4 de junho de 2026

Lição para trainees da TV Globo: análise de um vídeo “fractal”

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Sintoma? Ato falho? Autoparódia? Provocação? Talvez seja tudo isso, um verdadeiro vídeo “fractal” (figura geométrica similar a um padrão que se repete em escala maior) feito para promover o Programa de Trainees 2014 da TV Globo. Certamente, a primeira lição para os trainees da emissora poderia ser a de analisar esse vídeo performado por Marcius Melhem e Marcelo Adnet: um general estilizado recruta jovens de 18 anos para o alistamento na “maior emissora de comunicação do… Brazziilll” (o nome do País em sotaque inglês). Sabendo-se das polêmicas origens da TV Globo no período da ditadura militar, podemos encontrar no “teaser” promocional o reflexo da corda bamba em que se encontra atualmente a TV Globo entre ter que ser politicamente de oposição e, ao mesmo tempo, aparentar transparência e modernidade.

O “Banco de Talentos”, site de recrutamento onde a TV Globo forma sua verdadeira reserva de mão de obra cadastrando candidatos a diversos programas corporativos da emissora, publicou uma página do Programa de Trainee Globo 2014. Visualmente a página é interessante e até saudosa: lembra os projetos visuais da extinta MTV Brasil com as fontes de texto irregulares, o grafismo com ares retro e no destaque Marcelo Adnet em cena do vídeo promocional do programa.

Se o gigante se conhece pelo dedo, esse vídeo promocional é uma ótima oportunidade para os jovens candidatos conhecerem o DNA da emissora na qual pretendem trabalhar. O site possui até uma página intitulada “Conhecendo a Rede Globo” onde encontramos um daqueles textos com estilo corporativo eufemístico falando de “missão”, “sonhos” e “líderes”.

Mas é no vídeo promocional que o futuro trainee pode conhecer a verdadeira Rede Globo, sua origem, história e natureza. De uma forma irônica, quase como um chiste ou ato falho, a emissora deixa escapar nas suas metáforas a origem e vocação histórica. O vídeo é um verdadeiro fractal da TV Globo: figura geométrica não-euclidiana cuja estrutura é similar a um padrão que se repete em uma escala maior.

O vídeo

O vídeo inicia com um general estilizado feito pelo comediante Marcius Melhem fazendo uma alusão às antigas propagandas do Exército brasileiro convocando para o alistamento militar obrigatório: “você que tem 18 anos…” Ao fundo uma enorme bandeira com o logo da TV Globo convertida numa analogia à bandeira nacional. A composição do general estilizado, a bandeira ao fundo e a entonação ironicamente lembram o espírito propagandístico do “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” do antigo regime militar brasileiro (1964-1985).

Para quem conhece a história da emissora, sabe que a Globo cresceu sob o apoio do regime militar que ela própria não só apoiou como participou ativamente da desestabilização do governo Goulart (1962-64) que criou condições políticas para o golpe militar em 1964. Tanto que, no ano passado, as Organizações Globo não resistiram às crescentes manifestações (“A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”) e através do Jornal O Globo reconheceu 50 anos depois que o apoio ao Golpe foi um erro.

Que as corporações vejam os processos seletivos pela metáfora militarista do recrutamento isso não é novidade: depois de anos de discursos humanistas nas organizações sobre “capital humano”, “gestão holística” etc., a empresas continuam através dessas metáforas gerenciais militares mostrando que continuam a mesma – hierarquizadas, verticalizadas e autoritárias. Mas no caso desse vídeo do programa global de trainees há algo a mais: um ato falho sobre suas origens? Um provocativo autodistanciamento irônico? Um incontrolável cacoete que lembraria aquele do Dr. Fantástico do filme de Kubrick cujo braço direito involuntariamente se levantava para fazer a saudação nazi?

O fato é que assistindo ao vídeo podemos claramente perceber índices e alusões que confirmariam todas essas hipóteses:

Generais, condecorações e Big Brother

(a) A composição da bandeira nacional/TV Globo, general estilizado em um púlpito remete iconicamente a todo o imaginário cinematográfico e pop dos golpes e ditaduras militares nas chamadas “repúblicas de bananas” da América Latina dos anos 1960-70. Um ato falho revelador das históricas origens da emissora?

