O escritor Pedro Bandeira publicou um vídeo em seu perfil no instagram no qual faz um apelo contra a proposta da Prefeitura de São Roque, interior de São Paulo, de alterar o Plano Diretor do município, gerando impacto ambiental, e que está em tramitação na Câmara dos Vereadores.
“Se pretende derrubar quase a metade da Mata Atlântica que existe ao redor do município para fazer loteamento (…) vender lotes que em nada ajudam no desenvolvimento de São Roque, ao contrário da Mata Atlântica de pé”, diz o escritor autor de clássicos da literatura infanto-juvenil e juvenil.
São Roque fica a poucos quilômetros da capital paulista e a cidade está entre as maiores manchas verdes do estado, preservando milhares de hectares de Mata Atlântica garantindo a reprodução física de espécies da fauna e da flora típicas do bioma, o mais devastado do país.
“A cidade precisa ser conhecida como a da preservação, com turistas fazendo trilhas ecológicas, descobrindo mil coisas. Se isso for destruído, a própria cidade será destruída pela necessidade de alguém ganhar muito dinheiro vendendo pequenos lotes totalmente inúteis”, critica Pedro Bandeira.
Em suas obras, o escritor sempre demonstrou preocupação com as questões ambientais e dos povos indígenas. Não é a primeira vez que Pedro Bandeira expressa o alerta. Desta vez, o apelo soa dramático porque São Roque já havia experimentado a devastação ambiental com a construção de um aeroporto.
“Vamos tentar, eu não sei, é um momento em que o Pedro Bandeira está pedindo socorro”, diz o escritor em um tom diferente de seus livros e de sua presença marcante na vida da sociedade: o sorriso franco encimado pelo bigode de pontas finas deu lugar a uma tez de quem luta contra um desastre.
Devastação da Mata Atlântica
A situação da Mata Atlântica é crítica.
Entre 2020 e 2021, conforme o SOS Mata Atlântica, foram desmatados 21.642 hectares da Mata Atlântica, um crescimento de 66% em relação ao registrado entre 2019 e 2020 – 13.053 hectares – e 90% maior que entre 2017 e 2018, quando se atingiu o menor valor de desflorestamento da série histórica – 11.399 hectares.
A perda de florestas naturais, área em que caberiam mais de 20 mil campos de futebol, corresponde a 59 hectares por dia ou 2,5 hectares por hora, além de representar a emissão de 10,3 milhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera.
A preservação do bioma, assim como o dos demais, é uma necessidade urgente para o combate às mudanças causadas pelo homem no clima.
Patrimônio reconhecido pela UNESCO, presente na região de São Roque, a Mata da Câmara, faz parte da reserva da biosfera do cinturão verde da cidade de São Paulo, instituída em 1994. O cinturão é composto por áreas consideradas de relevância e de interesse ambiental por abrigarem ecossistemas de grande importância.
Com aproximadamente 130 hectares, a Mata da Câmara é remanescente da Mata Atlântica e possui trilhas que somam cerca 4.800 metros. Dessa forma, defendem aqueles que se posicionam contra o novo Plano Diretor, o avanço de lotes para áreas de floresta enfraquece o cinturão verde.
Última audiência pública
No último dia 16 de junho, foi realizada a terceira e última audiência pública para discutir as possíveis mudanças no Plano Diretor de São Roque. O Jornal da Economia realizou a cobertura da discussão, entrevistando moradores, especialistas e pesquisadores a respeito dos impactos da proposta da Prefeitura.
O ambientalista e porta-voz da Rede Sustentabilidade em São Roque, Luan Townsend, disse ao Jornal da Economia que está preocupado e teme por uma “tragédia ambiental” provocada pelo o que a administração municipal vem propondo na revisão.
Entre os pontos abordados estão a redução de zonas rurais, em relação ao que existe no plano de hoje, em algo próximo de 60%, também a redução da permeabilidade do solo, com novos loteamentos, de 80% para 60% e o crescimento de duas para nove vias para verticalização de edifício.
Para Townsend e outros representantes da causa ambiental no município, todas essas propostas estão sendo feitas “sem estudos técnicos que justifiquem e viabilizem ambientalmente a mudança”. Ele diz que o prefeito Guto Issa ficará marcado como “o principal responsável por efeitos climáticos catastróficos que estão por vir” caso este material de propostas venha a ser aprovado.
Ainda em sua fala na audiência, o ambientalista afirma que essa proposta de Plano Diretor contraria os objetivos de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).
Quem também esteve presente na discussão foi o vereador Paulo Juventude, que queria fazer perguntas, mas foi impedido pela Mesa Diretora. Nas redes sociais, ele fez críticas à atitude da mesa em relação ao seu pedido de manifestação.
“Essa revisão é uma falácia, uma mentira. O que nós vimos nessas audiências são de seis a dez pessoas repetindo a mesma fala e não resolvem nada. Não apresentou documentos na audiência pública”, questionou a advogada Rosana Altafin.
Empresários reclamam
A empresária Erika Moraes disse não entender o interesse do Executivo em diminuir a área rural. “Nós estamos em uma estância turística e rural, as pessoas que vêm a São Roque procuram por paz e sossego, eles querem ver a área rural, não querem ver prédios, nem loteamentos”, disse.
Outra preocupação apresentada pela empresária é que em São Roque não há infraestrutura para a população. Com a abertura de centenas de lotes, urbanização de áreas de floresta e aumento populacional os munícipes estão preocupados na cidade se tornar mais desigual e desestruturada.
“Porque falta água, faltam tantas coisas. Então você, morador, que não concorda com esse Plano Diretor, tem que prestar atenção quando ele for votado para ver quem serão os políticos responsáveis, pois logo, logo tem eleição e você vai ter a oportunidade de votar em quem realmente te representa”, declarou a empresária na audiência.
Resposta da Prefeitura
A essas denúncias e críticas, a Prefeitura informou que recebe com tranquilidade a manifestação do munícipe e entende que seu posicionamento faz parte do processo democrático de revisão do Plano Diretor.
“É importante salientar o material apresentado pela equipe da administração municipal durante as três audiências públicas foi construído não só por um grupo técnico, mas também com a devida participação da população, através de sugestões e propostas que foram apresentadas e incorporadas ao projeto que agora segue à Câmara”, declarou.
LEIA MAIS:
Deixe um comentário