4 de junho de 2026

Os “deuses do futebol” aceitaram os sacrifícios para que a Copa fosse um sucesso

Álbum Copa do Mundo - 2014

A expressão “deuses do futebol” é um dos numerosos clichês de gosto duvidoso que abarrotam o discurso acerca do jogo de bola que amamos tanto no Brasil e mundo afora.

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Nos habituamos e adotamos como código de aficcionados essa coleção de expressões figuradas sem refletir sobre o sentido de cada um, se é que alguns deles o têm. Ou alguém sabe, por exemplo, exatamente, a origem e o significado de “mata-mata”, se nos jogos eliminatórios que receberam esse apelido um dos dois times “morre” na competição?

Já houve alguém que propusesse, com muito bom humor e certa erudição, uma mitologia básica dos deuses do futebol cujas virtudes e defeitos estavam associadas às imprevisibilidades e a importância do acaso nos resultados de cada partida.

Mas o tema aqui é outro. E, infelizmente, tem um tom bem mais grave.

A imersão de tantos brasileiros no clima de trevas e prognósticos nefastos sobre um nova edição de uma Copa do Mundo no Brasil, ampliou a percepção de muitos deles para coincidências inusitadas e fatos que pudessem confirmar ou afastar o medo de que os vaticínios agourentos lançados pela mídia empresarial, por meio de seus porta-vozes e os seguidores leigos desses, que, potencializados pelas chamadas redes sociais, repercutiam  tais maldições.

Configurou-se um pavor mudo e quase generalizado de uma humilhação do país diante do mundo todo e, pior do que isso, a predisposição para o pânico diante de tragédias envolvendo milhares de visitantes estrangeiros e torcedores daqui.

E, curiosamente, todo esse clima foi formado sobre o megaevento, sua organização e realização, muito mais que ao futebol propriamente dito.

Nas vésperas da abertura do torneio, juntaram-se às notícias das mortes de grandes jogadores de futebol do passado nos primeiros meses de 2014, os lutos inesperados por figuras públicas reconhecidas e ídolos do futebol brasileiro e mundial. E a associação de ideias foi inevitável.

Em janeiro, poucos dias antes de Cristiano Ronaldo receber o troféu de melhor jogador do mundo pela segunda vez, morrera Eusébio, astro da seleção portuguesa de 1966 e considerado um dos maiores futebolistas de todos os tempos. Em fevereiro morreu Luis Aragonés, ex-técnico da seleção da Espanha, até então campeã do mundo pelas mãos de seu sucessor imediato, e o jovem brasileiro Maicon Oliveira que atuava na Ucrânia num acidente de carro. Em março, foi a vez do passamento de Bellini, o capitão da seleção brasileira que venceu o primeiro título mundial para o Brasil.

No mês de abril, alcançou horas a soma dos minutos de silêncio antes dos jogos de futebol no Brasil, em respeito à morte súbita de Luciano do Valle, narrador esportivo muito conhecido e admirado em todo país.

Em maio ganhou destaque a morte de Washington, destacado atacante dos anos 80, aparentemente acidental, suspeita de ser decorrência de ato negligente, embora dentro de um contexto de doença degenerativa grave.  

No mês seguinte, há menos de uma semana do início da Copa do Mundo, morreu em acidente de helicóptero, Fernandão, campeão mundial de clubes e ídolo de várias torcidas de futebol no país e exterior.

No dia seis de julho, como que fazendo uma reverência ao apelido de “Casal 20”, pouco mais de um mês depois de Washington, faleceu Assis,  companheiro daquele em várias escalações como dupla de ataque.

E, finalmente, na véspera da primeira partida das semi-finais da Copa, ocorreu o óbito do reconhecidíssimo Di Stéfano, considerado, no mínimo, o maior jogador de futebol do mundo durante a primeira metade do século XX.

Para garantir que a copa chegasse ao final como um evento internacional de extraordinário êxito para o país, para o seu povo e para todos aqueles que acreditam no esporte – mesmo que transformado em grande negócio – como uma forma de alegria e congraçamento dedicada a superar as grandes dificuldades e perdas da vida, no dia seguinte, a seleção brasileira de futebol, enfim, oferecia aos deuses do futebol o único sacrifício ocorrido dentro de campo: a abdicação do título honorífico de “país do futebol”.

Todas essas dores foram enormes; incomensuráveis, na verdade, mas, para a história que seguirá para muito além de nós, a história do Brasil e do futebol mundial, valeram a pena.
 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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