Enviado por Gilberto Cruvinel
O Globo diz que “sedes de jornais foram quebradas”, omitindo o que a história registra: sofreram ataques imediatos e violentos, logo após a notícia da morte do presidente, as sedes da embaixada norte-americana e dos jornais O Globo e Tribuna da Imprensa, identificados pela população como inimigos do ex-presidente.
Do O Globo
Sessenta anos depois, atentado da rua Tonelero ainda gera especulações
Tiros contra Carlos Lacerda foram estopim para a crise no governo que culminou no suicídio de Getúlio Vargas
por Raphae Kapa
Carlos Lacerda aparece em público sendo levado por oficiais da Aeronáutica devido ferimento no pé após atentado – Agência O Globo
“Mas, perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. Este homem chama-se Getúlio Vargas”. Com estas palavras Carlos Lacerda acusou o então presidente da República de ser o autor do atentado que sofreu no dia 5 de agosto de 1954, que completa 60 anos na próxima terça-feira, e foi o estopim para a crise no governo que culminou com o suicídio do governante.
O jornalista e político estava chegando em sua casa, na rua Tonelero número 180, em Copacabana, depois de um comício, quando vários tiros foram disparados em sua direção. Lacerda estava acompanhado de dois oficiais da Aeronáutica e de seu filho. Uma das balas atingiu fatalmente o oficial Rubens Vaz e outra, motivo de especulações até os dias atuais, teria acertado o pé do principal opositor de Vargas.
— Carlos Lacerda era um homem absolutamente teatral. Até hoje não é possível reconstituir, em uma narrativa única, pronta e acabada, todas as circunstâncias daquela trágica madrugada de 5 de agosto — afirma o jornalista Lira Neto, autor da biografia sobre Getúlio Vargas, com dois volumes já lançados e um terceiro que deve chegar às lojas neste ano. — As várias versões são contraditórias, incompatíveis entre si. O próprio Lacerda, ao longo do tempo, em situações distintas, narrou o episódio de diferentes maneiras, ajudando a tornar a história ainda mais nebulosa. O desaparecimento do prontuário do hospital, que poderia atestar se o jornalista teria ou não sido realmente ferido no pé, só complicou ainda mais o esclarecimento do caso — acredita.
Reações contra o presidente

Ainda assim, o jornalista conseguiu atrair setores da sociedade para se manifestarem contra o presidente. A imagem de Lacerda sendo levado por dois oficiais da Aeronáutica foi estampada nos principais jornais do país e demonstrou a aproximação que o político tinha com as Forças Armadas.
— Os dois oficiais da Aeronáutica faziam a segurança particular de Lacerda e não estavam fardados, mas quando apareceu para o público, o jornalista foi carregado pelos militares uniformizados — o professor de História do Brasil da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Marcus Dezemone. — Existia uma aproximação muito forte entre o Lacerda e seu partido, a UDN, com a Aeronáutica. O que evidencia o motivo pelo qual Vargas passou a confiar em uma milícia para sua segurança pessoal em vez das forças do Estado — analisa.
Dezemone aponta diferentes versões do caso:
— Houve relatos de que ele deu um tiro no próprio pé para criar uma encenação ou até que a bala acertou suas nádegas. A questão é que o atentado foi usado como uma tentativa política para inviabilizar a permanência de Vargas no poder. E, de certa forma, conseguiu.
Mais do que ligar o caso à imagem do seu opositor, as investigações apontaram que pessoas do círculo mais próximo do presidente estavam envolvidas. Ainda assim, não há nenhuma indicação de que Vargas sabia dos planos.
— Getúlio morreu negando, com veemência, qualquer envolvimento pessoal no caso. E, na esfera privada, ficou verdadeiramente chocado quando as investigações apontaram para Gregório Fortunato (chefe da sua guarda pessoal) e outros homens de seu grupo — afirma Lira Neto, que aponta que o inquérito desenvolvido por oficiais do Galeão, ligados a Lacerda, abalou o presidente por mostrar tráfico de influência no Palácio do Catete.
