Beth Carvalho, as raízes da madrinha do samba
por Daniel Costa
Foi o compositor portelense Monarco, que certa vez lembrou em entrevista que ao lançar em 1978 o álbum “De pé no chão” (RCA), a cantora Beth Carvalho definitivamente colocava o samba na mídia. Segundo o baluarte da escola de Osvaldo Cruz, o lançamento do disco, “foi bom para Beth e para o samba”.
Tomando como ponto de partida as palavras do mestre Monarco, acreditamos que realmente o lançamento do álbum foi bom para a cantora, pois além de consolidar sua imagem para o público enquanto intérprete de sambas, contribuiu também para que Beth Carvalho ganhasse maior destaque no casting de sua gravadora, a multinacional RCA. O disco, aberto pelo atemporal “Vou festejar” (Neoci, Duda e Jorge Aragão) e encerrado com o clássico “Agoniza mas não morre” (Nelson Sargento), pode ser ouvido como mais uma página da carta de intenções daquela que viria a ser reconhecida anos depois como a madrinha do samba.
Ao percorrer as faixas do álbum em sua sequência original, fica perceptível para o ouvinte como o diálogo entre a tradição e aquilo que é entendido como modernidade ocorre de forma natural no repertório de Beth Carvalho. Caso semelhante pode ser observado também na produção de nomes como Paulinho da Viola (A dança da solidão, Odeon, 1972) e Martinho da Vila (Canta canta, minha gente, RCA, 1974). Porém, retomando o que foi dito por Monarco, o disco pode ser visto também como bom para o samba, exatamente por proporcionar o diálogo entre gerações. Assim, temos no mesmo álbum, desde os quase novatos Jorge Aragão (já conhecido pela gravação da sua composição “Malandro” por Elza Soares no álbum Lição de Vida, Tapecar, 1976) e Beto Sem Braço, representantes do Cacique de Ramos, os compositores ganhariam destaque na mídia e nas gravadoras ao longo da década seguinte, junto ao movimento que ficou conhecido como pagode de fundo de quintal, passando pela tradição representada por nomes como os mangueirenses Cartola, Nelson Sargento e o onipresente Nelson Cavaquinho, os portelenses Monarco e Chico Santana e por fim, uma geração intermediária, espécie de ponte entre as outras duas gerações, representada por nomes como Martinho da Vila, Candeia, Wilson Moreira e Nei Lopes.
Porém, para compreender como é forjada a figura de Beth Carvalho enquanto sambista, ou seja, a intérprete que viria a explodir para o grande público através dos seus discos lançados pela RCA na virada dos anos 1970 é necessário percorrer sua trajetória anterior, especificamente a trilogia lançada pela gravadora carioca Tapecar.
A estréia de Beth Carvalho enquanto “artista do disco” ocorre na década anterior, com o lançamento em 1967 do álbum “Muito na onda” (Copacabana), no disco coletivo a jovem Beth desempenha satisfatoriamente sua função como crooner do Conjunto 3D. Ao lado dos músicos Antônio Adolfo, Hélio Delmiro e Eduardo Conde, a jovem cantora ainda influenciada pelos ares da música produzida na zona sul carioca desfila uma série de hits nacionais e internacionais.
Seu primeiro disco individual viria apenas após o sucesso de público obtido com a apresentação no III Festival Internacional da Canção da música “Andança”, composição de Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi. O álbum lançado em 1969 pela Odeon, além de trazer a música que acompanharia Beth Carvalho por toda sua carreira, apresentava ao público uma cantora ainda tateando por diversos caminhos, como a bossa nova tardia, a nascente MPB e o samba, que começava a aparecer em seu caminho, nessa época a cantora já era figura frequente na Noitadas de Samba do Teatro Opinião. No início dos anos 2000, a cantora deu seu depoimento sobre o evento:
“Eu ouvi uma música chamada “Nome sagrado”. Essa música me impressionou muito. Eu vi Nelson cantando no Teatro Opinião. E aí passei a frequentar a roda de samba que tinha lá toda segunda-feira (…) Eu convivi muito com ele, porque depois que ouvi “Nome sagrado” simplesmente decidi conhecer toda a obra dele. Toda mesmo. Toda segunda-feira ele era fixo no Teatro Opinião. Era ele, a Clementina de Jesus, o Xangô da Mangueira e o Cartola. E ainda havia os convidados. Esse espetáculo foi muito importante porque trouxe todos os compositores do subúrbio para a Zona Sul. Eu conheci Valter Rosa, Candeia, toda essa gente. E nós sabíamos que ali estávamos nós tornando uma geração de vanguarda, porque quem estava no Opinião era a vanguarda. Éramos um núcleo da juventude brasileira sedento de coisas brasileiras. Acho que por isso eu fui me ligando ao povo do samba e percebi que essa era a minha verdade maior (…) Quando eu vi Clementina eu disse: essa é a mulher! Ela foi absolutamente definitiva para a minha decisão, porque eu a compreendi. Não tem isso? Você compreende um artista de uma maneira tão forte que você diz: é isso, e por isso eu dediquei a ela meu primeiro disco de samba”.
