4 de junho de 2026

Foram os votos de Marina, não o Bolsa Família.

A sociedade brasileira é mais complexa do que teses simplistas e preconceituosas podem explicar. Com um grande artigo, ainda que escondido no rodapé da página A12, a Folha de São Paulo de 02/11/2014 dá números ao que deveria ser óbvio. 

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No segundo turno das eleições presidenciais de 2014, o que estava em disputa eram os votos de Marina. Aécio conseguiu no 2º turno, nas regiões mais pobres, mais votos que Dilma. Mas, nas regiões mais ricas, não atraiu para si os votos necessários para ganhar. Entre os “ricos”, 10 milhões de votos foram para Dilma no 2º turno. Com eles, Dilma ganhou.

Malgrado todo o preconceito, o Bolsa Família ou o nordeste brasileiro nada tiveram a ver com isso.

Por que o discurso de Aécio convenceu 3/5 dos “pobres” que no 1º turno votaram em Marina? Por que o discurso de Dilma não afastou 2/5 dos “ricos” que, igualmente, no 1º turno optaram pela candidata do PSB? Questões, essas, às quais tanto o PSBD, mas mais o PT, que está no governo, deveriam se dedicar a responder. O sucesso em 2018 passa pelas suas respostas.

Petista cresceu onde há pouco Bolsa Família

Nos mil municípios menos dependentes do programa, Dilma colheu 4,8 milhões de votos a mais no segundo turno. Já nas mil cidades mais dependentes, seu crescimento em relação ao primeiro turno foi de apenas 486 mil votos.

Ricardo Mendonça – de São Paulo.

Embora a presidente Dilma Rousseff (PT) tenha derrotado o senador Aécio Neves (PSDB) por larga vantagem nos municípios mais dependentes do Bolsa Família, o programa social, sozinho, não explica o triunfo final da petista no segundo turno da eleição presidencial.

Isso porque, do primeiro para o segundo turno, o aumento da votação em Dilma ocorreu com mais intensidade nos municípios menos dependentes do Bolsa Família.

Dos 11,2 milhões de votos a mais que a presidente teve na etapa final, 7,3 milhões vieram das cidades onde o Bolsa Família beneficia menos de 25% da população.

Tradução: Dilma só foi reeleita porque, na disputa final, conseguiu crescer nos municípios onde há pouca gente inscrita no programa.

Essas afirmações são confirmadas a partir de vários ângulos nas tabelas que cruzam votação com dados do Bolsa Família por município.

Nas mil cidades menos dependentes do Bolsa Família (onde menos de 13% dos moradores são socorridos pelo programa), a votação de Dilma subiu de 28,2% dos válidos no primeiro turno para 38,3% na fase final.

Nos dois turnos, ela ficou atrás de Aécio nesse conjunto de cidades. Mas seu avanço de 10,1 pontos percentuais representou um ganho de 4,8 milhões de votos. Quase metade de toda a votação incorporada por ela na etapa final.

Já o avanço de Dilma nos mil municípios mais dependentes do programa acabou sendo bem mais modesto.

Nessas outras mil cidades –todas com mais de 60% da população atingida pelo Bolsa Família–, Dilma teve um ganho de 486 mil votos entre o primeiro e o segundo turno. Nesse mesmo universo, Aécio conseguiu crescer mais: obteve 730 mil novos votos.

Há duas explicações para o baixo avanço de Dilma nas cidades mais dependentes do Bolsa Família. Primeira: nesses locais, a petista já havia terminado o primeiro turno com um patamar alto de votos (73,3%). O espaço para avançar, portanto, era menor.

Segunda: nos mil municípios mais dependentes estão só 8% do eleitorado. No polo oposto (mil menos dependentes) estão 42% dos eleitores.

DISPUTA

Outro recorte que leva à mesma conclusão é a comparação entre os municípios com mais de 50% da população vinculada ao programa e os municípios com menos de 50% da população vinculada.

No primeiro grupo (o dos mais dependentes), Dilma ganha o segundo turno de Aécio por enorme vantagem: 75,8% a 24,2%. No mapa em que o vencedor de cada um desses municípios é destacado, quase tudo fica vermelho.

No outro grupo (o dos menos dependentes), Dilma perde, mas por um placar mais apertado: 52,5% para ele, 47,5% para ela. No mapa, a distribuição entre azul e vermelho parece equilibrada.

Nas 3.773 cidades com menos da metade da população no Bolsa Família, Dilma incorporou 10,2 milhões de votos no turno final. Sem isso, não teria sido reeleita.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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