Bicho de Goiaba Podre
por Abel de Castro
“Batalhão da Guarda Presidencial, desde o império sentinela imortal,
Estandarte rubro-anil, à serviço do Brasil.
No passado, nobre infante,
Denodado, triunfante,
Guardião para a legalidade
Pela paz e pela liberdade.
No presente bandeirante
Armipotente, confiante
No Planalto com nossa pujança
Garantindo perene segurança
Nessas fardas de tradição
Mil jornadas de sangue e ação
Expressando a bela marcha varonil
Da tropa guarda do Brasil”.
Esta é a canção do BGP – Batalhão da Guarda Presidencial que todos nós, recrutas do ano de 1988 éramos obrigados a esgoelar durante o período de “adestramento” – aquele hiato de alguns meses entre a chegada ao batalhão, raspar a cabeça, submeter-se a inúmeros trotes – e a efetiva incorporação às fileiras do Exército como granadeiro. Me lembro da letra da canção até hoje (menos o “armipotente”), bem como de todos os demais hinos militares que éramos obrigados à cantar.
Nunca quis ir para o Exército, mas já que fui obrigado a servir, melhor que tenha sido no BGP ou “Bicho de Goiaba Podre” como era chamado pelos soldados dos batalhões rivais no SMU, notadamente a PE – Polícia do Exército. Durante as cerimônias em que ficávamos perfilados lado-a-lado, nós nos xingávamos mutuamente entredentes, chegando mesmo às vias de fato quando durante as horas de folga nos cruzávamos nos bares da poeirenta Octogonal do século passado.
O BGP foi fundado em 1823 por D. Pedro I com o nome de “Batalhão do Imperador”. A mudança de nome ocorreu após a transferência da capital Federal para Brasília. A farda de gala é azul e branca com inúmeros detalhes dourados e vermelhos. O 1 (primeiro) Regimento de cavalaria de Guarda, alterna a Guarda Presidencial com o BGP. Durante os cerimoniais, ostentam a bela farda de gala dos Dragões da Independência chamados pejorativamente por nós de “beiçudos” – por causa dos cavalos.
Me lembro de uma palestra do tenente comandante do meu pelotão, quando lhe perguntei se, em caso de guerra, qual seria nosso papel? Enquanto eu “pagava” as dez flexões por ter feito uma pergunta, o tenente nos explica que “em caso de guerra, existem anéis de proteção em Brasília que são missões específicas de cada batalhão: artilharia, infantaria motorizada, polícia do Exército, cavalaria etc. Mas nós, do BGP temos por função fazer a guarda dos palácios e proteger especificamente o presidente”.
Às vezes fazíamos guardas em escalas apertadíssimas de 24/24 e quando não, com certeza havia algum cerimonial. Era o tempo de chegar morto de cansaço de manhã, limpar o armamento, lavar a farda, verificar a escala e se preparar para a guarda na manhã seguinte. Tínhamos um “padrão BGP” a seguir rigorosamente como a limpeza da farda, o lustro nas dragonas e adornos da farda de gala, polainas brancas e o coturno refletindo a luz do Cerrado.
Os soldados nominavam as escalas de serviço em “Guarda A” e “Guarda B”. O critério era determinado pela qualidade da comida servida. Nas guardas A, comíamos a mesma comida dos funcionários técnicos dos palácios; enquanto nas guardas B, a comida era transportada do batalhão e sua qualidade dispensa comentários.
As guardas A eram: Palácio do Alvorada, Palácio do Planalto – essas duas guardas eram boas por causa da comida, mas eram exaustivas e estressantes, dado o tamanho do contingente envolvido, a quantidade de postos a revezar, e obviamente, a responsabilidade gigantesca de defender o presidente da República. Sem falar que sempre acontecia alguma alteração – uma briga entre soldados, a perda de um cartucho de munição, um furto – o que nos levava a ficar retidos no corpo da guarda horas até o retorno ao Batalhão; também fazíamos a guarda do Panteão da Liberdade (recém inaugurado); Hospital das Forças Armadas – HFA, Palácio do Jaburú (essa era ótima, pois como o presidente José Sarney não tinha vice, ninguém morava lá, além de possuir estatuária belíssima e um lago particular); e a Granja do Torto – também ótima pela beleza da casa de campo, do pomar, bem como pelo número reduzido de soldados já que também vivia deserta.
As guardas B eram: a guarda do quartel, o Centro de Informática do Exército, O CMP – Comando Militar do Planalto; e o pesadelo das guardas: a “Fazendinha” (QROGEX) – quadra residencial dos oficiais generais do exército – onde morava o Ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves, que no ano seguinte teria uma certa contrariedade com um certo tenente indisciplinado. Não me lembro das outras guardas e me perdoem se minha memória me trai.
Entre uma guarda de honra aqui, uma entrega de credenciais à embaixadores ali, outra guarda fúnebre de algum general acolá, passam-se os meses. No final do ano, em novembro de 1988 – lembrem-se: 3 anos após a abertura do regime – acontece a greve da companhia siderúrgica nacional em Volta Redonda (CSN) levando a confrontos os grevistas e a PM do Rio de Janeiro, seguido da ocupação da empresa pelos sindicalistas. A direção da CSN (ainda estatal) solicitou a reintegração de posse e a intervenção do Exército para “garantir a lei e a ordem”.
