No centenário da Marcha sobre Roma, diretor alerta: “a direita no poder é perigosa”
por Arnaldo Cardoso
É emblemático que em contexto de disputa eleitoral em função da antecipação para 25 de setembro de eleição que produzirá uma nova composição do parlamento e formação de governo na Itália, o tradicional Festival de Cinema de Veneza tenha sido aberto com a exibição do filme-documentário “Marcha sobre Roma” (Marcia su Roma, 2022) do diretor Mark Cousins, que é uma releitura de “A Noi” de Umberto Paradisi, de 1923, produção oficial do Partido Nacional Fascista, retratando a Marcha sobre Roma, evento que levou milhares de italianos a marcharem de suas cidades até Roma em apoio a Benito Mussolini, resultando em sua nomeação ao cargo de Primeiro Ministro. A Marcha, que teve seu ápice no dia 28 de outubro de 1922 é um marco no processo de instauração na Itália do regime totalitário do fascismo comandado por Mussolini até o final da Segunda Guerra Mundial.
No atual filme exibido fora da competição, o diretor diz ter dado ênfase nas “mentiras e decepções” do fascismo, em oposição ao tom de exaltação manipulatória dado ao documentário de um século atrás.
Em entrevistas recentes, Mark Cousins justificou a produção do filme pelo fato do centenário da Marcha sobre Roma se dar em contexto em que a extrema direita tem se reafirmado como força política em vários países, dentre os quais a própria Itália.
As mais recentes pesquisas de opinião na Itália apontam o favoritismo de Giorgia Meloni, líder do partido neofascista Irmãos de Itália (Fratelli d’Italia) que já costura aliança com a Liga (Lega) de Matteo Salvini e o Força Itália (Forza Italia) de Silvio Berlusconi para governar o país.
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Meloni e seu aliado Salvini são conhecidos por suas posições contrárias aos migrantes, às minorias, em defesa da família tradicional, do conservadorismo religioso e de líderes políticos como Orbán, Putin, Trump e Bolsonaro. A respeito do atual presidente brasileiro, ele debuta no filme Marcha sobre Roma ao aparecer em uma sobreposição de fotos de personagens como Meloni e Orbán. Um deprimente registro de nosso tempo.
Em uma de suas entrevistas, Cousins salientou que “a extrema direita não está interessada no problema dos migrantes, das minorias, dos pobres, dos que estão em dificuldade, por isso é muito importante que as pessoas entendam o quão perigoso é tudo isso”.
O alerta do cineasta deveria ser ouvido também pelos brasileiros que, uma semana depois do pleito italiano, comparecerão às urnas para uma eleição que, mais que qualquer outra, terá impacto decisivo sobre o futuro da ameaçada democracia brasileira.
Arnaldo Cardoso, sociólogo, cientista político, escritor e professor universitário.
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