Por Jair Fonseca
Lampião, o Rei do Cangaço reune as imagens registradas pelo mascate Benjamin Abrahão, entre 1936 e 1937, e que miraculosamente sobreviveram à censura e depois ao tempo. O cinegrafista é o paisano que aparece algumas vezes. O filme não tem música, nem entrevistas pois não havia som direto. Quem quiser que coloque trilha musical, mas adianto que as imagens falam por si. E que se assista o curta até o fim.
Assis Ribeiro
21 de junho de 2014 3:14 pmMuito bom
Jair, sempre com excelentes dicas de documentários e filmes.
Jair Fonseca
21 de junho de 2014 3:38 pmValeu, Assis.
As imagens do principal grupo de cangaceiros registradas por Benjamin Abrahão, exemplo de coragem da parte do mascate, apresentam qualidades estéticas extraordinárias, ainda mais se considerarmos que ele era cinegrafista amador. Entre elas, o modo como dirige a encenação do cotidiano feita pelos próprios cangaceiros, os diversos tipos de tomadas que faz, dos close-ups aos planos gerais.
Leandro A.
21 de junho de 2014 3:50 pmOutro mundo. De tão trágico
Outro mundo. De tão trágico chega a ser poético. Com simples fuzis, munição limitada e poucos homens, quase deram por liquidada a ordem no sertão.
Alisam os cães, buscam água, rezam, vivem num eterno campo de batalha e de privações. Precariedade quase total, e mesmo assim deram trabalho aos “sicários da casa grande”, a ordem dos coronéis. Sempre que converso com os nordestinos eles falam do cangaço como uma realidade mágica, uma saga épica, e a película explica um pouco. Devem ter tido apoio popular, senão não teriam durado tanto.
Jair Fonseca
21 de junho de 2014 6:33 pmPois é, Leandro,
Trágica e poética realidade violenta. A vida aventurosa e livre aparecia como alternativa a quem vivia num mundo injusto, cuja lei era a submissão aos grandes donos da terra. Claro que os cangaceiros também duraram um pouco mais por também eventualmente apoiarem alguns coronéis menores, mas sobreviveram bem mais pelo fascínio lendário que exerciam junto aos mais pobres, sempre injustiçados. Daí a série enorme de poemas de cordel e de cantorias no Nordeste produzidas a seu respeito e a posterior fornada de centenas de filmes sobre os cangaceiros, cuja indumentária e aspecto físico eram muito criativos e vistosos, bem mais do que a do western, por exemplo. Nossos cineastas não precisaram inventar nada em termos do visual dos atores: era só copiar ou se inspirar na iconografia dos cangaceiros reais.
Jair Fonseca
21 de junho de 2014 6:21 pmSabe-se da importância do
Sabe-se da importância do filme de Benjamin Abrahão para a iconografia do cangaço nos extraordinários filmes de Glauber Rocha sobre o tema. Seu assistente em Deus e o Diabo na Terra do Sol, o baiano Paulo Gil Soares lançou em 1964, mesmo ano do lançamento de Deus e o Diabo, Memória do Cangaço, primeiro documentário sobre a questão, que utiliza as extraordinárias imagens de Abrahão, contrapostas aos depoimentos dos matadores de cangaceiros e cortadores de suas cabeças. Estas ficaram por muito tempo expostas em museus e universidades, e – pasmem – só foram enterradas em 1969! Sobre a barbárie de supostos cientistas, veja-se o depoimento ridículo do professor de medicina legal na Universidade (Federal) da Bahia, no início do curta, abaixo. Contrapõem-se a elas, imagens do povo nordestino e a fala do narrador.
[video:https://www.youtube.com/watch?v=giZLHCRriqw%5D