4 de junho de 2026

A verdade não se pode servir à francesa, por Luiz Alberto Melchert

Evento do BNDES trouxe discussões importantes, mas é preciso parar um pouco e falar sobre aquilo que não foi dito ainda.
Rio de Janeiro - Edifício sede do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, no Centro do Rio. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

A verdade não se pode servir à francesa

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Para quem não está habituado com essa prática surgida em tempos de escassez de alimentos no velho continente, trata-se de um ritual em que se servem muitos pratos, porém, de migalha em migalha a que, para ficar mais chique, deu-se o nome de porções. Na verdade, era um jeito de disfarçar a diferença social no tocante ao acesso aos alimentos. A diferença entre os cardápios dos ricos e dos pobres franceses era o número de pratos e não a abastança de um prato só, ou de poucos pratos, destinados a encher o estômago de quem tinha trabalhado com tendões e músculos o dia todo.

Os jornais servem verdades aos pedacinhos e nos põe no prato sem que possamos repetir, ou mesmo obter quantidade suficiente que torne o sabor trivial, conhecido, estudado, sabido. A diferença entre os ricos e os pobres está justamente no acesso a essas migalhas de informação servidas à francesa. Tudo muito chique, tudo muito burro, como diria Ariano Suassuna. Aliás, como diria Danuza leão, que Deus a tenha no lugar merecido. Sim, porque até aquele fragmento de conhecimento que tinha de New York, ela pretendia negar ao porteiro de seu prédio.

É justamente por isso que, como não sou jornalistas e não pretendo servir migalhas de verdade, não pretendo fazer uma resenha do evento de que participei na sede do BNDES entre  20 e 21 de março. Esse evento, promovido pela Fiesp, pelo banco e pelo CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) está disponível no canal do banco no YouTube e deve ser consultado com profundidade por todos que realmente quiserem saber o que foi dito. Minha intenção é abordar o que não foi dito, pelo menos, se não me escapou, não me deixou satisfeito.

Falou-se muito da taxa pornográfica de juros a que o país está, injustificadamente, exposto. Falou-se mais ainda – e com propriedade que me é inatingível – da falta de base teórica e empírica de que os bancos centrais insistam que a taxa de juros seja a panaceia no que tange à política monetária. Mais ainda, demonstrou-se que dar condições para o desenvolvimento sustentável e perene, o correto manejo da Natureza é início, não fim. O fim é o ser humano, cujo ambiente deve ser preservado porque ele, bem como seu desfrute justamente compartilhado, hão de ser a razão da existência de nossa sociedade.

Não se disse, porém, que mais que uma questão ideológica, a destruição a que fomos sujeitos nos últimos oito anos deveu-se a uma rapinagem planejada e cuja base é de uma simplicidade inquestionável: existe, funciona, dá lucro, não me pertence, eu quero para mim. A exemplo das serpentes venenosas, todo o processo se revestiu de uma roupagem colorida, exuberante, com laivos de filosofia. A exemplo das artes plásticas, usaram o chiaroscuro ideológico para apropriarem-se do que pertencia à sociedade brasileira. Pintaram o privado com cores exuberantes e o público com o escuro da negação. Poliram o privado para dar a impressão da eficiência. Lixaram o público para dar-lhe a ausência de brilho, da corrupção e do desperdício.

No evento, não se mencionou que a taxa elevada de juros tem o condão de manter o Estado sufocado e desejoso de saldar seus débitos às custas do alijamento de seus ativos a preços vis. Não se mostrou com a clareza e a ênfase  necessária que essa política é a reação ao garrote que a eleição de Lula impingiu a um projeto de dilapidação do patrimônio público que estivera em custo desde 2015 com as pautas-bomba.

Para quem estava no poder, estado mínimo, estado máximo era totalmente indiferente. O que interessava era um estado pobre e sem poder que, em velocidade crescentes, entregasse, de mão beijada tudo o que se construiu nos últimos setenta anos. Máximas como “eu sou a favor da meritocracia”, ou “eu sou conservador nos costumes e liberal na economia” visam somente tornar indolor a mutilação a que o brasileiro se submeteu.

Mas era um evento técnico, não um palanque e a abordagem foi perfeita à luz do compromisso assumido pelos organizadores, aliás, de várias matizes políticas. Assim, aqui vão meus parabéns ao Aloízio Mercadante, ao Josué Gomes e ao José Pio Borges, ao André Lara Resende e à Lavínia Castro de Barros, bem como a todos os da equipe de organização pela maravilhosa experiência, que só a presença pode dar.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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