4 de junho de 2026

A falta de figuras referenciais, devoradas pelo oportunismo político

Por Luiz Eduardo Brandão

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Comentário ao post “FHC e a arte de se apequenar antes e depois

“… um desses sábios referenciais dos quais toda Nação necessita, os mais velhos que trabalham para mostrar rumos, para conciliar, para ajudar na construção de consensos.”

Na mosca. A falta de figuras referencias é, talvez, a maior das nossas carências. Não fomos capazes de gerar um desses sábios, que sejam uma espécie de consciência da Nação, ou o que os franceses costuma(va)m chamar de “reserva da República”. O oportunismo política mais rasteiro devora os que poderiam vir a sê-lo.

Acho que ainda está nas telas o filme italiano “Viva a Liberdade”. É uma comédia política deliciosa. A certa altura de uma encrenca formidável em que a Itália se metia, um dos personagens que se encontra no olho do furacão, sem saber como resolvê-la, vai ter com um desses sábios: um velhote doente, à beira da morte. Que diz a verdade que seus correligionários, preocupados com as eleições, não conseguiem enxergar. Filme imperdível, além de diversão garantida.

Me fez lembrar, o filme, da célebre história de Sólon. Pisístrato, um oportunista que pretendia tomar o poder, pede à ágora o direito de montar uma espécie de exército pessoal, para alcançar seus fins (era um modo de se chegar ao poder, para quem não sabia). A Assembléia, acovardada, dispõe-se a conceder-lhe. O velho Sólon — octogenário, se bem me lembro –, ao ver ameaçada a liberdade de Atenas, comparece à ágora. Vem “armado” apenas de sua couraça e de seu escudo, deixando em casa a espada, para assim simbolizar que vem apenas, como dizemos nós, armado de cara e coragem. Com isso quer denunciar os fins de Pisístrato, ao querer se impor pela força das armas, e a covardia de seus concidadãos: “sou mais sábio do que os que não compreenderam os maus desígnios de Pisístrato, e mais corajoso do que os que os conhecem e se calam por terem medo”, diz. Os medrosos replicam que Sólon estava louco. E Sólon: “Se sou louco, sabereis dentro em breve, quando a verdade vier a luz.”

Ó, Sólon, que falta nos fazes!

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14 Comentários
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  1. joao

    4 de agosto de 2014 11:44 am

    eh o que restou
    30 anos de ditadura mata qquer pais que se propoe a ter pensadores, sao decadas onde a liberdade e o pensamento foi assassinados por grupos que nunca pensaram no intelectuo pois buscaram o autoritarismo e os intereses economico . Hoje esta pobre e rasteira dificulta nossas opinioes, ideias e pensamentos e onde so o sentido se faz nas manchetes e o exterior. O descartavel.

    1. Mogisenio

      4 de agosto de 2014 12:00 pm

      30 anos de ditadura não; mais

      30 anos de ditadura não; mais de 500 anos de muito autoritarismo profundo, enraizado, entranhado  brasil afora.

       

  2. Assis Ribeiro

    4 de agosto de 2014 11:51 am

    Me mostrem um referencial na

    Me mostrem um referencial na política mundial?

    Putin? Obama?

    Qual o nosso referencial musical nas últimas décadas?

    Caetano? Chico? Alguém novo?

    E na literatura?

    A cultura pós moderna com a fragmentação do todo, o individualismo exagerado, o pragmatismo emburrecedor, o imediatismo para as soluções de problemas, o mundo que magistralmente Bauman definiu de “liquido” não irá gerar figuras referenciais.

