4 de junho de 2026

Ainda a tempestade perfeita, por Delfim Netto

Do Valor

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Por Antonio Delfim Netto
 
Nada me incomoda mais do que ser chamado de “pessimista”. Alguém com 86 anos de idade precisa ser um idiota para sê-lo. Diante das bárbaras interpretações que têm sido feitas de um artigo publicado nesta mesma coluna, em 29/10/2013, com o título “A tempestade perfeita”, peço licença ao Valor e aos leitores para transcrevê-lo:
 
“Numa preliminar do que vai acontecer com o Orçamento ‘impositivo’, maioria robusta na Câmara dos Deputados aprovou, sem reflexão aprofundada sobre o interesse nacional, uma proposta mais do que problemática. Ela reduz a eficiência do ‘cinto de castidade’ que previne a permanente tentativa de ‘violação fiscal’, por parte de conhecidos ‘caçadores de renda’.
 
“É possível imaginar que, em nosso ‘presidencialismo de coalizão’, o poder incumbente federal – sem suporte num dispositivo legal que o constranja – poderá enfrentar a fome insaciável e o extraordinário poder dos entes federados por mais endividamento, revelados na trágica decisão da Câmara dos Deputados?

“Será que já esquecemos que só depois da consagração da Lei de Responsabilidade Fiscal e da demonstração aos entes federados de que ela ‘tinha pegado’ é que se impôs alguma ordem à política fiscal da União, Estados e municípios? Governadores e prefeitos têm estímulos para gastar e endividar-se, porque isso representa a possibilidade de ascensão política. Não têm nenhuma responsabilidade sobre os desequilíbrios fiscal e inflacionário.
 
“Infelizmente, o Poder Legislativo, sem visível oposição do Executivo, tenta saber se há gasolina no tanque iluminando-o com um fósforo aceso. Violações da ordem fiscal vão se acumulando, sem consequências aparentes no curto prazo. Mas a história e a análise teórica ensinam que em algum momento, provavelmente em tempo superior ao mandato do poder incumbente, elas geram uma ‘emergência’ que explode num desequilíbrio fiscal, inflacionário e cambial simultâneo, que reduz a pó a economia nacional. Todo brasileiro com mais de 40 anos já assistiu em branco e preto tragédias como essa.
 
“Felizmente, por outro lado, o Poder Executivo está mudando a postura quanto ao equilíbrio fiscal: renegou os exercícios de alquimia; começa a engajar-se mais fortemente na reforma do ICMS; compreendeu que dívida pública não é recurso novo; reviu a política de campeões nacionais; começa a preocupar-se com o avanço da dívida pública; tenta controlar a expansão dos bancos federais e redirecionar o BNDES para o seu papel de ajudar a financiar projetos de infraestrutura; tenta atrair o sistema bancário privado para ‘projects financing’; está ouvindo mais atentamente potenciais competidores nas concessões de energia, rodovias, ferrovias etc.
 
“A última boa notícia foi que a presidente apontou, em Belo Horizonte, o nefasto esquecimento do excesso de regulação federal, estadual e municipal que torna o Brasil um dos países menos eficientes do mundo. Quem ainda tiver dúvidas, consulte o ‘Doing Business’ de 2013-14, do Banco Mundial.
 
“Talvez só isso não baste para corrigir o aparente mau humor dos investidores internos e externos, que não se confirma no seu comportamento prático. É só olhar o bom resultado da última emissão externa da dívida do Tesouro, que recomprou títulos com cupons muito mais altos e vencimentos em 2017 e 2030, com spread um pouco maior (180 pontos sobre os Treasuries americanos equivalentes), mas melhorou a ‘curva de juros’ do país. Ou mesmo o resultado do leilão de Libra, que talvez pudesse ter sido melhor com um ‘desenho’ diferente, o que, aliás, não tem a ver com o regime de partilha.
 
“Teremos um 2014 pouco brilhante, mas nada trágico. Há desconforto, certamente: alguns preços estão controlados e há uma desconfiança com relação ao nosso endividamento. Esse já é relativamente elevado para uma economia como a brasileira, e com a proposta aprovada poderá voltar a crescer. Devemos levar mais a sério as ameaças das agências de rating e a insistência de organismos internacionais sobre esse fato, ainda que a nossa dívida seja basicamente em nossa própria moeda, o que afasta o risco da insolvência.
 
