4 de junho de 2026

Crise da água: admissão do racionamento noturno pela SABESP?

Por Sergio Reis

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A notícia abaixo, publicada pelo Estadão de ontem, é interessante porque, possivelmente, se trate da primeira vez em que a SABESP admita que faz, sim, racionamento às madrugadas. A prática, que é uma obviedade para muitos paulistas que se deparam, todas as noites, com suas torneiras vazias, sempre foi veementemente negada pela empresa. Na verdade, em bom tucanês, o que a SABESP afirmava fazer eram “manobras operacionais” para a realização de “transferências de vazões” de outros sistemas (como o Alto Tietê e o Guarapiranga). É o que pode ser observado, por exemplo, nesta notícia, de 16 de Abril: http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,sabesp-diz-seguir-norma-tecnica-e-nega-racionamento,1154361

Agora, ao que parece, há uma modulação interessante do discurso oficial. A redução da pressão não é mais meio para um fim determinado, mas um fim em si mesmo e, mais precisamente, é apresentada como justificativa para a manutenção da promessa – cada vez com menos fundamento – de que o Cantareira continuará a distribuir água até pelo menos Março de 2015. Como vemos no último parágrafo da matéria, a “redução da pressão na rede durante a noite” aparece agora como uma das medidas “conscientes” da SABESP para economizar água, quando antes era uma medida colateral de ajuste para a distribuição da água via outros sistemas produtores. Mais uma vez, a empresa e o governo buscam transformar um transtorno e um óbice à população em uma medida sábia de gestão (foi assim com o uso do volume morto).

Ao se esforçarem (com o apoio da imprensa) em apresentar um rol de argumentos que corrobore a sua capacidade de cumprir a promessa supracitada, acabam por desnudar o real caráter da restrição noturna de água, tantas vezes já denunciada pelos cidadãos. É incrível como não se atentam – talvez por não se importarem, na verdade – para a circunstância de que se qualquer espécie de racionamento já constitua uma medida socialmente complicada, muito mais grave (eu diria até criminosa) é a sua realização sem anúncio, sem pacto, sem transparência para com a população. Poucas vezes se viu nesse Estado uma colocação tão prioritária dos intereresses imediatos da eleição do que republicanos atemporais.

Da mesma forma, a absoluta precariedade da transparência governamental, aliada à impressionante e injustificável falta de vontade investigativa e crítica da imprensa (vale dizer que as reportagens do Estadão sobre o tema são acompanhadas por esse repórter identificado abaixo desde pelo menos Março, o que inviabiliza o argumento de que ele desconheça os números e as ações ocorridas nesse período) resultam na apresentação acrítica do argumento absurdo, também constante do último parágrafo da reportagem (escrito de forma confusa, inclusive), de que a redução de 34% do volume de água distribuída tenha ocorrido em razão da economia feita pela população. Ora, todo mundo que acompanha o tema sabe que essa diminuição ocorreu a partir das recomendações feitas pelo Comitê Anticrise, que foi criado em Fevereiro justamente para, dentre outras atribuições, analisar as vazões adequadas de distribuição de água para salvaguardar a segurança hídrica de São Paulo.

Não por acaso, o Comitê rejeitou o último plano (mais uma vez otimista) da SABESP, que queria estabelecer uma vazão de 20,4 metros cúbicos por segundo – e o referendado foi de 19,7. Vale dizer que, antes da primeira medida restritiva, as vazões eram de 31 metros cúbicos para São Paulo e de 5 metros cúbicos para o Comitê PCJ (Campinas e região). Em outras palavras, a oferta da vazão acaba, na prática, sendo determinada, vejam só, por quem faz a oferta do serviço, e não por quem demanda. Ainda é preciso dizer que o dado mais recente sobre a real economia de água é de 4,1 metros cúbicos por segundo – que dá, então, 13,2 % de redução do consumo em razão do bônus. Os 34% apontados na matéria dizem respeito, portanto, à redução necessária promovida a partir das resoluções do Comitê Anticrise, acatadas pela SABESP.

