Agora com a publicação do quinto relatório do IPCC, e as evidências cada vez mais claras de que as mudanças climáticas são decorrentes de causas antropogênicas, é importante relembrar a importância da influência dos hábitos de produção-consumo.
O axioma que tem direcionado a questão do consumo sustentável tem sido a de que mais consumidores conheçam as consequências dos seus atos e mudem seus hábitos para produtos menos impactantes, a pressão exercida nos fabricantes fatalmente vai fazê-los mudar na direção da sustentabilidade.
Esse foi o tom reiterado na Rio +20, onde o conceito de economias verdes foi o escolhido para avançar com o crescimento com menos impactos ao meio ambiente.
Mas será ? Acho que não, principalmente pelo crescimento econômico contínuo, incorporado no “consumo verde”. Inclusive há diferenças importantes entre o consumo verde e o sustentável e creio importante ligar as práticas de consumo aos indicadores econômicos que deveríamos poder dispor para melhor analisar qual a melhor atitude com relação às práticas de consumo.
Sem menosprezar atos mais ecológicos, como usar menos carros, ou sacola plásticas, ou eletrodomésticos com selo energético “A”, acredito que a mudança sistêmica necessária passa por responsabilizar os reais agentes da produção e não os consumidores. Essa é a chave do problema é que deve ser reinvindicado junto aos elaboradores de políticas públicas.
A pressão da sociedade civil no governo francês deu certo na França, onde a lei do consumidor tenta controlar (um pouco) o elan da indústria e das (pseudo)inovações e incentivar o consumo sustentável. Um delito de obsolescência programada pode dar 2 anos de cadeia ou 300 000 EUR de multa. Estão incluídas nessa proteção ao consumidor as práticas de “reduzir deliberadamente a vida útil de um equipamento para aumentar a taxa de substituição”. Inclui não somente as práticas totalmente inaceitáveis de inserir chips que contam o tempo de uso, mas também os que não poderão ser consertados porque uma peça estragou ou que não pode ser retirada do equipamento.
É um início, mas provavelmente não suficiente para retardar as emissões e mudanças climáticas mais drásticas…
Enquanto isso no Brasil, pesquisas sobre os hábitos de consumo acabam mais influentes, indicando equivocadamente que estamos na boa direção. Uma delas é o ranking elaborado pela National Geographic Society que indicava em 2008 que o Brasil era o 2° melhor colocado em práticas de consumo e caiu algumas posições até 2014 ficando ainda em 4° lugar.
O Brasil pode até estar em uma posição confortável devido à nossa matriz energética essencialmente limpa, mas segundo o estudo ainda somos os mais inclinados a ter mais de 3 (!) televisões em casa e comprar produtos industrializados (comidas congeladas, descartáveis, etc.). Nesse sentido é importante que os milhões de consumidores que estão galgando a escala social sejam sensibilizados ao problema de consumir bem, sim, mas sobretudo menos.
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