Por Rogério Maestri

Não são só os grandes jornais que estão com prisão de ventre mental, parece que o corpo técnico dos órgãos vinculados ao governo do estado de São Paulo também.
Saiu há algum tempo no Estadão um “press release” em que um técnico do governo do estado fazia uma declaração sobre a seca no estado dando duas informações bombásticas. A primeira delas é que a seca teria um período de retorno de 3.378 anos! Ou seja, a probabilidade de ela se repetir no ano seguinte era de 0,033%.
Isto é um produto da mais bela estatística hidrológica! Só com um problema, uma estatística que se utilizava muito no século passado (século XX), uma hidrologia baseada em séries temporais estocásticas (não são escolásticas! são séries em que a sequências de eventos que não são determinísticos, ou seja, são aleatórios). porém com o advento das preocupações sobre o aquecimento global, muito de climatologia se estudou nestas três últimas décadas e muito se apreendeu. Séries históricas meramente estocásticas são contestadas atualmente e invalida-se desta forma projeções de longo prazo como o tal período de retorno de 3.378 anos.
No passado se considerava que de um ano para outro não havia qualquer ligação entre as condições meteorológicas. Desta forma definia-se o que ocorreria como as chuvas, como o calor ou como outras variáveis, como eventos que não dependiam do comportamento do ano anterior ou dos anos anteriores. Isto era algo que se firmou desde o ano de 1950 até mais ou menos 2000.
Atualmente com o estudo mais aprofundado do clima (clima é uma definição das condições meteorológicas MÉDIAS que ocorrem num período mínimo de 30 anos, não se vai chover amanhã! Isto é uma definição da Organização Meteorológica Mundial OMM), causado inclusive pela discussão entre o que ocorre com o aumento do CO2 na atmosfera. Com toda este movimento e a implantação de satélites de medidas, observou-se as grandes oscilações de temperatura dos oceanos. Eles possuíem oscilações de grande ciclo, algo como um El Niño de longa duração (Oscilação Decadal do Pacífico PDO, a Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO), ou seus filhotes (ou pais?, ainda nã se sabe direito quem naceu primeiro, o ovo ou a galinha) como o El Niño, O Dipolo do Atlantico, o Diplolo do Pacífico e outras, foram descobertas e suas consequências estão sendo objeto de estudo pelos climatologistas (do que não faço parte).
O clima da região de São Paulo, de acordo com estudos mais recentes, não é determinado somente pelo efeito do El Niño, mas sim influenciado pelo Dipolo do Atlântico em associação ao Dipolo do Pacífico. Estes dois fenômenos que não oscilam na mesma fase (um é mais longo do que o outro) permitem a composição de diversos tipos de climas, que necessariamente podem ter fortes variações episódicas para a mesma composição, a ação a curto prazo é dada pela ZCAS (mas isto já é outra história, quem quiser saber mais assista aqui).
Sabendo que o ciclo do Dipolo do Atlântico tem um período semelhante a AMO, medida no hemisfério norte, em torno de 70 anos, e da Oscilação Decadal do Pacífico em torno de 20 a 30 anos, a situação dessas duas em fases frias ou quentes tem várias composições e cada uma dessa associada a um tipo de clima médio.
Este clima médio pode ser chuvoso ou seco para dadas regiões, e vai se repetir na mesma situação em períodos que excedem a algumas dezenas de anos.
Como a existência dessas fases só foram identificadas há poucos anos, há uma correria para tentar simular o que ocorre com dada composição de frio com frio, frio com quente, ….. . Infelizmente os modelos climáticos regionais para chuva ainda não estão muito bem elaborados, mas talvez daqui poucos anos tenhamos boas respostas destes (vide os próprios trabalhos do CPTEC-INPE).
As condições climáticas associadas a estas e outra variáveis das temperaturas dos mares, ainda não são bem compreendidas, por outro lado acima dessas características mais amplas temos influências locais, fazendo com que a previsão em longo prazo só possa dizer: Se acontecer isto ou aquilo com a temperatura dos mares, talvez tenhamos uma situação MÉDIA da seguinte forma. Logo ainda as respostas não são absolutas.
Toda esta conversa pode ser resumida em relação ao início do texto. Se nunca (nunca quer dizer para os brasileiros dentro de um período de 60 a 80 anos) tivemos uma situação como esta mas ela começa a se repetir ano a ano (falhando alguns ou de tendência contrária em outros) provavelmente estamos entrando em uma nova situação de clima.
Por isto, a velha hidrologia que a partir de uma série histórica de 60 a 80 anos definia estatisticamente qual a probabilidade de ocorrer algum evento extremo em 100 ou 1000 anos está completamente desatualizada, pois o clima sempre está em mudança e sempre vai mudar, e ruim, pode mudar para pior.
vera lucia venturini
9 de agosto de 2014 7:18 pmEntão…
Quais as principais
Então…
Quais as principais culturas do estado de São Paulo? Cana de açúcar, laranja e eucalipto. Todas culturas que fazem uso intensivo da água.
