5 de junho de 2026

Carlos Lessa, o Nacional-Desenvolvimentista, por Fernando Nogueira da Costa

Lessa não desculpava o fato de Antônio Palocci ter tanto espaço no governo do PT. Embora tenha participado dele, sempre o criticou

Carlos Lessa, o Nacional-Desenvolvimentista

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por Fernando Nogueira da Costa

Carlos Lessa era um grande frasista. Na preparação para o lançamento na PUC-SP da coletânea de ensaios, Carlos Lessa, o Passado e o Futuro do Brasil (1ª. ed.- Brasília: ABED: Editora Fundação Perseu Abramo, 2023) – download no fim deste artigo –, organizada por membros da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED), lembrei-me de algumas de suas frases antológicas.

Em sala-de-aula, dividindo um curso com a Professora Maria da Conceição Tavares no Mestrado em Economia da UNICAMP, em 1975, ele soltou a comparação: – É mais rentável do que plantação irrigada de coca na Colômbia!

Ríamos e jamais esquecíamos… pelo menos da piada. Segundo Ricardo Bielschowsky e Luiz Antônio Elias, “ele se definia de forma bem-humorada – e não sem um toque de falsa modéstia – como ‘um especialista em generalidades. Não estudo quase nada [?!], mas não abro mão de dizer o que penso. Não ser um especialista me dá um grau de liberdade o qual tento usar ao máximo”.

Quando eu estava em Brasília e ele era o presidente do BNDES, corria a estória dele ter dito em palestra a empresários: – “Se quiser apresentar o Brasil a um estrangeiro, leve-o a um restaurante a quilo, será o único lugar do mundo onde se mistura sushi e sashimi com feijoada!”

Quando eu o encontrei, perguntei se era verdade. Ele me confirmou e acrescentou: – Em nova versão, eu digo: é o único lugar onde se esconde o nhoque sob uma folha de alface! Ele gostava muito, sociologicamente, da comida a quilo, no restaurante observava e depois falava da criatividade dos brasileiros na composição dos pratos.

Em um seminário no IE-UNICAMP, ele disse: – “Depois de velho [nasceu em 1939], falo tudo que penso”. Logo depois, se corrigiu: – “Na verdade, sempre disse…” É verdade, sou testemunho, mesmo quando isso lhe custou certos dissabores.

Ele teve a coragem de dar um verdadeiro “cavalo-de-pau” no “transatlântico BNDES”, transformando-o de “banco de negócios” (privatizações) em, novamente, um Banco de Desenvolvimento. Graças ao Carlos Lessa houve uma certa reestatização da Vale.

Mas ele não tinha nenhuma tolerância com os neoliberais ainda instalados no Banco Central do Brasil no primeiro governo Lula. Curiosamente, aí invertemos os papeis – antes ele ironizava meu radicalismo petista e eu seu emedebismo –, no governo, eu atuava como “bombeiro”, sugerindo-o moderação no “incendiário”. Mas ele não tinha “papas na língua”, falava tudo pensado por ele sem dar satisfação a ninguém.

Cheguei a avisá-lo, quando o Henrique Meirelles, então presidente do Banco Central do Brasil, soltou uma nota impressa criticando o crédito direcionado do BNDES e da Caixa, em reunião do Conselhão (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social – CDES), no Palácio do Planalto. Eu estava presente e vi ele não ter a lido. Porém, quando a imprensa foi entrevistar o Lessa a respeito – ele estava em viagem –, ele não perdoou e “descascou” o Meirelles. Infelizmente, este ficou, Lessa saiu…

Antes, em novembro de 2003, outra grande polêmica foi o lance para permitir a volta direta do governo à Valepar. Houve a aquisição dos 11,6% do InvestVale pelo BNDES.

O então presidente do banco, Carlos Lessa, em uma decisão tomada em apenas três dias, decidiu pela compra dessa fatia para evitar as ações serem vendidas a Mitsui. Com isso, essa companhia estrangeira superaria 25% e passaria a ter direitos de veto nas decisões estratégicas da Vale.

O banco público tinha direito de preferência. Antes, Lessa também tentara ficar com as ações da Bradespar vendidas à Mitsui, mas foi impedido “por uma orientação [ministerial] superior” de interferir na negociação, conforme disse em entrevistas.

A operação custou ao BNDES R$ 1,5 bilhão. Pelo valor de mercado da empresa, essa fatia passou a valer mais de R$ 11 bilhões, sem considerar prêmio de controle. Mas, pela forma como foi realizada, recebeu críticas na época, e Lessa, severa repreensão do presidente Lula por ele não ter sido avisado da decisão, tampouco o ministro Luiz Fernando Furlan do MDIC ao qual o BNDES era subordinado. Ora, “ele tinha impedido a primeira tentativa de reestatização, então, dessa vez não falei com ninguém…” [risos]

Lessa não desculpava o fato de Antônio Palocci ter tanto espaço no governo do PT. Embora tenha participado dele, sempre o criticou, pesadamente, inclusive pela pouca compreensão das gerações mais jovens petistas sobre a questão nacional.

Bielschowsky e Elias traçam bem seu perfil. “Apaixonado pelo Brasil, por seu povo, e comprometido com o desenvolvimento, entendia a inclusão social ser um processo associado a um binômio indissolúvel: construção da cidadania e autonomia da nação”.