E, enfim, o tom dos argumentos contidos no último parágrafo (tal qual um press release) dá a ideia de que a garantia do abastecimento até 2015 expressa a ideia de que a manutenção da situação atual é adequada, como se o problema estivesse sido estancado – um outro absurdo imenso, contraditório com os próprios dados apresentados na reportagem (que, curiosamente, não ensejam, apesar disso, um tom crítico pelo repórter, que apenas “repassa” a resposta da empresa). O que não é comentado, na verdade, é que há a expectativa por parte da SABESP de que a Agência Nacional de Águas autorize a liberação da retirada de mais 100 bilhões de litros do volume morto do Cantareira. O presidente da ANA, Vicente Andreu, já se posicionou publicamente de forma contrária, considerando que tal procedimento traria um risco iminente de não recuperação do Sistema (em outras palavras, a sua “morte” para fins de abastecimento, o que seria uma tragédia histórica, sem precedentes, e cada vez mais real) – que teria, ao final do processo, apenas 100 bilhões de litros (que não seriam retirados talvez até mesmo por impossibilidade técnica).

Mas, se chegarmos às vésperas das eleições, em Outubro, com o esgotamento de toda a parcela de extração do volume morto autorizada em Maio, o que é que o Governo Federal fará? Se autorizar a retirada, garantirá o abastecimento de água à população paulista por mais dois meses, mas referendará a falência do Sistema Cantareira – e poderá ver Alckmin, com sua postura inimputável, argumentar que apenas seguiu as orientações da agência reguladora (posição que já externou todas as vezes em que as medidas com relação à crise da água eram potencialmente negativas, como a redução da vazão do sistema e a multa para o excesso de uso). Se não autorizar, também sofrerá esse procedimento de transferência de responsabilidade tão recorrentemente adotado pelo Governo de São Paulo (dessa vez, no caso, a respeito de um inevitável racionamento). E a imprensa, é claro, diria que a eventual atitude da ANA seria “eleitoreira”. O que fazer, quando são tantos os atores envolvidos e intervenientes (como a nossa mídia) e a vocação republicana de quase todos eles é tão frágil?

Do Estadão

 
FABIO LEITE 

Sabesp já retirou 23% dos 182,5 bilhões de litros do chamado ‘volume morto’ do principal sistema de abastecimento de água da Grande São Paulo

SÃO PAULO – Com déficit de 47 bilhões de litros em um mês, o nível do Sistema Cantareira caiu para 19,6% da capacidade neste sábado, 5, já considerando o chamado “volume morto” das represas. Desde o dia 16 de maio, quando a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) começou a contabilizar o acréscimo de 182,5 bilhões de litros da reserva profunda, o principal manancial paulista já perdeu 7,1 pontos porcentuais no nível de armazenamento. 

Até agora, a concessionária já retirou 41,7 bilhões de litros do “volume morto”, ou 23% do total. Segundo estimativa feita pela própria Sabesp, se a quantidade de água que chegar ao Cantareira nos próximos meses for igual a 50% das mínimas históricas registradas no sistema, a reserva profunda pode acabar no dia 27 de outubro. Em junho, por exemplo, a vazão afluente ao manancial foi 53,8% menor que a pior da história para o mês. Nesses cinco primeiros dias de julho, o índice está 78,6% abaixo da vazão mais baixa já registrada em 84 anos.

Apesar do cenário crítico, a Sabesp afirma que o abastecimento de água na Grande São Paulo está garantido até março de 2015 sem precisar adotar o racionamento de água generalizado. Segundo a empresa, isso será possível graças à redução de 34% no volume de água retirado do Cantareira obtida com a economia feita pela população, redução de pressão na rede durante a noite e a reversão de água de outros sistemas para bairros da capital que eram atendidos pelo manancial em crise de estiagem.

