6 de junho de 2026

Das excelências e falhas do Hospital Universitário de Londrina, por Eduardo Ramos

Cinco dias inúteis, perdidos, porque o protocolo da cardiologia é “não colocar stents nos finais de semana ou feriadões”

Editado dia 18/11/2022 para correção de informações e dados novos.

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Das excelências e falhas do Hospital Universitário de Londrina

por Eduardo Ramos

Narrando passo a passo uma odisseia ainda não terminada, onde fui – estou sendo – testemunha de comportamentos médicos e humanos extraordinários – no bom sentido – e outros que me entristecem e deixam perplexos, pelo paradoxo, pela incoerência: como pode a mesma instituição trazer em si, suas rotinas, ações e gestos que comovem e outros que trazem angústia, indignação e desespero? Vamos aos fatos:

1 – Moro em Blumenau-SC, não tenho plano de saúde pelos preços proibitivos aos que têm mais de 60 anos mas, também, por ter sido bem atendido sempre que precisei dos serviços públicos de saúde desde o fim da década de 80, quando o filho caçula precisou desde o nascimento, praticamente, de acompanhamento médico rigoroso e de excelência, pelos problemas renais graves que tinha, e isso durou até o primeiro transplante, feito na USP e o segundo transplante, já em Blumenau-SC, tudo pelo SUS, e com um carinho e atenção imensos por parte de médicos, enfermeiros, etc., mesmo os maiores medalhões da USP, médicos com fama internacional que iam até os pacientes, riam, brincavam, tiravam dúvidas e nos davam opções de tratamentos diferentes quando era o caso de uma ESCOLHA que cabia aos pais fazerem. Essa pequena introdução é apenas para deixar claro que esse artigo não visa, em absoluto, denegrir a imagem do SUS, pelo contrário, em 26 anos dos dois transplantes, JAMAIS faltaram os remédios que permitem que meu filho sobreviva.

2 – Na quarta-feira dia 09/11 fiz uma viagem com minha mulher e meu filho mais velho ao interior do Paraná, ajeitar pequenos negócios de família que envolviam a venda de um terreno, era uma viagem do tipo “bate-e-volta”, fui na quarta de madrugada, assinamos tudo e voltaríamos na quinta-feira às três da madrugada por causa de nossa rotina de trabalho. Infelizmente, à uma e meia da manhã minha mulher começou a sentir fortes dores no peito e braço esquerdo, disse que se sentia muito mal e corremos ao pequeno hospital da cidade. O médico fez alguns exames, logo depois um eletrocardiograma e às três e quinze da manhã veio o resultado: infarto! Imediatamente o SUS foi acionado, o SAMU providenciou a ambulância – UTI móvel – que chegou da cidade mais próxima e pouco depois das quatro e meia ela já embarcava para Londrina, medicada, a médica que a acompanharia nos explicando detalhadamente os riscos, a injeção e remédios que ela tinha tomado e que aparentemente ela estava muito bem para quem tinha acabado de enfartar, que poderíamos vê-la no hospital mais tarde.

3 – Minha mulher chegou à Londrina na quinta-feira por volta das oito da manhã, não pudemos visitá-la nesse dia, soubemos que ela fez diversos exames e o cateterismo foi marcado para a sexta-feira dia 11/11, quando então – segundo eu soube ser o PROCEDIMENTO COMUM EM 99% DOS HOSPITAIS, se aproveitava o procedimento para a colocação de um ou mais stents e, a pessoa não tendo sinais negativos de saúde no coração, recebia alta em torno de 48 horas depois. Foi isso que ouvi de minha irmã, médica há 40 anos, que foi diretora de um dos maiores hospitais de Santa Catarina e o transformou, junto com uma equipe fantástica, no melhor do Estado, tendo recebido esse reconhecimento por vários e vários anos.

4 – Para nossa surpresa, após o cateterismo da sexta-feira dia 11/11, não só o stent não foi colocado como soubemos que os cardiologistas queriam operar minha mulher e colocar pontes de safena, por ser “a melhor alternativa”. Minha irmã teve acesso às imagens do cateterismo e todos os cardiologistas que consultou foram taxativos: “indicação clara de stent, a ponte de safena não é uma opção ruim ou errada, mas todo médico sabe que quando duas opções são boas, opta-se pela menos invasiva, opta-se pela que incorre em menos risco para a paciente”.

