Não farei aqui uma comparação entre as virtudes do PT e os defeitos do PSDB. Isto é algo que compete ao PT e à Dilma Rousseff fazer. No Estado de São Paulo, a única virtude conhecida do PSDB é a capacidade de seus líderes de saírem ilesos das graves acusações feitas contra eles (roubalheira no Metrô, dilapidação da Sabesp, etc….), isto geralmente não ocorre com o PT. Mas nem por isto os petistas são santos. Política, contudo, não diz respeito a santidade e sim à realidade. E é da realidade que quero falar.
Cresci num país endividado, em que a maioria das pessoas não tinha oportunidade de cursar uma universidade pública. Quando eu era jovem havia pouco emprego, o salário baixo as carências tão grandes que não podiam nem mesmo ser percebidas. Soterrávamos bem no fundo de nossas consciências quase tudo que desejávamos e não podíamos ter. Caso contrário, a única opção seria mergulhar na violência criminosa e ganhar da PM uma passagem para o cemitério a tiros (coisa que ainda ocorre muito em São Paulo).
Hoje conversando com um jovem advogado, filho de um amigo que tem quase a mesma idade que eu, tudo isto veio a tona. O garoto, que tem pouco mais de 23 anos, me disse que votaria em Aécio porque não queria mais tudo o que está aí, que qualquer coisa era melhor que Dilma. Irritado, lhe disse que com Aécio o país seria deliberadamente mergulhado no abismo. Ele disse que votaria em Aécio assim mesmo e inclusive sabendo que ele é viciado em cocaína. Pousei a mão no peito do rapaz e lhe disse “Desejo que você sofra bastante com o governo que escolheu!” Ele me perguntou porque.
Contei ao garoto a história de um país que ele não conheceu, porque ele nasceu e cresceu num país diferente que o meu e o do pai dele. Sua autoconfiança e inexperiência me pareceram evidentes. Ele é advogado, mas não sabe o que o desemprego, a queda dos salários, a contração da economia, a incapacidade do Estado de cumprir suas obrigações em razão da queda de arrecadação, o desespero e a inflação são capazes de fazer às pessoas. Ele sorriu e me disse que isto era uma questão de ponto de vista. Insisti que a questão era de realidade, que o pai dele ali presente e em silêncio sabia do que eu estava falando. Encerrei a conversa dizendo ao garoto que ele precisa tomar porrada da vida para aprender e que não há outra maneira. A escolha será sua.
Em casa a frase “Desejo que você sofra bastante com o governo que escolheu!” dita de forma tão solene ficou martelando na minha consciência. É óbvio que eu não desejo mal ao filho do meu amigo. Tanto que não votarei no candidato dele. Mesmo sendo retórica (porque antecipa a realidade de um fato futuro e incerto), esta frase é terrivelmente e coloca uma distância abissal entre o “eu” e o “outro”. Ela também esconde uma verdade evidente, a infelicidade do “outro” será também e necessariamente partilhada pelo “eu” que a enuncia já que o governo afeta todos os que não são amigos do governante.
Um governo que faz seus eleitores sofrer é tirânico. Portanto, a frase “Desejo que você sofra bastante com o governo que escolheu!” que foi enunciada por mim com a mão no peito do rapaz encerra o destino do próprio tirano. Se chegar ao poder e fazer tudo que pretende, Aécio Neves não será um homem mais feliz. Ele entrará para a história como aquele que em nome da mudança privou os pobres de empregos, de salários, de educação, de futuro e de esperança. Quem em são consciência iria querer entrar para a História como um “Destruidor do Dharma”*? Ninguém, nem Aécio se ele fosse um homem são. Mas ele não é. Seu vício é uma fraqueza e sempre que uma fraqueza chega ao centro do poder o resultado é o mundo ficar cheio de sofrimento e dor. O processo de autodestruição se espalha destruindo tudo ao redor e consumindo ainda mais rápido o vetor do vício.
Porque não votarei em Aécio? Porque desejo o bem do Brasil, o bem dos brasileiros e, portanto, o bem do jovem advogado a quem desejei que sofra com o governo que escolheu. Mas sobretudo não votarei em Aécio porque desejo o bem do próprio Aécio. Ele não precisa sofrer mais do que já sofre. Se fosse um homem são, ele não desejaria ser lembrado como um tirano pelos brasileiros que virão. Aécio já teve um bom momento na sua carreira pública – quando foi um jovem e energético Presidente da Câmara dos Deputados – e pode perfeitamente deixar esta imagem positiva quando se for, mas isto não ocorrerá caso ele não seja eleito. E ele não será eleito para seu próprio bem.
* Em sua autobiografia o Dalai Lama diz que ao encontrar pessoalmente Mao Tsetung ele soube imediatamente que o líder chines seria o “Destruidor do Dharma”, ou seja, o destruir da ordem social, política, religiosa, econômica, espiritual e cultural do Tibet.
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