11 de junho de 2026

A entrevista de Haddad à CNN, por Luís Nassif

No frigir dos ovos, foi uma boa aula de Haddad para três entrevistadores perspicazes, embora dois deles muito viciados na lógica de mercado.
Reprodução vídeo

Assisti parte da entrevista de Fernando Haddad à CNN. Não vi por inteiro devido ao atraso da entrevista e o início do meu programa às 20:00.

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Algumas observações sobre o que ouvi:

Foi dito que, graças à independência do Banco Central, a transição de governo foi tranquila no mercado, ao contrário de outras transições.

A transição de Fernando Henrique Cardoso para Lula foi acompanhada de um terremoto no mercado, e não propriamente pela falta de independência do BC. Com FHC, o BC era dono do pedaço.

O que ocorreu naquele período foram dois erros crassos do BC: a combinação da “marcação a mercado” com a tentativa de colocar um pacote combinando papéis cambiais e títulos pré-fixados.

Com o mercado ansioso por hedge cambial, o BC supunha que desovaria os papéis pré-fixados. O que aconteceu foi o contrário. O mercado comprava o pacote, ficava com os cambiais e vendia os pré-fixados. Como consequência, caiu o preço dos pré-fixados.

Acontece que a marcação a mercado obrigava o gestor de fundo a definir diariamente o valor dos papéis. O pré-fixado tem um valor de resgate definido. Assim, quando aumentam as taxas de juros do mercado, cai o valor do papel, para aumentar a diferença em relação ao vencimento. Caindo, pela primeira vez os clientes de fundos de investimento em renda fixa viram seu patrimônio dissolver. Foi um pânico geral. E não foi por falta de independência do BC.

Outro ponto interessante foi a insistência de Raquel Landim e William Waack em repetir os dogmas de mercado, de que primeiro o governo precisa mostrar consistência fiscal para depois o BC baixar os juros.

Haddad citou Oliver Blanchard, o ortodoxo que descobriu a realidade.

Qualquer observador empírico saberia que:

  1. Taxa de juros elevadas derrubam a atividade econômica.
  2. Derrubando, reduzem a receita fiscal.
  3. Reduzindo, impedem o ajuste dos gastos primários, além de aumentar a dívida pública.
  4. Logo, política monetária e fiscal têm que caminhar de mãos dadas.

É inacreditável que um silogismo tão óbvio tenha levado décadas para penetrar na cabeça do mainstream e mudar as avaliações sobre as expectativas na economia.

Obviamente, por não ser da área, Waack não soube responder ao desafio de Haddad: como aguardar o equilíbrio fiscal para baixar os juros se, sem baixar os juros é impossível o equilíbrio fiscal?

O terceiro ponto foi a enorme bobagem com a suposta hipersensibilidade do mercado. Segundo Waack, o risco Brasil é mais alto porque o presidente da República critica o presidente do BC.

Sem criticar diretamente Campos Neto, Haddad mostrou o ambiente de polarização política e a exigência de que um BC independente tenha diretores com total isenção política. E Campos Neto foi votar com a camisa verde-amarela, própria dos eleitores bolsonaristas.

No frigir dos ovos, foi uma boa aula de Haddad para três entrevistadores perspicazes, embora dois deles muito viciados na lógica de mercado.

Pelo menos no período que assisti, não respondeu à questão essencial. Mesmo que Campos Neto seja convencido das metas fiscais do governo, o processo de redução da Selic será extremamente lento. Os mais otimistas estimam uma queda de 0,5 a cada 45 dias.

Não terá o menor efeito sobre a atividade econômica, nem para desviar a nau Brasil do iceberg da crise que vem pela frente.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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13 Comentários
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  1. Antônio Batista Neto

    11 de março de 2023 11:23 am

    Assisti a entrevista, o ministro é bem preparado e os jornalistas perguntaram o que o mercado mandou, o resto é ” armazém de secos e molhados” sem surpresas. Abraço.

  2. Eduardo Pereira

    11 de março de 2023 11:43 am

    Não vi a entrevista mas a julgar pelo que o Nassif diz e o que penso isso de Bacen independente e pura cascata. Independente de quem? Dos banqueiros certamente não é. Muito ,menos dos “aplicadores”,É independente da politica do governo Lula pois na epoca do Bozo ja que não tinhamos nem Ministro da fazenda nem politica economica o que o bacen fizesse tava bem feito. Hoje e sair de casa e ver o tamanho do buraco em que estamos metidos nos que vivemos apenas de salario.

  3. Paulo Dantas

    11 de março de 2023 3:49 pm

    O ministro é muito educado e colocou um ponto muito importante com a autonomia o BC vira orgão de Estado logo seu predidente deve se abster de participação política ônus da coisa.
    Lembrou que paradigmas de economia estãp sendo revistos e a mídia brasileira está nos anos 1980.
    Fora isto perguntas de 3 minutos que o cara precisa responder em 30 segundos sendo interrompido antes da primeira vírgula, afinal o importante éo entrevistador …

  4. Célio Ferreira Facó

    11 de março de 2023 4:02 pm

    O espectador já não se espanta com o despreparo dos jornalistas.Sobretudo na TV, Jornalistas parece de quase nada sabem, abrem boca de um palmo só para dizer amenidades em português de feira livre.

  5. Rafael

    11 de março de 2023 6:06 pm

    Dois tipos de jornalistas que não assisto. Os arrogantes e os bajuladores.
    Nesse caso, os dessa empresa se enquadram no primeiro caso.
    Logicamente porque o entrevistado era de um “governo petista”, porque se fosse um representante da Banca, eles se transformariam em bajuladores.