A informação de que seu filho, Maneco Vargas, havia vendido uma fazenda para Gregório, abalou a moral do presidente, segundo Lira Neto.
— Para fechar o negócio, Gregório, cujo salário era incompatível com o valor em jogo, contara com a ajuda de Jango, que avalizara para ele um vultuoso empréstimo bancário. No entender de Getúlio, ficara caracterizada a mácula: o filho de um presidente da República fechara com o chefe da segurança oficial um negócio suspeito, com o devido aval de um ex-ministro, homem de sua mais absoluta confiança — diz.
A atuação do presidente já não era mais a mesma. O homem que esteve à frente da Revolução de 1930, instaurou a ditadura do Estado Novo e governou o país por quase 19 anos, com uma interrupção entre 1945 e 1950, perdia o seu protagonismo.
— O cerco da imprensa, que já era enorme, fechou-se por completo. No parlamento, agravou-se o gradativo processo de isolamento político, então em curso — afirma Lira Neto.

Dezemone aponta que, para além dos aspectos políticos, a própria personalidade do presidente evidencia sua reação perante aos desdobramentos que os tiros na rua Tonelero provocaram.
— Vargas era acostumado a governar “à canetada”. O seu segundo governo é a primeira vez em que é eleito e governa democraticamente. Pela dificuldade em lidar com o regime democrático e com a oposição, há um desgaste — afirma Dezemone, que aponta que a possibilidade de suicídio não era uma novidade para o presidente:
— Em dois momentos Vargas cogitou o suicídio: na Revolução de 1930, ao sair com suas tropas do Sul, ele afirmou que “o preço de um grande fracasso só pode ser pago com um grande sacrifício”. E após a Segunda Guerra Mundial, ele acreditou que as Forças Expedicionárias Brasileiras poderiam aplicar um golpe quando chegassem no país. E optaria pelo suicídio caso isso acontecesse.
Suicídio foi escolha política
Para Lira Neto, o suicídio de Vargas foi uma resposta política perante o instável cenário da época.
— Os rumos tortuosos do chamado “Inquérito do Galeão” poderiam, no limite, levá-lo à prisão. Com o gesto extremo, suicidando-se, Vargas neutralizou a fúria dos adversários e assumiu a dimensão de mártir popular — analisa Lira Neto.
Na madrugada de 23 para 24 de agosto, Getúlio Vargas, como afirmou em sua Carta-testamento, “saiu da vida para entrar na História” com um tiro no peito em plena residência oficial do presidente da República. A comoção popular foi instaurada nos dias seguintes. Sedes de jornais foram quebradas, Carlos Lacerda teve que lidar com manifestações na porta de sua casa, e uma multidão fez vigília em frente ao Palácio do Catete esperando a retirada do caixão com o corpo de Vargas.
— Não se deve compreender esta comoção como uma manipulação, como muitos já falaram. Ela não está somente na dimensão simbólica. Está ligada à experiência dos trabalhadores, tanto do campo como da cidade, que viram ganhos no seu governo e, por isso, foram às ruas. Não foi o suicídio que atrasou um possível golpe que poderia ocorrer naquele momento, foi a reação das pessoas — relata Dezemone.
As semanas seguintes foram de forte turbulência política, com uma inédita sucessão presidencial em que o posto de presidente da República foi ocupado por três políticos em pouco mais de cinco meses. As mobilizações contra Lacerda fizeram com que ele saísse do país por curto tempo. Ainda assim, o jornalista fez campanha para a depor outros presidentes, como Juscelino Kubitschek e João Goulart, e ficou conhecido “demolidor de presidentes”.
Oldar Tojal
3 de agosto de 2014 3:10 pmEscudo dos quepes dos militares
Prezados
Agora bateu uma dúvida.
Conforme a foto, bastante nítida por sinal, os escudos nos quepes dos militares que carregam Lacerda, ao que me parece, são da Marinha (âncora ?) e não da Aeronáutica.