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15 Comentários
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  1. IV AVATAR

    7 de julho de 2014 12:20 pm

    Burrocracia tucana

    Se Alckmin morrer a TV Globo vai passar todo o dia  exibindo musicas fúnebres antes de dar a notícia

  2. Assis Ribeiro

    7 de julho de 2014 12:36 pm

    Civilizações foram extintas por exaurimento de recursos naturais

    Vamos lembar que algumas civilizações foram extintas por exaurimento de recuros naturais.

    Foto de Assis Ribeiro.

     

  3. Assis Ribeiro

    7 de julho de 2014 12:39 pm

    “Mea culpa”? “o que é que o Governo Federal fará?”

    Se autorizar a retirada, garantirá o abastecimento de água à população paulista por mais dois meses, mas referendará a falência do Sistema Cantareira – e poderá ver Alckmin, com sua postura inimputável, argumentar que apenas seguiu as orientações da agência reguladora (posição que já externou todas as vezes em que as medidas com relação à crise da água eram potencialmente negativas, como a redução da vazão do sistema e a multa para o excesso de uso). Se não autorizar, também sofrerá esse procedimento de transferência de responsabilidade tão recorrentemente adotado pelo Governo de São Paulo (…). E a imprensa, é claro, diria que a eventual atitude da ANA seria “eleitoreira”. O que fazer, quando são tantos os atores envolvidos e intervenientes (como a nossa mídia) e a vocação republicana de quase todos eles é tão frágil?

  4. vera lucia venturini

    7 de julho de 2014 12:43 pm

    É nóis!!! Alckmin eleito no

    É nóis!!! Alckmin eleito no primeiro turno!!!

    E o Nordeste é que é atrasado politicamente….

  5. IV AVATAR

    7 de julho de 2014 12:51 pm

    .

    Resultado da política  tucana do estado mínimo para o povão e máximo para o barão: Toda a grana da Sabesp foi desviada e uma parte foi para acionistas,,,,nenhum centavo foi investido tendo em vista a necessidade do povo  de beber, tomar banho,…por trás disso,  a mídia blindando o PSDB

  6. Jorge Luis

    7 de julho de 2014 12:55 pm

    Nem falo mais nada. Se

    Nem falo mais nada. Se Alckmin der um jeito de faltar ar e luz do sol em SP, os paulistas ainda vão votar nele.

    1. Lucinei

      7 de julho de 2014 2:28 pm

      Pois é. É tudo culpa do pt.

      Pois é. É tudo culpa do pt.

  7. Motta Araujo

    7 de julho de 2014 1:15 pm

    O inacreditavel é NÃO EXISTIR

    O inacreditavel é NÃO EXISTIR NENHUM PROJETO de aumento da captação de agua nas grandes represas do Estado de São Paulo, que tem agua para dez São Paulo, basta colocar canos para trazer a agua, é apenas uma questão de investimento. Porque será que é tão dificil? Canos com bombas, assim fazem as grandes cidades americanas, a agua vem de muito longe, a de Los Angeles vem do vale do Sacramento a 650 quilometros de distancia, a de Nova York vem de nove reservatorios, alguns a 300 quilometros e ainda tem uma captação rponta, de reserva, no Rio Delaware. Dá para trazer agua para os quatro reservatorios do sistema Cantareira de 2oo qilometros de distancia, da represa de Jurumirim em Avaré ou da represa de Barra Bonita, um projeto relativamente simples e impostergavel, a escassez do suprimento de agua para a grande São Paulo não é um fenomeno acidental, é permanente, o sistema Cantareira é insuficiente para as necessidades de agua da região.

  8. Assis Ribeiro

    7 de julho de 2014 1:16 pm

    O problema não é apenas a

    O problema não é apenas a falta de chuvas.

    O sistema Cantareira, nos moldes atuais, entrou em colapso.

