do Observatório de Geopolítica
Ano Novo em Delfos
por Felipe Bueno
Fossem outros os tempos, épocas em que as relações internacionais davam-se basicamente por meio de idas e vindas pelo Mar Mediterrâneo, poderíamos buscar informação e orientação no oráculo do deus Apolo em Delfos, cidade então considerada o centro do universo, pelo menos pelos posteriormente entendidos como pais da civilização ocidental.
Fôssemos seres humanos preocupados com o futuro, perguntaríamos por exemplo sobre as quedas das cidades-Estado gregas, sobre os limites dos impérios Macedônico e Romano, ou se as tais “invasões bárbaras” realmente arruinariam ou na verdade reconstruiriam a boa e velha Europa.
Hoje as perguntas são outras, mas certamente não menos preocupantes.
Não sabemos ainda de maneira segura como anular a força magnética que atrai a bússola de nações supostamente civilizadas para a extrema-direita da rosa dos ventos da humanidade.
Posta esta questão teórica, sua derivação prática é a manutenção, na superfície, de novos e velhos nomes que não deveriam fazer parte de nenhum debate político sério, mas ainda estão aí, produzindo barulho e gerando séquitos na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina, em Israel, no Oriente Médio, na África.
Em si esses nomes não teriam importância. O problema é que seus seguidores têm direito a voto.
Holanda e Argentina, países que nós brasileiros invejamos por diversas razões, são os mais novos integrantes do universo da intolerância, do radicalismo e do preconceito.
Nada nos permite achar que serão os últimos.
Tudo isso num planeta que ainda tem muitos problemas a resolver. Alguns exemplos:
- A transformação do Mercosul em um bloco real de nações continua sendo um sonho noventero.
- O esgarçamento das ligações que unem as nações europeias segue sendo uma ameaça.
- O desentendimento econômico e social entre nações africanas, produto do contato com a “civilização” europeia branca há séculos, ainda cobra seu preço.
- O Oriente Médio insiste em permitir sua autodestruição.
- Israel permanece exercendo seu terrorismo de Estado contra os palestinos. E se você acha isso, pobre ser humano, alguém estará pronto para te chamar de antissemita para o resto de sua existência.
Para desalento de quem ainda hoje busca orientação na vida, o templo de Delfos há tempos não passa de ruínas e o deus Apolo, coitado, saiu de moda. Os oráculos, no entanto, existem aos montes, e nosso papel segue sendo diferenciar os falsos dos confiáveis. Continuaremos nesta luta em 2024.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
Deixe um comentário