No meio do caminho tinha um Rio das Pedras
por Marco Piva
Rio das Pedras é um município paulista distante 167 quilômetros da capital. Com um clima ameno de 25º graus em média e altitude de 613 metros acima do nível do mar, tem um solo podzólico variado entremeado por terrenos arenosos com ocorrência de piçarras. Surgiu com o nome de Freguesia do Senhor Bom Jesus do Rio das Pedras entre 1870 e 1871 quando os trilhos da então Estrada de Ferro Ituana, posteriormente Fepasa, rasgaram seu território. Em abril de 1889 se tornou distrito de Piracicaba até 10 de julho de 1894 quando foi alçada à condição de Vila e, finalmente, se tornou município em 19 de dezembro daquele mesmo ano com seu nome atual: Rio das Pedras. Seus 35.738 habitantes (2020) são descendentes, em sua maioria, de imigrantes italianos que durante muito tempo se dedicaram ao cultivo do café e da cana-de-açúcar. Hoje, muitas empresas estão instaladas na cidade como Arcor, algumas fornecedoras de peças para a Hyundai e a metalúrgica Painco, muito famosa na região. Também sobrevivem poucas usinas de açúcar e álcool, apesar da crise do setor.
Às 14h30 do dia 13 de janeiro deste ano, uma das torres de eletricidade que corta o município foi danificada num ato de sabotagem ou vandalismo, segundo suspeita da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O Ministério das Minas e Energia pediu reforço na segurança das linhas de transmissão e solicitou a abertura de investigação pela Polícia Federal.
Nesse mesmo dia, em horário não determinado, uma outra torre foi danificada na pequena cidade paranaense de Tupãssi. Até o dia 16 de janeiro, em todo o país oito torres haviam sido derrubadas e quatro danificadas em São Paulo, Paraná e Rondônia.
Mas, voltemos ao pacato município de Rio das Pedras, que somente em 1913 recebeu energia elétrica e seu primeiro posto telefônico. Em 1916 chegou a água encanada para alegria da população. De lá para cá, o desenvolvimento econômico teve momentos de crise, mas não a ponto de fazer com que seus habitantes deixassem a cidade ou perdessem suas raízes, principalmente as religiosas. A festa de Bom Senhor Jesus ocorre no dia 6 de agosto com grande participação popular.
Mas, então, qual seria o motivo para um município pacato e ordeiro sofrer um atentado que ameaçou o fornecimento de energia elétrica para os seus habitantes? O prefeito Marcos Buzetto, eleito para seu terceiro mandato, desconhece qualquer razão para tal ato. O site da prefeitura sequer menciona o assunto. Nas redes sociais locais os comentários são escassos.
Diante de caso tão insólito e surpreendente e especialmente depois do dia 6 de janeiro, não há como deixar de lembrar do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado originalmente na Revista de Antropofagia, em 1928:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Ou havia um Rio das Pedras?
Marco Piva é jornalista e apresentador do programa Brasil Latino, na Rádio USP FM 93,7.
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