  6. Mário Mendonça

    12 de março de 2023 7:54 am

    Eduardo Pereira, engano seu, quem governava para a banca era o Paulo Guedes que todos omitem!

    Aliás, porque ninguém fala dos estragos do PG?

  7. josé Oliveira de Araújo

    12 de março de 2023 8:57 am

    REPETIREI O EXEMPLO DA ESCOLA LAICA, CITADO POR MIM EM OUTROS COMENTÁRIOS FEITOS AQUI NO GGN.
    “UMA ESCOLA É DE JURE LAICA, MAS TODA A DIRETORIA É COMPOSTA POR PADRES CATÓLICOS, OS LIVROS DIDÁTICOS SÃO DE AUTORIA E EDITADOS PELA IGREJA CATÓLICA E O CORPO DOCENTE É FORMADO POR PADRES CATÓLICOS QUE ACREDITAM PIAMENTE QUE O ENSINO DA RELIGIÃO CATÓLICA DEVE SER OBRIGATÓRIO. EM SÃ CONSCIÊNCIA ALGUEM PODE AFIRMAR SER ELA UMA ESCOLA LAICA? VEJAMOS ENTÃO O CASO DO BANCO CENTRAL DO BRASIL: o PRESIDENTE E OS MEMBROS DO COPOM SÃO ORIUNDOS DO MERCADO FINANCEIRO, AS PESQUISAS QUE EMBASAM AS DECISÕES SÃO FORNECIDAS PELO MERCADO FINANCEIRO E OS DIRETORES ACREDITAM PIAMENTE QUE SOMENTE AUMENTANDO AS TAXAS DE JUROS SE REDUZ A INFLAÇÃO, E A PERGUNTA É: O BCB É UMA INSTITUIÇÃO AUTÔNOMA? DE JURE SIM, MAS DE FATO NÃO! NO CASO DA ESCOLA LAICA PODE-SE APELAR PARA O MILAGRE, MAS NO MERCADO FINANCEIRO NÃO TEM MILAGRES, TEM INTERESSES. QUANTO AOS ENTREVISTADORES, PELO MENOS DOIS, SÃO PMFI (PREPOSTOS DO MERCADO FANTASIADOS DE ISENTOS)

  8. Andre

    12 de março de 2023 1:20 pm

    A explicação do que fez o BC nos tempos de FHC é muito técnica e 99% não entendem nada de como isso funcionou, poderia traduzir isso pro “português”.

    Além disso, houve o terrorismo político, produzido pela campanha do PSDB, como a famosa frase do “tenho medo” da Regina Duarte. Só isso mostra o papel absurdo do próprio governo em desestabilizar a economia!

    Desestabilização e instabilidade são um prato cheio para o especuladores, que ganham na alta e na baixa. Só vermos o boato sobre a Americanas e os movimentos altíssimos na Bovespa com essas ações.

    Talvez fosse o caso da CVM cancelar todas as compras e vendas de Americanas nesse período de boatos de 10 bilhões que ninguém sabe de onde saiu…

    Abraços

  9. Eduardo Pereira

    12 de março de 2023 3:51 pm

    Amigo Mario Mendonça releia o que escrevi. O Paulo Guedes e um cacho de banana davam no mesmo. Não tinhamos ministro da fazenda nem politica economica. O plano era de engordar os rentistas e os aplicadores. O bacen cumpre o papel de rentabilizar o que e posto em alicações e valorizar os dividendos de quem tem ação. Pro povo nada. Pro aplicador tudo

  10. Naldo

    12 de março de 2023 4:00 pm

    Pois é “seo” Nassif, ou o ministro competente, por que compete, compete….muda de estilo, ou vai desgraçar o terceiro governo de Lula…. aliás,será que é de interesse de boa parte daqueles ministros sinistros que o governo de certo? Será que a certa ministra interesse planejar direito??? O Lula vai ficar apanhando nas cordas do Zé ruela com cara de tonto criado pela avó???

  11. Marconi Cavalcante

    12 de março de 2023 9:01 pm

    A arapuca recessiva dos juros abusivos,armada pelo Copom da turma da bufunfa, a meu ver,só pode ser contornada com a ampliação de investimentos produtivos. É preciso atrair investidores, internos e externos, para as ferrovias, a energia solar para todos os consumidores a agricultura sintrópica abastecedora e exportadora, dentre outras possibilidades. Se não conseguirem, recessão demolidora de votos e apoios à vista.
    Um dia o Copom será representativo de todos os agentes econômicos e aí sim, teremos um Bacen independente.

  12. Anônimo

    13 de março de 2023 8:22 am

    Era muito melhor trazer a Petrobrás que já traria boa parte das receitas desejadas.

  13. AMBAR

    16 de março de 2023 2:35 pm

    Haddad é uma moça, dir-se-ia quando se atribui a uma pessoa a qualidade de finíssima educação. Por deixar a exibição de programa seguinte no youtube enquanto cuidava de outros afazeres, ouví por acaso a entrevista com o Haddad. Ouví com atenção, em primeiro lugar, porque era com o Haddad que se falava, ouvi com surpresa pelo tom empregado pelas entrevistadoras, e com raiva quando a criatura de voz estridente e sardônica disse ousadamente que o ministro era um animal político, e como tal deveria responder. Aí larguei tudo o que estava fazendo e fui ver a cara da infeliz. Ela, tanto quanto as e os outros perguntaram tudo sorrindo, de modo que o Haddad, sorrindo, absorveu e respondeu com a sua costumeira polidez. O que se toma dessas entrevistas, na realidade, não é o seu conteúdo. Eles estão se lixando com o que o ministro pensa ou diz, o que interessa é a exibição, o programa, o espetáculo.

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