Wilson Gomes, Crítico do Novo Consumidor de Jornais
por Jorge Alberto Benitz
Wilson Gomes escreveu um artigo “Há um novo consumidor de jornais, e ele é complicado”, publicado (28/06/23) na FSP, “baixando a ripa” no que ele chama de novo consumidor. No entender dele, o novo consumidor – criado pela internet, julgo eu – é um “ejaculador precoce” que mal digere uma notícia, reportagem, texto científico, sai opinando sem diferenciar a fonte. Como ele diz “ Diferenças de deontologia e objetivos entre editorial, reportagem, coluna de opinião, “textão” de outro usuário ou artigo científico não lhe dizem muita coisa. É tudo “conteúdo”, consome-se com o mesmo espírito, reage-se do mesmo jeito.” Como sou paranoico e meio ou muito burro não sabia que tinha um jeito especial para ler estes diferentes materiais, comecei a pensar que era a mim que ele falava. Pior, estou emitindo minha opinião rapidinho, bem do jeito que ele denuncia.
Na sequência se queixa de que hoje o autor não consegue se safar dos seus leitores, sugerindo que isto é ruim. Como o leitor é um despreparado que mal lê já sai opinando, o coitado do autor tem que conviver com esta situação querendo ou não. Pura chateação. Melhor seria não ter leitores ou leitores silentes. Se não é para fazer uma leitura como manda o figurino da alta cultura que se cale, ou, que se resigne a atuar como claque apenas, que seria o ideal, suponho. A mim soou como se ele assumisse o papel de uma banca acadêmica que decide o que deve ou não ser considerado uma tese digna deste nome, isto é, o que deve ou não ser con siderado uma opinião respeitável.
Cioso na defesa da obra de autor, ele segue desfiando todos os erros cometidos por este novo tipo de consumidor de notícias, inclusive, aproveita o conceito “Prosumidor” de Alvin Tofler, para rotular este novo tipo que é um misto de produtor e consumidor. Ressalvo que a ligeireza no emitir opinião, muitas vezes incorrendo em erros graves, característica de parte significativa de usuários das redes sociais, é algo criticável e neste ponto, concordo com ele. Pensei, também, na hipótese de ele estar criticando aqueles que ontem só davam pitaco em futebol e novela de TV e, de repente, viraram opinadores em política, sem um mínimo de noção política e cultural, mas perce bi que o alvo dele não era este tipo de consumidor de notícias que tende para a direita. Sabe- se também que este tipo nem é grande leitor de jornais. O alvo deles, parece-me, é o militante, progressista e de esquerda que ao assumir o papel de combatente se excede no maniqueísmo ideológico ou partidário.
Enfim, chega ao ponto que julgo principal ao desancar o moralismo maniqueísta deste tipo de novo consumidor que tem o desplante de levantar uma bandeira moral e se julgar, como diz, “ um guerreiro de alguma causa moral. Assim, é hipersensível aos temas sobre os quais milita e é intolerante a fatos e ideias que lhe pareçam contrariar suas convicções. Até mesmo hesitações e paradoxos, ou o reconhecimento de que há desacordos morais legítimos, causam-lhe mal-estar. Para o novo leitor militante, todo texto deve ser visto como um movimento de tropas em uma zona de guerra moral e política. E assim deve ser tratado.” Bem, acho que neste ponto a coisa começa a desandar, melhor, tomar outro rumo. Aqui ele está se referindo a outro tipo de consumidor, que necessariamente não se enquadra como novo consumidor, que é o militante identitário, que usa e abusa de maniqueísmos contra quem considera mais inimigo do que adversário. Aliás, um dos principais alvos de suas críticas aos quais, geralmente, concordo.
Na parte final do seu artigo, ele volta, sutilmente, suas baterias contra quem questiona suas teses, desqualificando-os ao remete-los ao papel de censuradores, de modo genérico, isto é, sem discernir quem faz críticas procedentes ao papel nefasto das Big Tech para o atual estado de barbárie. E assim, exerce, consciente ou inconscientemente, o papel de defensor da mesma tese das plataformas Big Tech que acusam seus críticos de inimigos da liberdade de expressão. Chego a esta conclusão ao perceber que em nenhum momento, ele faz crítica a estas últimas. Só aos seus usuários.
Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.
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AMBAR
30 de junho de 2023 10:28 pmNão tive a “felicidade” de ler o citado Wilson Gomes”, porém, é de se saber que a exigência de qualidade e definição da escrita é, principalmente, de quem escreve.
Exigir que o leitor distinga ou eleja para ler um editorial a uma coluna, ou uma reportagem a um artigo ou mesmo a um textão resposta é o sonho molhado dele. Se não quer leitores “indignos” de sua qualidade de escrita, que deixe de escrever. Se ele atribui a si mesmo uma qualidade tão alta a ponto de escolher quem terá a honra de lê-lo, que escreva somente para eles ou melhor, somente para si mesmo. Na circunstância de eventual solidão, poderá se dar bem com as IAs, as únicas que estariam à altura dos seus talentos.