Mesmo estando em Brasília, o BGP entrou de prontidão – ninguém sai do Batalhão, nem o Estado-Maior – e começamos a fazer diuturnamente o TDC – Treinamento contra Distúrbios Civis. Eu fui escalado como mensageiro do comandante e seguia a seu lado na retaguarda, enquanto a tropa marchava na nossa frente com escudos e cacetetes guiada pelos sons de apitos que ora indicavam “formação em cunha”, “formação em diagonal” ou “formação em linha reta” com a intenção de “tanger a massa” na direção desejada. A nós soldados, era dito que os grevistas da CSN “jogavam ácido na cara dos soldados”, e isso justificaria o uso da força. Felizmente não foi necessário nos deslocarmos até o Rio. A consequência da intervenção militar na “Greve de 1988” em Volta Redonda foi a morte de três sindicalistas e cerca de 100 feridos.
No domingo passado, (08/01/2023), como todos nós, observei estarrecido à invasão da praça dos Três Poderes pela horda bolsonarista. Me lembro que nas guardas no Palácio do Planalto, quando eu não estava de sentinela, eu pedia aos superiores para passear dentro do palácio só para ver as autoridades, visitar a biblioteca, contemplar o planalto central através das janelas enormes e apreciar as obras de arte que tanto me deslumbravam. Fiquei muito triste ao ver o estrago que foi feito ontem.
No meio das imagens da turba em fúria, eu procurava enxergar algum militar com o brasão do BGP no braço. Talvez eles estivessem nos postos de sentinela que existem nos cantos do palácio e do anexo, eu pensei, ou talvez eu veria o Oficial de dia por ali com o capacete sob o braço. Ninguém. Não vi nem os dois habituais beiçudos lanceiros em farda de gala no topo da rampa adornando com galhardia as fotos tiradas pelos turistas. Ninguém. Onde eles estavam? Por que eles abandonaram o posto que é a pior vergonha para uma sentinela? Por que eles deixaram aquele povo destruir nosso palácio? Eles têm treinamento e contingente para isso. A função do batalhão é exclusivamente essa: defender a presidência da República.
Em que momento perderam de vista a honra e a tradição do Batalhão do Imperador D. Pedro I outrora equiparado à Guarda da Rainha da Inglaterra ou a Polícia Montada canadense? Em que momento foi desrespeitada a história e a glória dos granadeiros, abandonando seu Comandante Supremo ao léu e deixando que vândalos depredassem as obras de Niemeyer, Lúcio Costa e Di Cavalcanti – e até o quadro do Patrono Duque de Caxias – profanando a memória, o patrimônio e o trabalho de milhares de candangos que construíram uma cidade no meio do nada?
O BGP foi o Batalhão que eu honrei com um ano da minha vida e onde aprendi que nem se sentar com a farda de gala nos era permitido para não desonrarmos o uniforme. Por favor, respeitem-no.
Estou engasgado e profundamente decepcionado, e o que vem à minha boca e narinas é um gosto acre e um cheiro fétido de goiaba podre.
Abel de Castro é Antropólogo e ex-granadeiro.
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anonimo
10 de janeiro de 2023 6:25 pmExcelente texto. Nao poderia faltar esta experiencia interna.
Mas a reposta a suas questoes é simples: é tudo teatro, mentira. Militares, em geral e fora da cena, nao tem qualquer hieraquia: se ofendem e agem muito pior que qualquer profissional. Pelo simples espirito de respeito falso, irreal, pela forca. Nao ha, em geral, admiracao mutua; e nao poderia ter mesmo, pelo metodo que sao treinados.
E sao os primeiros a fugir mesmo; aqui e na Ukrania, que manda civis para serem treinados nas armas presenteadas pela UK.
E aqui é pior. A pagina da BGP hoje esta chamando musicos para sua banda. E deve ter barbeiros, alfaiates, etc.
Anônimo
10 de janeiro de 2023 10:20 pmExcelente texto, ele consegue mostrar a indignação de milhares de brasileiros.
Luiz alberto Melchert de carvalho e Silva
11 de janeiro de 2023 2:48 amQuando eu trabalhava em Brasília, ia montar o cavalo do comandante do 1º RCG e o veterinário de lá fazia par comigo no concurso de cavalo de carroceiro mais bem tratado do DF. Eu criei esse cncurso para detectar e substituir os animais com anemia infecciosa equina, sem que os carroceiros perdessem sua fonte de renda. Também gostaria de saber onde foi parar esse contingente bem armado e bem treinado. O exército brasileiro deve muitas respostas aos cidadãos e esperamos que não as deixem de dar.
Milton
11 de janeiro de 2023 7:56 amUm testemunho para nossa história.
Em que momento perderam de vista a honra e a tradição ?
Pergunta hoje que os integrantes das FFAA deveriam se fazer. Deixaram-se levar por paixões particulares em detrimento de suas obrigações maiores claramente definidas.
No CPORPA, Infantaria, fiz meu serviço militar sob o comando do Major Pedro Américo Leal ( apelido Urso ), um exemplo a todos nós, alunos, e ao oficialato das FFAA: rígido, cortês e justo, defensor intransigente da nacionalidade brasileira.
Hoje toleram baderneiros, quando não participantes, omitem-se de suas obrigações e entregam-se a facções políticas .
Ao Brasil, aos brasileiros o caos.
Uma tristeza.
Fernando Maran
11 de janeiro de 2023 12:37 pmADOREI a SECÇÃO! Continuem assim!
Anônimo
12 de janeiro de 2023 6:11 pmTenho a honra de ter servido no BGP em 1989 na 5 Cia cobra. Recordo de todas exigências cobradas da tropa. Porém a guarda jamais abandona seu posto, e em caso de alguma alteração todos os postos são dobrados. Oquê ocorre é que a guarda cumpre ordens de superiores.
Wagner Borges Oliveira
26 de abril de 2024 12:30 pmÓtimo texto, Abel.Tambem servi no BGP em 1988 na 5 cia Cobra.