4 de junho de 2026

A geopolítica do Sul pensada a partir da Bolívia

Enviado por CyroVelho

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Da ALAI, América Latina en Movimiento

Pensando a geopolítica do Sul a partir da Bolívia

Encontro dos G77 + China

Katu Arkonada

“Só a união nos falta para completar a obra da nossa regeneração”

Simón Bolívar

“O mundo está ameaçado pela hegemonia do império americano, que busca acabar com o planeta. Somente unidos, com base em nossa consciência, a nossa coragem, a nossa vontade, podemos conseguir o que Simon Bolívar, libertador, chamou de “o equilíbrio do universo”, ou seja, um mundo multipolar. O mundo aceita vários pólos, e este mundo está se levantando. Daí a nossa solidariedade com as lutas em outras partes do mundo, com a luta pela libertação e dignidade.”

Hugo Chávez – Discurso na Sétima Cimeira da União Africana, República da Gâmbia 01 de julho de 2006

O grupo G77 + China, que agora conta com a participação de 133 países membros da ONU, está comemorando seu 50 º aniversário em 2014 com a Bolívia e Evo Morales como presidente.

Em 14 e 15 de junho vão se reunir em Santa Cruz de la Sierra os representantes de 133 países, incluindo cerca de 35 chefes de Estado da América Latina e Caribe, África e Ásia.

Mapa geopolítico

Dentro do G77 + China se reunirão dois blocos de suma importância geopolítica, primeiro a ALBA com a participação confirmada Raul Castro (Cuba), Rafael Correa (Equador) e Nicolás Maduro (Venezuela), em um momento em que é mais importante do que nunca o apoio e a solidariedade com a revolução bolivariana; e em segundo lugar os BRICS, do qual só faltará a Rússia mas terá representantes de alto nível da China, Índia, África do Sul e do Brasil.

Os BRICS, que respondem por 42% da população do mundo, e mais de 20% do PIB global, são fundamentais na transição do mundo unipolar que estamos imersos para um mundo multipolar. Os últimos movimentos no tabuleiro do xadrez geopolítico, o papel desempenhado na crise Síria ou na Ucrânia, o acordo energético recente entre a China e a Rússia de 400.000 milhões de dólares, e o poder econômico emergente do Brasil em que se encontra a maior parte da Amazônia, testemunham isso.

É importante o papel a desempenhar pelo G77 + China, uma vez que desde a Conferência de Bandung (Indonésia, 1955), que reuniu 29 países da África e da Ásia, muitos deles em processo de descolonização e independência e foi a semente do nascimento do Movimento de Países Não-Alinhados, não houve qualquer tentativa de formar um grupo para gerar um contrapeso à hegemonia do Norte capitalista também traduzido em um domínio sobre o sistema das Nações Unidas, o organismo que em algum momento deve ser reformado, ou melhor ainda, substituído por um mais democrático.

Contribuições do G77

Dentro da história e das ações do G77 + China, destacam-se três grandes contribuições que se relacionam intrinsecamente com a Diplomacia dos Povos sendo desenvolvidas pelo Estado Plurinacional da Bolívia na arena internacional, em geral, e das Nações Unidas, em particular:

– Em 1974, quando comemorava 10 anos de sua criação, o G77 conseguiu que as Nações Unidas aprovasse a “Declaração sobre o Estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional” que tinha de ser baseada na equidade, a igualdade, a soberania, a interdependência, o interesse comum e cooperação de todos os Estados, independentemente de seus sistemas econômicos e sociais. Declaração importantíssima pois que veio questionar a idéia de que o sistema capitalista era o único sistema econômico possível.

– Em 1986, foi promovida nas Nações Unidas a “Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento”, que defende o direito ao desenvolvimento em países pobres e em desenvolvimento como elemento central, junto aos direitos humanos. Além disso, esta declaração refere-se à descolonização, à auto-determinação dos povos e uma reivindicação central dos países em desenvolvimento como é o reconhecimento da plena soberania de seus povos sobre seus recursos naturais.

– Finalmente, nas várias cimeiras sobre desenvolvimento e mudança climática, o G77 + China fornece dois elementos-chave na abordagem da crise do clima, que é parte da crise do capitalismo: a responsabilidade comum, mas diferenciada entre países do Norte e do Sul, bem como a responsabilidade histórica que tem a ver com a dívida climática que os países desenvolvidos do Norte e capitalista adquiriram com o sul.

Geopolítica do Sul

Ao pensar sobre os resultados do encontro G77 + China, a ser realizado na Bolívia e de alguma forma a ser refletido no documento final devemos estar cientes de que, se estamos construindo uma transição pós-neoliberal, nossas relações internacionais também deve ser pós-neoliberais.

Primeiro é necessário aprofundar as relações Sul-Sul, gerando una desconexão política, econômica e de modelos de desenvolvimento com o Norte capitalista. O Comandante Chávez, ao assumir a presidência do Grupo dos 77 em janeiro de 2002, comparava o mundo (artificialmente dividido em vários mundos) com um Titanic, onde os passageiros podem ser de primeira ou o segunda classes, mas, se o navio afunda, todos nós afundamos com ele. Não podemos permitir que o capitalismo afunde este planeta arrastando ao fundo todos os povos do mundo.

Estas relações Sul-Sul também devem ser baseadas nos princípios da ALBA, onde deve prevalecer a complementaridade e solidariedade acima da competição.

E para aprofundar estes princípios devemos nos utilizar de uma ferramenta sugerida por Chávez em seu discurso de entrega da presidência do G77 em janeiro de 2003, a criação de um Fundo Humanitário Internacional para combater realmente a pobreza, a fome, a desertificação, e as doenças endêmicas; em suma, para combater a morte. Fundo que poderia ser financiado com um percentual da dívida externa (eterna como diz Fidel), outro percentual dos gastos militares, e um imposto global sobre transações especulativas. O Banco do Sul deveria tornar-se um Banco Sul-Sul.

Outro pilar na história do G77 é a descolonização e, nesse sentido, é urgente responder às situações neocoloniais no caso da América Latina o que envolve a recuperação da soberania sobre as Ilhas Malvinas, Porto Rico, Guantanamo e resolver a situação da negação do acesso da Bolívia ao oceano Pacífico. A descolonização também deve adicionar interculturalidade, para disputar a hegemonia do capitalismo no campo cultural.

E ao falar sobre a cultura, não podemos esquecer, com tudo o que está acontecendo na Venezuela, a necessidade da disputa também no campo da comunicação. O terrorismo informativo deve ser combatido com o fortalecimento das mídias contra-hegemônicas, do Sul e para o Sul, como a Telesur ou HispanTV.

Finalmente, devemos refletir o espírito da Declaração de Havana feita pela CELAC em 2014 declarando a América Latina como uma Zona de Paz. Devemos promover uma Geopolítica Sul-Sul de Paz, que passa pela desmilitarização dos nossos países, que deve ser livre de bases militares norte-americanas e que rejeite a espionagem e interferência sobre terceiros países.

Tudo em busca da justiça social, que é o caminho para a liberdade dos nossos povos. Disse Chávez citando Bolívar em 2002 quando ele assumiu a presidência do G77: “Façamos triunfar a justiça que triunfará a liberdade.”

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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