    1. Luiz Eduardo Brandão

      4 de agosto de 2014 10:40 pm

      Hoje e sempre

      Assis, a meu ver o problema é ainda pior do que o que v. desenha, ao se limitar às últimas décadas. Na nossa República nunca houve, em todo caso não consigo me lembrar de nenhuma figura dessas. Se houve, terá sido efêmera. Até o golpe de 64 incluso, os nós eram desatados por quarteladas, e aliás a própria República foi instaurada por uma. Recorria-se à espada, a democracia era uma ficção ou, para os otimistas (sou um) uma meta ansiada e ainda não alcançada plenamente. A estabilidade democrática, que requer um mínimo de fair play, de respeito entre líderes e partidos — resumindo: de espírito republicano –, ainda não se instalou desde a redemocratização, basta lembrar a baixaria da última eleição e a que já se desenha nesta, com jogadas mais rasteiras que as de um Pisístrato. Sem falar na falta de respeito com as próprias instituições. Num ambiente como esse não dá mesmo para gerar nem mesmo o arremedo de um Sólon.

      Quanto à velha Europa, nem que seja no imaginário europeu, elas ainda existem, como comprova o filme que cito. E ainda que idosas como aquele personagem, que não sei se remete a alguém na Itália, mas se fosse em Portugal eu saberia de quem se trata: Mário Soares.

  3. El Fuser.

    4 de agosto de 2014 11:52 am

    FHC, sua biografia e suas dívidas, ou Peggy Sue seu passado…

    Umas das condições para ser reserva política do país, de qualquer país: Ter caráter!

    Isto sabemos que FHC nunca teve, e o General Leônidas disse a alguém sobre confiar no “príncipe”, passagem (verídica ou não), mas que acabou se impondo pela coerência com as condições morais do personagem citado.

    Mas a questão ainda é embaixo, e não se trata apenas de “caráter”, até porque eu acredito firmemente que as pessoas podem (e devem )mudar.

    O problema de FHC foi a escolha política que ele fez para dar sustentação a seu governo, lá em 1994.

    Havia dois caminhos principais: Aproveitar a estabilização monetária de Itamar e aprofundar as medidas redistributivas e colocar o país no cenário internacional como aspirante ao protagonismo (para o bem e para o mal, é verdade) que hoje experimentamos (embora os idiotas não enxerguem), ou manter o país como casa de tolerância da banca internacional, quintal dos fluxos de expansão e retração do capital, enfim, território de livre acumulação que sustenta o way of life do mundo “civilizado”.

    FHC escolheu ser rabo de elefante a ser cabeça de mosquito.

    E teve certo “sucesso”, pois foi o único reeleito no 1º turno após a adoção deste instituto, façanha inédita até hoje.

    Mas o preço é alto e o diabo não parcela, logo, quando o mundo aquece os motores para um novo ciclo de expansão, e novos atores (como o Brasil) começam a querer disputar um lugar na mesa, FHC e sua trupe de trôpegos são chamados a intervir.

    Uma potência regional como o Brasil, do tipo “soft power”, associada a China & outros, esta China que domina sem mandar um único soldado para além de suas fronteiras, todos voltados a construção de uma alternativa mais “civilizada” de capitalismo, preocupados com o ritmo da fricção das querelas geopolíticas na busca por petróleo e etc, não é um cenário que agrade ao Império e seu séquito europeu.

    O modelo estadunidense-europeu é estruturado no binômio Estado-finança, Estado-militar.

    É este modelo que FHC tenta, desesperadamente, defender, porque só aí há alguma sobrevivência política para ele.

    E o tempo, sabemos, é implacável.

    1. Lionel Rupaud

      4 de agosto de 2014 12:32 pm

      Parabens pelo texto!

      mas não dava para usar um nick mais simpático?

      1. El Fuser.

        4 de agosto de 2014 1:10 pm

        Depende…

        Não consigo me desfazer da admiração pelo Furibúndo Serna (Fuser), após os Diários de Motocicleta…

        Poucos são capazes de anularem-se a si mesmos em nome do que acreditam…É uma homenagem de quem tem inveja de quem teve esta coragem…Não pretendia ser simpático…

        Que Viva Ernesto, Que Viva Che, Que Viva El Fuser…

    2. Flavio Martins e Nascimento

      4 de agosto de 2014 4:14 pm

      O diabo parcela sim – aliás,

      O diabo parcela sim – aliás, fez escola -, mas nem queira saber dos juros!