Lessa era um autêntico nacional-desenvolvimentista. Compreendia a defesa verdadeira da nação ser construir uma institucionalidade republicana e democrática para o conjunto da população. Significaria construir uma cidadania fundada em três eixos:

  1. um Estado de bem-estar e proteção social,
  2. uma macroeconomia de pleno emprego com valorização da força de trabalho, e
  3. estruturas produtivas capazes de permitir a absorção do progresso técnico e o crescimento com permanente aumento de produtividade.

Via a industrialização como uma condição estrutural para a superação da pobreza e da miséria. O Brasil sofria com a baixa diversidade produtiva e especialização em bens primários. Tinha uma oferta abundante de mão de obra operando em níveis de subsistência, pobreza e má distribuição da propriedade e da renda. Além disso tudo, sua institucionalidade sob desmanche neoliberal era pouco favorável ao desenvolvimento.

Ele foi o mais multidisciplinar de todos os economistas brasileiros. Fazia as conexões entre economia, política econômica e Estado, entendido como instância de poder e de coalisão de classes proprietárias. Poderia ser classificado também como um grande sociólogo, devido a suas contribuições às questões da cultura e da cidadania.

A trágica morte de Ulysses Guimarães, em 1992, e a dispersão do grupo de economistas a sua volta, não levou Lessa a sair do PMDB, como outros, mas o fez voltar para a academia. Entre 1993 e 1995, durante a primeira gestão de Cesar Maia, eleito pelo PMDB para a Prefeitura carioca, Lessa foi diretor do Plano Estratégico da Cidade.

Infelizmente, eu já tinha mudado do Rio de Janeiro quando Lessa desenhou um plano de revitalização da cidade e daí nasceu um movimento próprio no restauro de prédios antigos no centro da cidade. Ele achava o descontentamento com o Rio, queixa no dia a dia dos cariocas, refletia a decepção com o próprio país.

Na realidade, a cidade espelhava o universo de virtudes e problemas brasileiros. “Seria, por um lado, uma espécie de um símbolo de riqueza civilizatória – um dos berços de uma civilização mestiça, culturalmente fértil e criativa – mas, por outro, um símbolo do desequilibrado universo social brasileiro, do caos urbanístico, da miséria e da violência”.

Lessa atuava, na cena pública, com o objetivo explícito de contribuir para a recuperação da autoestima nacional. Lançou, no ano 2000, um livro intitulado: O Rio de todos os Brasis – Uma reflexão em busca de autoestima.

Fábio Sá Earp aponta bem: “uma de suas características é o fato de sua contribuição mais importante para o debate político e econômico no Brasil não se deu através da obra escrita, cuja relevância é indiscutível, mas das aulas e de conferências ministradas. Orador brilhante, Lessa foi, durante meio século, um dos mais populares palestrantes da história do país”.

Criado em uma família de elite intelectual próspera da Zona Sul do Rio de Janeiro, Lessa desde pequeno acostumou-se a brincar na rua com as crianças das favelas próximas. Sua família praticava a caridade cristã. Achava o problema poderia ser resolvido pela prática de uma ética cristã repartitiva, porém, tudo mudou depois de uma viagem a Recife, por volta de 1958, quando tomou contato com as condições de miséria existentes nas favelas locais, ainda piores diante das cariocas.

Segundo Sá Earp, ele dizia a elite do ter, a do poder e a do saber nada faziam para eliminar aquela situação de miséria profunda, da qual de diversas maneiras se beneficiavam. Lessa passou a estudar História e Economia Política em busca de uma filosofia da história capaz de explicar a miséria social brasileira. Concluiu: “a ética cristã era impotente para resolver o problema das condições sub-humanas nas quais viviam os favelados: esta teria que ser uma tarefa do Estado”.

Em seu primeiro livro, Quinze Anos de Política Econômica, detalhava como o Estado desenvolvimentista brasileiro conduzia a economia. Tinha passado a controlar o petróleo, criado o BNDE como mecanismo de alocação de recursos, implantado o complexo metalmecânico, rompido com o FMI e convivido com a inflação, porque, na ausência de um sistema financeiro, atuava como um mecanismo de financiamento. Tinha feito o “dever de casa” na Era Nacional-Desenvolvimentista. Por que não continuar no mesmo rumo?

Download do Texto para Discussão:

Fernando Nogueira da Costa- Intérprete do Brasil Artigos de Carlos Lessa (2010-2011)

Download do Livro da ABDE:

ABDE – Carlos Lessa O Passado e o Futuro do Brasil – FPA 2023


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected]

Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Douglas da Mata

    23 de outubro de 2023 10:34 am

    Nacional desenvolvimentista no capitalismo é o que mesmo?

    É uma jabotimanga?

    Uma abacaxicaba?

    Ou um fóssil de Curupira?

    Uai, o período de acumulação primitiva (nacional) foi lá em 1700, ou um pouco antes na Inglaterra, não?

    Bem, com raras exceções que só confirmam a regra, os países que entraram no jogo global capitalista com força de mando, só com muito esforço militar expansionista, né?

    O genocídio covarde da Guerra do Paraguai a mando da Inglaterra não conta…nem a jagunçagem do Haiti…

    Viva o soft power…rs

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