(b) A certa altura o general estilizado de Marcius Melhem fala “venha fazer parte da maior empresa de comunicação… (pausa dramática) do Brazilll”, fala o nome do País com um sugestivo sotaque inglês. Nas controvertidas origens da emissora, discute-se o famoso Caso Globo/Time-Life, acordo financeiro e tecnológico com o grupo norte-americano firmado em 1965, à época ilegal pela Constituição brasileira não permitir a participação estrangeira em uma empresa nacional de comunicação.

Isso sem falar na ingerência logística e ideológica da CIA na criação das condições políticas e ideológicas para o Golpe Militar no qual a TV Globo assumidamente participou. Uma alusão irônica? Provocação? Ato falho? Realmente, a figura de um general estilizado falando “Brasil” com sotaque inglês dá no que pensar…

Acima: 
cena do documentário
“Muito Além do Cidadão Kane”;
Abaixo: Adnet como 
trainee condecorado

(c) Marcelo Adnet sendo condecorado pelo general estilizado. Uma irresistível alusão icônica a famosa sequência do censurado documentário inglês Muito Além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane, 1993) onde mostra imagens do telejornalismo da emissora mostrando Roberto Marinho sendo condecorado em uma cerimônia militar para ilustrar a tese de que a TV Globo crescia fora de qualquer controle público ou político – veja fotos acima e sobre o documentário clique aqui.

 

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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15 Comentários
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  1. Heitor de Assis

    18 de julho de 2014 5:30 pm

    Milícia rica é outra coisa…

    Para dizer a verdade, não entendi nada, exceto a idéia de recrutamento como alistamento militar. Ou os idealizadores de tal sandice e seus superiores não estão entendendo nada, ou estão entendendo tudo. Talvez a emissora esteja considerando a hipótese de formar sua própria milícia para espalhar o caos no país. E antes que alguém me chame de maluco, não esqueçam da milícia que milita no que pensam ser jornalismo, e que sabemos bem o que é . Cruzes!!!!

  2. Aldo Cardoso

    18 de julho de 2014 5:37 pm

    O mais importante…

    O mais importante é que a Globo assume as suas origens e filosofia existencial publicamente, mostra com quem se identifica e quer para os seus quadros, além de revelar o tamanho do seu égo e crença: que é a maior do Brasil e, este, seu amestrado.

    1. Lucinei

      18 de julho de 2014 8:29 pm

      É a famosa “fuga pra

      É a famosa “fuga pra frente”.

      Como as corporações do filme “A Corporação” essas pessoas jurídicas,:se pessoas físicas fossem, seriam psicopatas; sem nenhuma possibilidade de arrependimento de nada.

  3. Aldo Cardoso

    18 de julho de 2014 5:40 pm

    O mais importante…

    O mais importante é que a Globo assume as suas origens e filosofia existencial publicamente, mostra com quem se identifica e quer para os seus quadros, além de revelar o tamanho do seu ego e crença: que é a maior do Brasil e, este, seu amestrado.

  4. evandro condé de lima

    18 de julho de 2014 6:33 pm

    Menos

    Caracas, os comentários estão do tipo de ver propaganda do 45 na novela das sete. Peço que vejam  a novela e me informem como ela critica o PT e seu desempenho.

    1. Lionel Rupaud

      18 de julho de 2014 6:58 pm

      Deus me livre de ver novela (da globo)

      não fiz nada de errado! Não faço a mínima questão de emburrecer.

      1. evandro condé de lima

        18 de julho de 2014 7:58 pm

        Pois é Lionel, eu como não

        Pois é Lionel, eu como não possuo a inteligência dos que viram a propaganda no título, estou esperando pelas análises do conteúdo.