Mas quem vai mexer com usineiro, Setúbal, Cutrale e Ermírio de Moraes? A imprensa e os políticos jamais.
Fora isso temos o descaso com os rios paulistas. Viva o Tietê e o Pinheiros!! E as fábricas de bebidas usando o Aquífero Guarani sem qualquer fiscalização. E as fiscalizações de araque em indústrias químicas, de celulose. E por aí vai
Sem muito esforço teremos logo, logo um estado com clima de deserto, com todos os seus rios poluidos. E este é o estado “mais desenvolvido” do país.
Rogerio Maestri
10 de agosto de 2014 6:10 amE tem mais outra, a cana de
E tem mais outra, a cana de açucar é para produzir alcool, para dar segurança a industria automobilística!
Ricati
9 de agosto de 2014 7:59 pmSerá que não existe nenhum
Será que não existe nenhum estudo do clima metereológico considerando os efeitos das explosões solares sobre a nossa atmosfera? Sabemos que a Terra é uma biodiversidade bem complexa, mas também faz parte do sistema solar sofrendo os efeitos do sol , da lua e de vários outros astros. Ninguém se interessou em medir estes efeitos?
Rogerio Maestri
10 de agosto de 2014 6:07 amHá muitas publicações sobre manchas solares.
Não sobre explosões solares, mas sim sobre manchas solares, estes sim existem vários e nos últimos dois anos cada vez mais.
Há inclusive um trabalho feito por uma equipe de argentinos intitulado “Long-term solar activity influences on South American rivers.” de Pablo J.D. Mauas, Andrea P. Buccino e Eduardo Flamenco in Journal of Atmospheric and Solar-Terrestrial Physics on Space Climate
Onde eles correlacionam os ciclos solares com as vazões do Rio Paraná, a correlação é espantosa.
Se quiseres mais informações é só ler num blog que tenho (não ando publicando) e o endereço é:
http://www.engenheiromaestri.com/2011/04/um-dado-bem-regional.html
janes salete
9 de agosto de 2014 8:36 pmSenhores: parece que em sp,
Senhores: parece que em sp, nada funciona, a não ser as “teorias” midiáticas medonhas desse estado, sobre o estado, sobre o psdb. . Não existe programa de governo do psdb. O único programa desse partido, parece que é pagar para posar bem na mídia e, ela, vender o peixe(estragado, mas com aparência de saudável) dos políticos desse partido. Esse “boa venda”, é o único programa que psdb-mídia tem ofertado a seus cidadãos e eleitores. Não existe nada além disso.
AlvaroTadeu
9 de agosto de 2014 8:57 pmMuita besteira para pouco cérebro.
Eu vi essa manchete num desses estadões que ficam nas bancas antes do destino final: embrulhar peixe e bananas.
Quem escreveu que a última seca igual à atual foi há 3.378 fanos, não foi um técnico, foi apenas um idiota. Um meteorologista, um geólogo ou engenheiro não diria uma besteira tão óbvia. Por quê? Das três profissões, apenas geólogos especialistas em paleoclima poderia fazer tal afirmação. Estudando as camadas sedimentares, pode-se concluir qual o clima reinante na época da deposição dessas camadas. Acontece que a idade das camadas, a idade absoluta, é medida por geocronologia. Medindo-se a radioatividade de certos elementos, podemos calcular sua idade absoluta. Para um período tão curto (geologicamente falando) como 3.378 anos, apenas medidas de carbono 14 seriam usadas. Não há medidas de carbono 14 tão precisas a ponto de se determinar “3.378 anos”. Como sabem todos os físicos, todas as medidas têm um erro. 3.378 anos têm uma precisão maior que 1/10.000, muito maior do que a precisão de qualquer medida com carbono 14 conhecida. Portanto, jornal, jornalista e suposto técnico, todos formados pelo antigo MOBRAL. Um pacote de alfafa para cada um. Obrigado.
Rogerio Maestri
10 de agosto de 2014 5:45 amÉ pior do que estas pensando.
Eu li esta entrevista de um Engenheiro vinculado ao governo do estado, provavelmente um cargo de confiança. Mas os 3.875 anos não foi resultado de paleoclimatologia, foi simplesmente obtido através de um tratamento estatístico de um período de talvez 100 anos (ou menos). Ele utilizou os métodos comuns de hidrologia, ajusta os dados para um período e projeta para o futuro. O erro é ainda pior do que estás pensando.
Porém só para informação, há métodos muito precisos sobre chuvas que se pode utilizar, leia um dos seguintes artigos:
Climate patterns in north central China during the last 1800 yr and their possible driving force. Tan, L et al 2011 in Climate of the past Tan M et al. Cyclic rapid warming on centennial-scale revealed by a 2650-year stalagmite record of warm season temperature. Geophys Res Lett, 2003, 30 Os Chineses estão utilizando os depósitos de estalagmites e contando a espessura que agrega a cada ano o depósito calcáreo que é proporcional as chuvas do ano, a resolução é de um ano. Porém no Brasil, pelo que eu saiba ninguém ainda fez este trabalho (algo muito interessante para um estudante de geologia).
drigoeira
9 de agosto de 2014 9:16 pmA culpa é do Governo do PT…
Que com este aumento da construção das casas populares, as pessoas agora possuem capacidade de consumir mais água e esgotou a água de SP.