Alguem pode esclarecer ?
Oldar Tojal -RJ
Muzius
3 de agosto de 2014 4:08 pmEu também fiquei com a mesma
Eu também fiquei com a mesma dúvida.
Marco Santo
3 de agosto de 2014 4:42 pmManipulação de informação na época, já era pratica comum….
Você tem razão. Tudo indica ser da MARINHA e não da AERONAUTICA…..A manipulação da informação é pratica comum na imprensa da época e de hoje. Vejam o simbolo no quepe de um uniforme da epoca.
sergio m pinto
3 de agosto de 2014 3:19 pmJá que é para colocar lenha
Já que é para colocar lenha na fogueira, não é o caso de pensar que esse atentado foi extremamente conveniente e o seu inquérito parecido com certas ações que foram parar no Supremo?
Neideg
3 de agosto de 2014 3:20 pmComo sempre, a Midia
Como sempre, a Midia brasileira aa frente dos golpes de estado no Brasil.
Gilson S Raslan
3 de agosto de 2014 4:33 pmSempre duvidei do “atetado”
Sempre duvidei do “atetado” contra Lacerda. Presume-se, por óbvio, que a contratação de um pistoleiro para assassinar uma pessoa tão importante como Lacerda, tinha que ser uma pessoa qualificada para a missão, com boa pontaria. Todavia, como foi propagado, o tiro que seria destinado contra Lacerda acertou mortalmente seu segurança e o pé do Lacerda.
Dúvidas que não foram esclarecidas:
1) por que o pistoleiro não terminou o serviço, se Lacerda estava totalmente desprotegido com a morte do segurança, levando-se em conta que também ele estava ferido?
2) a arma usada pelo pistoleiro foi um revólver calibre 45, que deixaria sequelas irreparáveis no pé de Lacerda, o que ninguém viu nem relatou.
3) o que dizer do desaparecimento da ficha médica do atendimento do Lacerda?
Por tudo isto, não duvido de que o “atentado da rua Toneleiros” não passou de uma grande farsa. Foi a bolinha de papel do Zé Serra de 24 de agosto de 1954.
Mauricio Salles
3 de agosto de 2014 6:23 pmOutra
Parece-me que não se conseguiu acesso nem ao laudo cadavério do Major Vaz. Mas é preciso confirmar isso.
Mauricio Salles
3 de agosto de 2014 6:24 pmE o filme?
Alguém viu o recente filme sobre Vargas? Procede ou não?
Motta Araujo
3 de agosto de 2014 10:04 pmO Inquerito Policvial Militar
O Inquerito Policvial Militar foi publico, o pistoleiro Climerio foi preso, o motorista de taxi foi encontrado, o Governo Vargas foi sucedido pelo Governo JK, do mesmo grupo politico (PSD-PTB) e depois pelo Governo Jango (PTB), se o inquerito e os processos crimes contra Gregorio e Climerio tivessem que ser revistos, os varguistas tiveram DEZ anos no governo e poderiam faze-lo sem obstaculo porque eram Governo e tinham comando de todas os caminhos do processo, na época e muito depois ninguem contestou os fatos, nem os varguistas.
É legal
3 de agosto de 2014 10:32 pmMas coisa de um passado
Mas coisa de um passado inútil. O interessante seria abordar como o PIG tentou e contunua tentando fazer o mesmo por dezenas de vezes com Lula e Dilma, Os casos Celso Daniel e Toninho, crimes cometidos por criminosos comuns, comprovados por investigações da polícia do PSDB, a mais comptente hoje no mundo, fazem parte disto
altamiro souza
4 de agosto de 2014 1:16 ampra quem sabe das velhas
pra quem sabe das velhas táticas criminosas da direita, não é nada desprezível a hipótese do lacerda ter dado um tiro no próprio pé.
aí fizeram o que faz o psdb hoje, em consórcio com a grande mídia, culpam o governo popular, para então tentar derrubá-lo…