10 de junho de 2026

Debate sobre independência do Banco Central chega à Austrália

Enquanto presidente do RBA defende juros altos, analistas colocam independência como “talismã” político para evitar responsabilidades
Sede do Banco Central da Austrália. Foto: Reserve Bank of Australia

A discussão em torno da independência do Banco Central não se restringe ao Brasil: na Austrália, a política defendida pelo atual presidente da autoridade monetária tem feito senadores aumentarem a pressão por sua demissão.

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O atual mandatário do Reserve Bank of Australia (RBA), Philip Lowe, defende publicamente que os bancos do país contabilizem patamares recordes de lucros ao mesmo tempo em que as taxas de juros estão no patamar mais elevado desde setembro de 2012 – embora se cogite novos aumentos nas reuniões de março e abril.

Em audiência com os senadores australianos, Lowe voltou a confirmar a manutenção da escalada dos juros e que “as pessoas precisam entender o risco de deixar a inflação, ou o custo de vida, continuar aumentando”.

“É corrosivo para a economia. E todas as evidências são de que se a inflação permanecer alta por muito tempo, as expectativas se ajustam e isso leva a taxas de juros mais altas e mais desemprego. Os riscos são duplos e estamos tentando navegar por um caminho estreito”, pontuou.

Ao mesmo tempo, sabe-se que o presidente do RBA é defensor dos recordes dos lucros bancários por considerar, no longo prazo, importante ter bancos “fortes” obtendo lucros, e que “é melhor para o país ter bancos fortes e resilientes que possam fornecer os serviços financeiros de que precisamos”.

Sobre a população afetada pela alta dos juros, como os locatários e detentores de hipotecas, Lowe voltou a culpar a inflação. “As pessoas estão sofrendo muito, eu entendo isso, mas também entendo que se não controlarmos a inflação isso significa juros ainda mais altos e mais desemprego”, respondeu.

O presidente do BC australiano projeta um “pouso suave” apenas a partir do próximo ano. “Queremos reduzir a inflação, mas também queremos preservar os ganhos de emprego que obtivemos”, disse.

O ‘token’ da independência para fugir da responsabilidade

Para analistas, o fato de tanto os políticos governistas como de oposição citam a independência do RBA com tanta frequência serve como uma espécie de “talismã” para eventuais lapsos, ou seja, a independência é considerada um mecanismo conveniente para esses políticos.

“Uma analogia melhor, talvez, é que as decisões econômicas mais importantes que afetam nossas vidas são tomadas por uma máquina que os tesoureiros dão corda e põem em funcionamento, e depois olham para o outro lado enquanto causam estragos”, diz o jornalista Alan Kohler, em artigo publicado no site The New Daily.

O articulista afirma que a política monetária deve envolver “vastas deliberações democráticas, em recintos parlamentares e fóruns públicos, com base em avaliações detalhadas, prós e contras, que nos permitam julgar os efeitos das diferentes políticas monetárias possíveis sobre múltiplos indicadores sociais e ambientais”.

Porém, “o modelo atual dos bancos centrais definitivamente não é esse: depois de nomeados pelos governos (…) seus líderes se limitam a se reunir a portas fechadas e decidir entre si a melhor forma de usar imensos recursos públicos”.

A melhor definição a respeito de Lowe é dada pela jornalista Katharine Murphy, do jornal britânico The Guardian. “Lowe é de uma época em que as elites detinham todos os microfones e se comunicavam na página de opinião da Australian Financial Review; onde os shibboleths da vida econômica nacional foram proclamados para as comunidades que não tinham a oportunidade ou as plataformas de massa para responder”.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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