    2. Álvaro Noites

      18 de julho de 2014 8:12 pm

      O faça você mesmo, oras …
      O faça você mesmo, oras …

  5. Joel miranda

    18 de julho de 2014 6:52 pm

    Globo

    Amigos, é uma emissora sem vergonha de sua vida e de seu poder imperialista!

  6. altamiro souza

    18 de julho de 2014 8:29 pm

    é a história descarada do

    é a história descarada do pig.

  7. JbMartins

    18 de julho de 2014 9:17 pm

    Vi apenas o Video

    Portanto fiquei na certesa que a Globo tem saudade da Ditadura, não esqueceram como era bom.

  8. nadja

    18 de julho de 2014 10:25 pm

    Um propaganda para recrutrar

    Um propaganda para recrutrar coxinhas 

  9. Marcos Antônio

    19 de julho de 2014 12:53 am

    Credibilidade é uma coisa que

    Credibilidade é uma coisa que só se perde UMA VEZ…

  10. alexis

    19 de julho de 2014 10:36 am

    Democracia na Globo?

    Kamel e turma colocam Melhem e Adnet a procurar meninos talentosos para atuar na “Grobo”

    Bacana!

    Será que algum dia os veremos em Malhação, fazendo carreira global?. 

    Teremos novos Bonner, Bernardes, Jabor, Sanderberg, Huck, Bial, Waak, Annenberg, etc.

    O Gallo (futebol) está querendo profissionalizar jogador de futebol aos 12 anos. Na Globo começam mais cedo.

  11. Gabro

    22 de julho de 2014 9:59 am

    Interessante
    Agora, a julgar

    Interessante

    Agora, a julgar pelos comentarios do pessoal, concluo que perderam a sensibilidade do humor, da ironia, da parodia.

    Nao é porque o cara trabalha na Globo que ele pensa igual ao patrao (né Azenha? né PHA? né Rodrigo Vianna?), embora este seja muitas vezes o caso (falo porque vi).

    O que parece mais provavel é que os dois comediantes fizeram do video de trainee da Globo uma parodia ou satira em menor escala da historia da propria Globo, de suas origens obscuras, de seu funcionamento atual como corporaçao, e da mentalidade dos jovens que la querem trabalhar. Pra perceber isso, é preciso conhecer as referências originais que sao retomadas de forma parodica no video.  (assim como pra entender a Vida de Brian é preciso ter em mente a vida de Jesus, ou pra entender Top Gang é preciso ter em mente Top Gun, etc.) é isso que o autor do artigo ai acima tentou fazer. Mas ainda ha muitas outras leituras possiveis, cada espectador pode descobir uma nova.

    Esse tipo de humor me lembra (embora nao seja exatamente a mesma coisa) por exemplo o estilo dos comediantes franceses Pierre Desproges (sobre os judeus na 2a guerra disse : ca entre nos, nao foram muito colaborativos)  e Dieudonné (este ultimo : um negro que se vestia com roupa de KKK). Um humor que nao necessariamente faz gargalhar, que faz rir às vezes trincando os dentes, porque faz da piada um meio de dizer coisas que incomodam, que de outro modo seriam inaceitaveis na sociedade. Algo proximo do que chamamos, numa expressao de conotacao um tanto politicamente incorreta, humor negro.

    Justamente, esse é um humor politicamente incorreto que pode-se dizer inteligente, porque através do personagem, é a estupidez humana que é criticada. Nao é serio, mas ao mesmo tempo é. Cabe ao leitor / espectador captar o humor e a ironia.

    Agora, o que intriga é :  como um video desse foi aprovado?

    Sera que nao perceberam o humor e a ironia ?

    Ou perceberam e aprovaram mesmo assim ? Se foi esse o caso, por quê?

    Talvez os patroes nao tenham gostado muito. Mas tb podemos pensar que afinal, ao assumir as verdades de seu passado em forma de piada (no caso uma piada de si mesma), a globo acaba por neutralizar a propria critica de seu  passado obscuro, como quem diz : isso é passado, ja podemos rir e seguir em frente…  é bem ou mal uma forma recuperaçao ideologica…. pode ser que houve ato falho mas pode ser que nao foi tao falho assim…

    abs

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