O depoimento acima mostra como Beth caminhava com desenvoltura pelos diversos caminhos e movimentos da música popular, porém, seria no samba que encontraria sua guarida
A construção da identidade de sambista
Com o disco “Canto para um novo dia”, álbum lançado em 1973, Beth inicia de forma definitiva sua trajetória enquanto intérprete de samba, com arranjos do pianista César Camargo Mariano o disco traz desde sambas como “Hora de chorar”, parceria do imperiano Mano Décio da Viola com Jorge Pessanha, o hino do carnaval pernambucano, “Evocação”, de Nelson Ferreira, e o clássico de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, “Folhas Secas”, a faixa conta com a participação do compositor mangueirense tocando seu violão único.
Anunciando o que viria a ser uma de suas principais características (como afirmamos ao comentar de passagem o álbum de 1978) o disco apresenta um franco diálogo entre a tradição e a modernidade. Assim, temos além das faixas citadas, canções de Darcy da Mangueira, Manuel Santana, Mário Lago e Garoto da Portela aparecendo ao lado dos jovens Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro e os irmãos João e Gisa Nogueira, autora de uma merecida homenagem a rainha Quelé, Clementina de Jesus.
O álbum seguinte da trilogia, “Pra seu governo” (1974), canção de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, sucesso da década de 1950, traz uma Beth já entregue de corpo e alma ao samba. Com arranjos de Paulo Moura e Orlando Silveira o álbum traz as clássicas, “1800 colinas”, do salgueirense Gracia e “Maior é Deus”, assinada pela dupla Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, essas duas faixas entrariam de forma definitiva para o repertório da cantora.
O disco traz ainda composições dos portelenses Norival Reis e Monarco, Jurandir da Mangueira, dos sempre presentes Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e mais uma vez o espaço para os jovens compositores é garantido, entre eles, César Costa Filho, Edmundo Souto e novamente Gisa Nogueira. Responsável pelo texto da contracapa do álbum, o veterano Mário Lago parece profetizar o futuro da ainda jovem intérprete. Vejamos um trecho:
“A moça nasceu na Gamboa, antigo bairro de malandragem, capoeira e gente pobre, gente suor, gente fome. A vida arrastou a moça pra fome e o suor disfarçados da zona sul. Mas já veio pra areia sambando no pé, dizendo coisas no violão e no cavaquinho. E, principalmente, trazendo uma proposta de briga: briga por uma MPB realmente nossa, que a gente ouve sem sotaque e sem se lembrar do ritmo de ninguém”.
A naturalidade e a familiaridade de Beth com o samba traz para o ouvinte em faixas, como a citada “1800 colinas”, “A pedida é essa” e “Vovó Chica”, a sonoridade e o clima informal das rodas feitas no quintal de Tia Ciata ou nas tradicionais festas da Penha, e que ganharia vigor na década seguinte, com as gravações de nomes como Almir Guineto, Zeca Pagodinho e Jovelina Pérola Negra.
O ciclo da cantora na Tapecar é encerrado com o álbum “Pandeiro e viola” (1975), repetindo a dupla de arranjadores do álbum anterior, agora com o reforço do “rei dos bailes” Ed Lincoln, o disco traz releituras de “Onde está a honestidade”, clássico de Noel Rosa e “Gota d’ água” de Chico Buarque, mostrando que mesmo entregue de corpo e alma para o samba a versatilidade enquanto intérprete permanecia ilesa em Beth Carvalho. Destaque ainda para as faixas, “Pandeiro e viola”, de Gracia do Salgueiro, “Enamorada do sambão”, de Martinho da Vila e “Sente o peso do couro”, samba assinado pela dupla Norival Reis e Vicente Matos.
Se na década seguinte a cantora seria responsável por revelar compositores como Luiz Carlos da Vila, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Sombrinha, durante sua estadia na Tapecar, Beth seria responsável por apresentar ao público obras de figuras como Walter Rosa, Dona Ivone Lara, Monarco, Paulo César Pinheiro e tantos outros compositores.
Segundo a pesquisadora Analu Gomes, “foram muitos os quintais frequentados por Beth e seu cavaquinho. Essa mangueirense foi quem mais gravou compositores da Portela. Do Cacique, ela trouxe o banjo com afinação de cavaco para os estúdios e seus shows. Nos palanques defendeu causas sem se tornar panfletária. Seus discos espelham essa liberdade de reluzir belezas, reafirmar convicções, e de saber onde sempre quis chegar, embora ela própria tivesse, algumas vezes, que inventar caminhos”.
Esses caminhos foram pavimentandos ao longo de uma carreira onde o diálogo entre a tradição e o novo foi uma constante. Os três discos produzidos na Tapecar representaram o ponto de partida da construção de um verdadeiro projeto, onde ao longo de sua carreira Beth Carvalho deu vez e voz aqueles que fizeram do samba sua verdadeira missão.
Evoé nossa eterna madrinha do samba!
Daniel Costa é historiador, compositor e integrante do G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga.
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