4 de junho de 2026

De Aquiles Rique Reis para Zé Miguel Wisnik

As dez faixas produzidas pelo Alê Siqueira, além da que foi produzida pelo Marcio Arantes, têm a delicadeza que habita a largura de sua alma, Zé.

De: Aquiles

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Para: Zé Miguel Wisnik

Oi, Zé Miguel! Escrevo porque preciso lhe falar umas coisas. Pertinho do Natal, recebi Vão, o seu novo trabalho, que o Guto Ruocco, da Circus, me enviou. Fiquei que nem criança quando abre um presentão! Entendeu, né, professor?

As dez faixas produzidas pelo Alê Siqueira, além da que foi produzida pelo Marcio Arantes, têm a delicadeza que habita a largura de sua alma, Zé. A instrumentação da qual eles se valem é outra característica marcante de seus trabalhos anteriores, Zé Miguel: poucos instrumentos, cada um dispondo do tempo minimamente necessário para engrandecer os arranjos, criando o minimalismo sonoro e harmonioso com o timbre da sua voz, emoldurada por seu piano, tão sem parti pris – ambos admiráveis!

Os nomes de seus parceiros – Arnaldo Antunes, Carlos Rennó, Guilherme Wisnik, Luiz Tatit, Marina Wisnik e Paulo Neves – dão ainda mais peso à sua já robusta trajetória criativa, Zé. Peso que só aumenta com as participações de Ná Ozzetti, Mônica Salmaso, Marina Wisnik, Zahy Guajajara, Ilessi, Sophia Chablau, Carina Iglecias e Celso Sim. Caramba, véio, que turma enérgica!

Mas, é aqui que eu volto àquela historinha da criança feliz, que ganha o presentão, que relacionei ao fato de eu me sentir alegre como ela, a criança que ama música e através dela cresce. E foi o que fiz, Zé Miguel: ouvi o álbum. E cresci.

Abrindo a tampa está sua música com Carlos Rennó, “O Jequitibá” (“o velho, belo e bom jequitibá do Trianon”), árvore centenária de quando, na Avenida Paulista, “Não havia Masp nem seu vão/ Nem Fiesp, nem arranha-céu, nem casarão”. Ao ouvi-lo cantando com Ná Ozzetti (gosto muito dela!), minha garganta apertou e chorei às pampas, eita gíria velha! Choro que voltou mais tarde, quando mostrei para a Nilza, minha companheira, o videoclipe da música, dirigido pelo Coletivo Bijari, com fotos de Bob Wolfenson.

E mais, Zé, me amarrei no texto de Paulo Neves, que você musicou em “O Chamado e a Chama”: “Poeta interpreta/ O músico intervém/ A poesia é um chamado/ A música é uma chama”, meu Deus, tutameia! Maneira está sua voz uníssona com a da Marina Wisnik e com o piano. Bem como o máximo foi ouvir as vozes sampleadas de Elza Soares e Gilberto Gil, em meio a efeitos do teclado. E o que é “Avesso Vão”, sua parceria com Marina Wisnik? Que versos, meu! “(…) Lá onde a matéria é dona do seu próprio avesso imenso vão/ Tudo que se guarda é o sopro dentro do desejo (…)”, ela canta, dobrando a voz, enquanto, com batera, teclado, clarinete e clarone, expõe a universalidade da música.

É, meu querido Zé Miguel, eu ainda teria muito a falar sobre Vão e sobre você e os instrumentistas Neymar Dias, Alexandre Fontanetti, Swami Jr., Sérgio Reze, João Camarero, Marcio Arantes, Felipe Roseno, Big Rabello, Junix, SekoBass, Japa System, Alexandre Ribeiro, Fabio Tagliaferri, Pedro Banbera, Ricardo Herz, Gian Correa e Vitor Casagrande, que ajudaram a fazer do seu trabalho um poema à música, mas aqui eu vazo, fui! Abraço do seu seguidor,

Aquiles

Aquiles Rique Reis

Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.

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