“Se insistirmos em não dar atenção a esses sinais, podemos correr alguns riscos no primeiro semestre de 2014. Ele pode reservar-nos surpresa desagradável e nos punir com uma ‘tempestade perfeita’, gerada por uma conspiração de eventos simultâneos: 1) a redução do nosso rating; e 2) o início do fim dos estímulos monetários nos EUA.
 
“Se isso ocorrer, teremos uma rápida elevação da taxa de juros no mundo, uma mudança dos fluxos de capitais, um ajuste instantâneo e profundo da nossa taxa de câmbio, uma redução do crédito bancário, uma queda dramática da renda real dos trabalhadores e a volta – em legítima defesa – de taxas de juros reais aos absurdos níveis com que vivemos durante tantos anos, acompanhados por um aumento do desemprego. Isso sim – e não a fantasia política — poderá comprometer a confortável posição atual da presidente Dilma Rousseff no processo eleitoral”.
 
Os riscos diminuíram porque o governo, assustado, “jurou” que ia fazer um superávit primário de 1,9% do PIB sem alquimia e o Fed adiou seu desconforto com a taxa de juros, mas ele persiste e cresce. Se isso for “pessimismo”, meu saudoso avô foi um bonde elétrico!

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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6 Comentários
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  1. Fulvia

    5 de agosto de 2014 3:06 pm

    Gostaria de ver o Delfim em

    Gostaria de ver o Delfim em debates sobre economia na televisão, infelizmente não o convidam.  Muito bom, ver um homem com quase noventa anos esbanjando lucidez e coerência, e não o contrário, abrindo a boca para destilar fel e amarguras com vistas a atingir adversários. 

    1. BRAGA-BH

      5 de agosto de 2014 6:11 pm

      Fulvia, ele participou de um

      Fulvia, ele participou de um debate na Rede Bandeirantes neste último domingo. Salvo engano o Roda Viva. Tentei achar o vídeo no you tube e até o momento não consegui nada. Amigos que assistiram disseram´me que ele deu um verdadeiro show saindo de todas as armadilhas feitas nas perguntas do Casoy.

      1. EUCLIDES OLIVEIRA JUNIOR

        5 de agosto de 2014 6:22 pm

        Eu assisti. Delfim deu uma

        Eu assisti. Delfim deu uma aula de economia e otimismo para o reaça Boris Casoy, um péssimista de plantão a serviço do PSDB. Até agora não vi esse sujeito amoral – quem o conhece bem é o Kajuru – condenar os aeropÓrtos do aéssim do pó.

         

         

         

        http://noticias.band.com.br/canallivre/entrevista.asp?id=15144985&t=canal-livre-discute-rumo-da-economia-brasileira—parte-1

      2. Conde de Rochester

        5 de agosto de 2014 7:06 pm

        (Sem título)

        [video:http://www.youtube.com/watch?v=VjWV-rOHTZA%5D

  2. Lucinei

    5 de agosto de 2014 4:22 pm

    Realmente Delfim é um

    Realmente Delfim é um otimista. Um otimista quase desesperado, digo eu. Ficar bradando uma espécie de “veta, Dilma!” e clamando para a opsição e imprensa terem uma atitude “responsável” e apoiarem, só sendo muito otimista.

    Não tem jeito: se a dilma for reeleita essa vai ser uma das pautas prioritárias da oposição; doida pro “circo pegar fogo”.

  3. Ivan Arruda

    5 de agosto de 2014 7:54 pm

    Só pode ser ironia do

    Só pode ser ironia do destino. Um dos mais execrados homens públicos, Delfim continua segurando as pontas. Sem alarmismo detecta as vulnerabilidades, reconhece as dificuldades, e com certo bom humor, compreendendo as dificuldades circunstanciais, não deprecia ou criminaliza governantes. Dono de uma memória e inteligência invejáveis, passa a impressão de que nunca deixou de influenciar nossa economia. Tomara esteja jogando a nosso favor.

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