5 – No sábado – 12/11 –  fui ao hospital conversar com os médicos da cardiologia e ali tive a primeira surpresa: soube por minha mulher que, na verdade, ELA JAMAIS FOI VISITADA PELO CARDIOLOGISTA CHEFE DR. VINÍCIUS, OU QUALQUER MEMBRO DE SUA EQUIPE, as visitas clínicas eram todas realizadas por residentes, que apenas comunicavam as decisões e escolhas de seus chefes, os “medalhões”. Não havia explicação alguma sobre o risco da opção “A” ou a opção “B”, não havia o menor interesse em saber se a família poderia esperar dias e dias numa cidade estranha gastando com hotel, alimentação e táxi para as visitas num gasto imenso, não havia o menor interesse em saber se a família poderia acompanhar a recuperação de uma cirurgia como a ponte de safena, em que, só a preparação leva cinco dias, a recuperação em torno de uma semana. Pior: não se dialogava com a maior interessada, a paciente, se ela preferia a opção “A” ou “B”, se as duas praticamente se equivaliam no resultado final.

6 – Quando deixei claro ao residente que veio falar conosco que a opção da cirurgia estava totalmente descartada, ele disse – inocente, senti que não estava sendo arrogante ou agressivo – “mas, seu Eduardo, sem a cirurgia não temos como dar alta à dona Jaqueline”. Ri da bobagem dita sem maldade pelo rapaz, e perguntei: “Mas ela não vai assinar a autorização para a cirurgia, já que existe um tratamento alternativo que é considerado válido até por alguns de vocês segundo eu soube. Vão operá-la à força?” No que ele, sem graça, respondeu o óbvio: “Claro que não, seu Eduardo, ninguém faz isso, é ilegal! Só queremos o melhor para a dona Jaqueline”. Era um jovem médico educadíssimo, totalmente bem intencionado, e leal aos seus chefes, o que entendo, e diante do impasse disse que levaria a nossa posição aos seus superiores.

7 – Um paciente enfartado, nas três principais artérias do coração, uma delas com entupimento de NOVENTA E NOVE POR CENTO, simplesmente não pode ficar sem uma conclusão por muitos dias: ou se opera e coloca pontes de safena ou se coloca o stent, muito raras as outras opções. Nosso desespero começou porque durante o sábado nenhum cardiologista disse nada ou veio visitar minha mulher. Aí veio o “engraçado”. Ela estava tão bem clinicamente, que tinha saído da UTI para a enfermaria comum, na verdade, a reação dela ao infarto foi tão boa e surpreendente, que quando chegou em Londrina na manhã do infarto, o eletrocardiograma dela estava praticamente perfeito, saudável, ninguém jamais diria que tinha enfartado há poucas horas.  Pois essa paciente em estado excelente, PRECISANDO APENAS QUE O STENT FOSSE COLOCADO para ter alta dois dias depois, ia ser removida para a UTI por “prudência”, porque o entupimento em uma das artérias “ERA TÃO GRAVE” que podia ocorrer um novo infarto. Aí a brutal incoerência: como pode uma equipe inteira de cardiologistas viajar no feriadão e não restar um, ao menos um, de sobreaviso, para colocar o stent numa paciente idosa, de alto risco? Não consigo encontrar justificativa para esse  protocolo desumano que, além de colocar a vida do paciente em risco, PROLONGA DE MODO IMPERDOÁVEL A OCUPAÇÃO DO PACIENTE NUM LEITO, QUE PODERIA ESTAR DISPONÍVEL PARA QUE OUTRAS VIDAS FOSSEM SALVAS!

Domingo, segunda e terça, tanto eu quanto meu filho conversamos com os médicos da UTI quando vinham conversar conosco. Poucas vezes vi tanta gentileza, educação e empatia na vida, e não estou sendo irônico: O NÍVEL DE EDUCAÇÃO, RESPEITO HUMANO E CORTESIA DE MÉDICOS, ENFERMEIROS, DEMAIS PROFISSIONAIS DE SAÚDE E OUTRAS ÁREAS DO H.U. DE LONDRINA, É EXEMPLAR E RARO! Vi cenas ali que me comoveram, de médicos e enfermeiros tratarem os enfermos com humanidade extremada, com bom humor, afeto, conhecendo de cor o histórico de cada um. Daí a surpresa espantosa com o comportamento tão diverso, tão oposto, do pessoal da Cardiologia, parece inacreditável.

8 – Capítulo final: Acreditem se quiserem: hoje, acabei de saber que “eles não sabem se colocarão o stent em minha mulher hoje, amanhã, sexta ou semana que vem”. Não sei se é raiva e retaliação do dr. Vinícius e sua equipe, pelas duas ou três vezes em que confrontei residentes e médicos obre essas incoerências todas, ou se estão apenas “seguindo o protocolo”, como dizem todos s quem pergunto porque um stent não poderia ter sido colocado no sábado, ou domingo, ou segunda ou terça-feira, ou hoje, 16 de novembro. Cinco dias inúteis, perdidos, porque o protocolo da cardiologia é “não colocar stents nos finais de semana ou feriadões” – ouvi isso de pelo menos seis pessoas diferentes.