      1. El Fuser.

        4 de agosto de 2014 4:21 pm

        Sobre hipotecas e moratórias…

        Ele parcela o pagamento, mas executa a dívida de uma vez só, basta chegar a hora.

  4. Centelha, o retorno

    4 de agosto de 2014 12:09 pm

    Referencial acima das classes?

    Nenhum referencial paira acima da luta de classes.

    Tenho um irmão que venera o Mujica. Mandei para ele a transcrição de uma entrevista do presidente uruguaio. Ele me respondeu agradecendo, com as seguintes palavras: “Enquanto isso, temos no Brasil o Lula, esse… ” Poupo os leitores das besteiras seguintes.

    Não respondi nada. Simplesmente encaminhei para ele dúzias de outras entrevistas do Mujica nas quais ele exalta o Lula como o maior líder vivo da América Latina. Também encaminhei artigos tratando da imensa rejeição que sofre o Mujica por parte das elites uruguaias.

    Mandela era odiado pelas elites racistas da África do Sul. Etc.

    E olhem que são, ou eram, lideranças moderadas, conciliadoras!

    Perguntem aos americanos brancos racistas o que eles acham do Martin Luther King…

     

  5. Maria Rita

    4 de agosto de 2014 1:27 pm

    Olha só, isso me fez recordar

    Olha só, isso me fez recordar uma matéria publicada na revista Senhor (na sua grande fase da década de 1960) falando justamente na escassez de líderes carismáticos no cenário mundial. Mas ainda deu tempo de conhecer Nelson Mandela, de assistir a queda de Franco na Espanha, a queda de Salazar em Portugal, a eleição de uma papa como João XXII,  de ler Gabriel Garcia Marques, Saramago e tantos outros,  de participar da eleição de um metalúrgico para presidente do Brasil, a subida de ex-guerrilheiros ao poder no Chile, no Brasil e no Uruguai. O que é diferente hoje, afinal?. Não seria a mídia corporativa, que escolhe quem devemos conhecer, amar ou odiar, ou colocar no Olimpo? Barthes já escreveu sobre isso. O que e por que esquecemos, afinal?

  6. Alexandre Weber - Santos -SP

    4 de agosto de 2014 2:05 pm

    Bom senso arcáico X Macetes com Big Data e Ai

    O mundo não retrocederá Jamais!

    A computação inteligente em alta escala com os grandes bancos de dados estão ai para ficar.

    Falar em figuras referênciais e não citar as tecnologias de inteligência artificial e inteligência aumentada, com os grandes acervos dos bancos de dados é rídiculo. Os resultados serão sempre genéricos, insuficientes e de extrema probreza frente as complexidades.

    Mais importante ainda são que as estratégias, que não necessitam serem perfeitas, precisam, obrigatoriamente, serem melhores do que as dos adversários competidores.

    O que dá para mudar num governo vencedor no sentido de realizar mais pelo povo e pela nação é a estrutura de governança, que na medida em que aumente a confiança nela, maiores chances existirão para acordos e pactos entre facções antagonistas no campo político , com suspenção de ganhos imediatos ou oportunísticos em função de um bem maior e mais abrangente.

    Sem confiança no governo, a qual deriva da sua estrutura e não dos nomes que o integram, nada feito.

     

     

    1. Adjutor Alvim

      4 de agosto de 2014 3:11 pm

      Modernidade

      Arcaico não tem acento.

      Suspenção não existe, o correto é suspensão!

      1. Adjutor Alvim

        4 de agosto de 2014 3:13 pm

        Corretor ortográfico

        E se vc é tão adepto da computação inteligente, poderia utilizar um corretor ortográfico.

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