com aliados, todos divergentes, para vencer o embate político mais importante das últimas décadas.

Se, por um lado, ao longo de sua entrevista, Bolsonaro usa a estratégia “a melhor defesa é o ataque”, Lula, por sua vez, negocia com seus entrevistadores, chamando-os por seus nomes para uma conversa ao pé do ouvido, buscando convencê-los a concordar com sua perspectiva sobre os fatos, sobre suas ações como governante, sobre as ações do governo Bolsonaro. A principal estratégia de Lula é a de desarmar as hostilidades e seduzir o interlocutor para o seu campo.

É possível perceber então, que a reestruturação da entrevista da bancada do Jornal Nacional, com mais tempo para os entrevistados, menos interrupções e postura menos incisiva por parte dos entrevistadores – funciona para políticos democráticos, para políticos acostumados ao diálogo e ao confronto de ideias. Tanto é que as entrevistas com os outros dois candidatos (Ciro Gomes e Simone Tebet) foram consideradas modorrentas, tranquilas demais, dada a oportunidade de os candidatos de fato exporem minimamente e sem interrupções suas propostas políticas. Isso revela o quanto o público ficou contaminado pelo gênero “debate”, quando se concede aos participantes tempos de fala praticamente iguais no lugar do gênero entrevista. Foi um duro aprendizado para a Rede Globo e para a sociedade brasileira. Mas talvez tenhamos chegado a um bom termo nesse momento.

O poder simbólico de Lula

Há 16 anos, Lula não era ouvido em entrevistas ao JN. Há 16 anos, sua voz foi deliberadamente silenciada no jornal de maior audiência da TV brasileira, em especial após sua prisão em Curitiba, em 2018. Era como se, de repente, o presidente mais bem avaliado da história da República brasileira, que saiu com 89% (??) de aprovação de seu último mandato, não existisse mais, ou nunca tivesse existido. Lula somente era trazido à cena no JN em abordagens e temas muito negativos.

Com Bolsonaro, eleito presidente em 2018, a postura do JN e da Rede Globo sempre foi de um bate-assopra – momentos de exposição positiva alternados com momentos de crítica e exposição negativa, que caminhou para forte embate no período da pandemia. As falas dele, antes silenciadas para não deixarem transparecer seu comportamento grotesco e e muito agressivo, passaram a ser reiteradamente mostradas, sem edição, sem cortes, ressaltando episódios inaceitáveis, como o “e daí?” sobre os mortos na pandemia.

Na semana que passou, as entrevistas no JN serviram também para ressaltar elementos e aspectos que estavam sendo silenciados ou remodelados pela mídia. Bolsonaro se mostrou o que ele é e sempre foi: um baixo clero truculento, que não respeita normas nem regras, que apoia milícia e que não liga para a democracia.

E Lula mostrou a potência simbólica de sua voz, de sua fala, capaz de trazer à cena, em conjunto, personagens divergentes da cena política brasileira, como Geraldo Alckmin e o MST. Uma fala capaz de lembrar que o Brasil é gigante e tem Paulo Freire a nos dizer da importância do diálogo; voz potente a dizer que o brasileiro precisa voltar a ser feliz fazendo um churrasquinho e tomando sua cervejinha. Uma voz potente, experiente e conciliadora, capaz de trazer esperança a um país que se tornou tóxico e com dificuldades para manter diálogos a partir da ascenção do bolsonarismo ao poder central da Nação.

As lutas da sociedade civil pelo direito à democracia, pelo direito ao acesso à informação, das quais Lula é o grande líder, parecem ter chegado, finalmente, às entrevistas da bancada do Jornal Nacional.

Anna Christina Bentes é professora livre-docente do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/Unicamp). Eliara Santana é pesquisadora colaboradora do IEL/Unicamp. As duas estão coordenando o curso de extensão “Desinformação, Linguagem e Política no Brasil”, que começa em outubro.

Leia também:

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