    Isso quer dizer que não suporta mais a relação produção/consumo. Há muitos anos que o consumo de água das bacias que abastecem a região metropolitana  excede ou fica no limiar da sua própria produção hídrica.

    E se não está pior agradeçam à política de Dilma e Lula que transferiram a entrada de novas indústrias para a região nordeste. Na última década, por exemplo, o fluxo de imigrantes na Grande São Paulo caiu e muitos que um dia foram para SP estão retornando.

    Reclamem da falta de estratégia e de políticas de médio e longo prazo dos governos do PT.

    1. jura

      7 de julho de 2014 2:25 pm

      Galinha dos ovos de ouro

      Sim, São Paulo se desindustrializou e a população diminuiu. O sistema Cantareira não foi feito para abastecer indústrias e o crescimento populacional ficou abaixo do previsto.

      A única indústria que não para de crescer na região metropolitana é a construção civil. E adivinha o que mais ela consome além de areia e cimento? Coincidência? E ela explodiu exatamente durante a gestão Serra/Kassab, quando o plano diretor que deveria regular esse crescimento, foi sucessivamente adiado.

      Água tratada, clorada e fluoretada para consumo humano, caríssima e vendida a preço vil para fazer concreto. Por que o tratamento de esgotos – cobrado do consumidor – é baixíssimo e incapaz de produzir água semi-tratada para uso industrial.

      A Sabesp tornou-se uma máquina de fazer dinheiro para os acionistas. Secou até a fonte e matou a galinha dos ovos de ouro.

      1. L@!r M@r+35

        7 de julho de 2014 8:58 pm

        Ou seja, tudo se resume a

        Ou seja, tudo se resume a falta de planejamento para suportar o crescimento populacional.  Esse mesmo padrão se vê nos transportes.  Alckimin está há 18 anos no poder em São Paulo, sendo que 12 ele é chefe no governo.  Incompetente pintado de ouro pela imprensa paulista.

        Esse é o meu maior medo quando eles voltarem ao poder: Fazerem absurdos sem a cobertura da imprensa.

  9. jura

    7 de julho de 2014 2:16 pm

    Duchinha grátis pra quem?

    Até quando a Sabesp vai continuar subvencionando a “duchinha grátis” nos postos de gasolina…?

    Quando faltar água na banheira do motel o PSDB acaba.

    1. Ataíde Coutinho

      7 de julho de 2014 2:41 pm

      Os moteis compram agua de

      Os moteis compram agua de empresas que exploram o lençol freatico ,sai muito mais barato !

  10. sergiorgreis

    7 de julho de 2014 2:35 pm

    No Estadão de hoje

    O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,cantareira-tem-apenas-25-de-chance-de-se-recuperar-apos-o-proximo-verao,1524640

    Não consigo compartilhar aqui, mas o Estadão de hoje traz mais matérias sobre o Cantareira. Na reportagem principal, mais uma vez, há alguns erros factuais (numéricos, principalmente) relevantes (já que mistura percentuais totais do Sistema Cantareira contando-se ou não com o volume morto), mas dá para ter uma ideia da imensa gravidade da situação. Em síntese, mostra que a chance de o Cantareira se recuperar após o próximo verão é de apenas 25%. E o sentido de “recuperar” é, para mim, bastante leniente, porque consideraria adequado, para tanto, que o sistema estivesse com 37% da sua capacidade útil em Maio do ano que vem – o que forçaria, do mesmo jeito, ou o racionamento ou o uso, novamente, do volume morto em Outubro de 2015.  Cantareira tem apenas 25% de chance de se recuperar após o próximo verão: http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,cantareira-tem-apenas-25-de-chance-de-se-recuperar-apos-o-proximo-verao,1524640  

  11. sergiorgreis

    7 de julho de 2014 4:17 pm

    TV UOL

    Volume morto não garante água na periferia de SP: http://tvuol.uol.com.br/video/volume-morto-nao-garante-agua-na-periferia-de-sp-04024D1B356CC0895326/

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