
Nas Asas dos Bordões (Saladesom Records) é o segundo CD do compositor Fred Falcão. Com arranjos, direção musical e produção do ótimo pianista Fernando Merlino, o álbum traz uma pequena parcela da atual produção de Falcão.
Contando com grandes instrumentistas, o trabalho é uma cooperativa em prol da música – músicos demonstrando respeito às composições e ao compositor, deixando nítida sua entrega a eles.
“Maré Cheia” (Fred Falcão) tem como intérprete Thaís Motta. Com voz límpida, feito um raio de luz que se esgueira por entre as nuvens, ela doa sua afinação à canção. O Quarteto Radamés Gnatalli, integrado por Carla Rincón e Andréia Carizzi (1º e 2º violinos, respectivamente), Fernando Thebaldi (viola) e Hugo Pilger (cello), junto com o flugelhorn (José Arimatéa), encorpa o arranjo de Merlino.
“Bossa Nossa” (FF e Carlos Henrique Costa) é cantado pelo sexteto misto Bebossa com arranjo vocal de Zeca Rodrigues, arranjo que é muito bem cantado pelo grupo, tem belo intermezzo da gaita de Rildo Hora e é apoiado pelo violão de Lula Galvão, pelo baixo de Jamil Joanes e pela bateria de Erivelton Silva. O Bebossa, afinado grupo ao qual eu ainda não havia dado atenção, também canta, de FF e Carlos Henrique Costa, “Liver Paul”, e “Sertão Brasil”(FF e Arnoldo Medeiros), os três com arranjos vocais muito bem elaborados.
“Alô Donato” (FF), com arranjo de Fernando Merlino, é cantado pelo próprio Fred e tem Júlio Merlino (sax soprano), José Arimatéa (flugel) e Gilmar Ferreira (trombone). Não, Fred não é um bom cantor, mas canta com tamanha franqueza que chega a comover.
Thaís canta “Abre as Comportas” (FF). Mesmo numa tonalidade bastante alta para ela, seus agudos brilham e um glissando preciso faz arrepiar. A melodia é bela, o quarteto de cordas nutre o arranjo de Merlino. Ele faz um belo intermezzo de piano. A percussão (Marçalzinho), o violão (Léo Amuedo), a bateria (Erivelton) e o baixo (Jamil) dão sustança ao solo.
Ninguém poderia cantar “Candelabro” (FF e Paulo Renato) senão Márcio Gomes. Com voz empostada de seresteiro, daquelas que quase dispensam um microfone, ele conta ainda com a luz do violão de Carlinhos Sete Cordas, do bandolim de Márcio Hulk e do Quarteto Radamés Gnatalli.
No CD, Thaís Motta canta sete canções, sendo uma em duo com Falcão, “Brincando de Pega” (FF), e “Modern Sound” (FF e Carlos Henrique Costa). Mas ela arrasa mesmo é em “Ato Final” (FF e Carlos Colla), a música mais bela do CD. Nela as cordas se unem ao acordeom de Marcelo Caldi e resultam em sonoridade ímpar. A letra de Carlos Colla canta: Representei/ Uma atriz não faria melhor/ Me superei/ Num papel que eu sabia de cor/ Batam palmas pra mim/ Teu quarto foi meu camarim/ Representei na cama/ O meu ato final.
São quinze músicas (uma delas instrumental) que expõem a sabedoria musical de Fred Falcão, um compositor com muita bagagem e anos de estrada, mas infelizmente pouco conhecido por quem ama a música brasileira de qualidade.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
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