Fica a esperança que um dias os “medalhões” do H.U. de Londrina aprendam o exemplo magnífico do comportamento humano, empático, de seus colegas da USP-SP.

Quanto a mim, não sei mais o que fazer, sobre um stent que poderia ter sido colocado em minha esposa na sexta-feira passada, e cinco dias depois, dr. Vinícius e equipe seguem mandando residentes nos informarem “que ainda não têm uma data exata”.

É desesperador!

(Eduardo ramos)

Sobre o artigo acima que escrevi sobre o Hospital Universitário de Londrina, seguem UMA CORREÇÃO PARA DESFAZER UMA INJUSTIÇA e dados novos que só ontem, 17/11/2022 me foram passados:

1) o Dr. Vinicius não é o chefe da cardiologia, dr. Ricardo é. Cometi o engano primeiro porque nunca, repito, nunca nos foram passados com clareza nomes e cargos dos médicos que estavam cuidando da Jaqueline. Como no sábado e domingo pré feriado de 15 de novembro esse foi o único nome citado pelos médicos de enfermaria, UTI e residentes que eu e meu filho conversamos, deduzi – erro meu não ter conferido – que ele era o chefe de toda a cardiologia, não é verdade, dr Vinícius é o chefe dos residentes.

2) Na verdade, não havia “um médico” responsável pela Jaque, e sim uma equipe médica, cabendo ao cardiologista de plantão num dia específico, debatido o caso de cada paciente com seus colegas, tomar as decisões médicas pertinentes. 

3) Dr Vinícius, na verdade, quando soube – via residente, o “educado” que citei no artigo – que Jaque era de Blumenau, que eu e meu filho estávamos tendo um gasto imenso para permanecer na cidade e que ela preferia o stent para voltar logo para casa e lá decidir com calma sobre a ponte de safena, MESMO NÃO ESTANDO DE PLANTÃO, ARTICULOU COM ALGUNS MÉDICOS A TENTATIVA DE COLOCAREM O STENT EM JAQUE ATÉ A QUARTA-FEIRA PÓS-FERIADO!

Uma atitude humana e solidária! 

Nem eu nem Jaque soubemos disso até ontem, quando eu quis corrigir a injustiça feita ao Dr. Vinícius. Mas, me permito uma pergunta bastante óbvia: porque deixarem paciente e família num “vácuo de informações”, até mesmo em relação a ações positivas vindas da equipe médica?

4) Minha irmã médica enviou um email na quarta-feira para o diretor-médico do hospital, dr. Alcindo, que teve uma longa conversa comigo, explicando várias coisas, por exemplo sobre terem recebido um número absurdo de infartados naquela mesma semana, muito superior à média e que isso, obviamente prejudicou o andamento mais rápido de alguns procedimentos na área da cardiologia. Também esclareceu que “não há um protocolo oficial de diminuição de médicos em feriadões” como haviam me falado, e sim um escalonamento normal em todos os hospitais. Colocou-se à disposição para qualquer esclarecimento que eu julgasse necessário.

5) A boa notícia: Jaque colocou dois stents ontem, deve ter alta hoje ou amanhã e iremos pra casa! Vários profissionais do H. U. de Londrina concorreram para o fato, agradeço a todos!

Por fim,  mantenho as duas críticas mais severas que fiz no artigo original:

Primeira – Inacreditável que as informações e opções de tratamento não cheguem com rapidez, clareza e objetividade ao paciente e seus familiares!!! Ora, se tudo o que eu soube só quarta e quinta-feira alguém tivesse me dito antes, eu nem teria escrito o artigo que escrevi, o diálogo com a equipe médica teria me permitido enxergar e compreender todo o contexto! A comunicação foi tão inexistente, que até os fatos louváveis, como o Dr Vinícius e sua irmã, Dra Camila ajudarem nos esforços para a colocação do stent, só soubemos dias depois! Não faz sentido omitir ações como essa dos pacientes, por razões óbvias, elas tranquilizam àqueles que estão esperando um procedimento.

Segunda – mesmo na UTI, que gera mais proteção ao paciente, e com ou sem feriadão, algo precisa ser feito para que a cardiologia exponha as opções de tratamento para o paciente com mais rapidez e objetividade do que um lacônico “a equipe está estudando o seu caso”. E o prazo para a colocação de um stent no coração precisa ser mais ágil!

Fica o registro justo e necessário desse complemento ao artigo original, e faço questão de reiterar algo que lá escrevi: é quase Inacreditável a dimensão de educação e respeito no trato com os pacientes que vi nas enfermarias e UTIs onde Jaqueline esteve, com menção super honrosa para a UTI 5.

Essas eram as correções e acréscimos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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