Problemas de prevenção não vem ao caso, nem dos canos furados das tubulações de água Brasil afora, nem o esgoto não tratado das cidades, nem a administração de 60 a 80% da capacidade de água dos reservatórios para evitar possível colapso das represas. Tudo isto está descartado.
A culpa mesmo é da falta de rezar para São Pedro. Até neste quesito porque as igrejas estão vazias.
Silvio Torres
9 de agosto de 2014 10:09 pmVerá Lúcia, estão exportando
Verá Lúcia, estão exportando tudo isso para Minas, que já foi chamada de caixa d’água do Brasil..
Pois é
10 de agosto de 2014 10:42 pmO irritante é tudo é
O irritante é tudo é passividade da Dilma. Já era pra ter renovado todos os contratos de caminhão pipa que opereram na estiagem do nordeste para trazerem ágia para SP e ela ganhar os 5% de votos que fatam
Meteorologista Odair Alonso
11 de agosto de 2014 12:20 amUma explicação chata…
Darei um exemplo concreto da tragédia que resulta da jequice canalha de imolar competência ao deus mercado, tem a ver com as “mudanças climáticas” dos direitos em privilégios de quem vai ter água devido a financeirização da existência-VIVA MARX- Cursei o bacharelado em Meteorologia na década de 80 na USP, mas “(des)graças” ao neoliberalismo testemunhei, na década de 90, equipes que discutiam sobre mudanças climáticas e temas conexos serem desfeitas por falta de financiamento à pesquisa; na década neoliberal não houve investimento adequado na USP, Cnpq, FAPESP, INMET, INPE e outros; o supercomputador Cray, comprado/arrancado a fórceps dos norte americanos (que possuíam setores que tentaram tratar-nos quase como a um Irã) pelo patriota e querido Itamar Franco, era operado e seus produtos estudados por heróis anônimos apoiados por suas veneráveis famílias na USP ou no INPE, pois contratos de trabalho permanentes eram “demodé” naqueles tempos bicudos e coloridos. O resultado dessa herança maldita foi não haver uma equipe de meteorologistas no radar que poderia ter monitorado o Catarina- o furacão que não poderia existir- em 2004, pois o radar estava em “eterna” manutenção (graças aos Deuses, o PT vem mudando isso, apesar do freio de mão da base aliada), consequentemente a dúvida de tratar-se de um inédito furacão no Atlântico Sul só foi esclarecida pelos norte americanos, graças à capacidade de seus satélites enxergarem o vento nas camadas, coisa corriqueira para aquele radar doppler e que poderia ter esclarecido a dinâmica da transformação de um ciclone extratropical em tropical, ou seja, um furacão, garantindo nossa segurança futura, pois agregaria tais dados ao modelo que roda no INPE e daria mais condições às Defesas Civis fazerem seu trabalho. Coloquei essa questão para esclarecer o quanto a Climatologia mudou e fez meu bacharelado mudar, haja vista que acrescentou nova grade à graduação do curso de Meteorologia da USP e como é preciso investir para ser competente. Agora, um pouco de chorumela Emo: lamento não trabalhar na área e lamento que os profissionais de fato e de direito estejam tão silentes, estou lembrando de um bordão de minha grande professora, Doutora Assunção Faus que dizia: quando alguém fala sobre o que não conhece, fala besteira; alô, alô, mídia, por enquanto, só a encontrei na BBC, seus “Barrigudos”…
Maurilio Gadelha
11 de agosto de 2014 3:10 pmA SABESP NÃO É A PETROBRAS, TALVEZ A PETROBAX
Mercenarios descendentes dos bandidos Anhanguera e Fernão Dias, entregaram o lucro da SABESP para os ricos americanos e deixaram a periferia e os paulistanos na LAMA. A PETROBRAS contra os pareceres dos jornalistas da embaixada norte-americana, aplica o lucro liquido nos investimentos necessarios e distribui a sobra com os investidores, o que não ´pouco. Se fosse a PETROBRAX seria como a SABESP, tudo para os financistas e nadica de nada para os brasileiros. Dane-se os privatistas!
Carol Santana
11 de agosto de 2014 7:02 pmÉ hora de mudar São Paulo!
Gente, estamos presos a esses governos há mais de 20 anos.
Não é possível que a população não veja a necessidade de mudar, renovar essa mesmice avassaladora.
Tem que votar diferente. E eu declaro abertamente que minha alternativa fica com um governo que busca mudar a realidade de SP. Fecho com o Orlando Silva. E acho importante conhecermos outras alternativas. A página dele e as propostas para a juventude SP: https://www.facebook.com/orlandosilvasp?ref=ts&fref=ts