10 de junho de 2026

Bob Cuspe e a entropia ocidental, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Cínicos, Estoicos e Epicuristas defendiam seus pontos de vista sem se preocupar se iriam ou não desagradar seus interlocutores ou a plateia.

Bob Cuspe e a entropia ocidental

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por Fábio de Oliveira Ribeiro

Segundo o jornalista Luis Nassif, muitas pessoas no governo Lula se esforçam muito para agradar a Faria Lima. Ao rever isso, lembrei da queda do CEO da Boeing, empresa de engenharia cuja credibilidade foi destruída porque nas últimas décadas se limitou a agradar acionistas gananciosos. A imprensa brasileira ataca ferozmente o governo Lula porque a Petrobras se recusou a agradar os especuladores.

Na última entrevista Zizek que vi no YouTube o filósofo tenta ser engraçado num mundo desgraçado. Ele agradou a entrevistadora apoiando o envio de tropas francesas para a Ucrânia, algo que tem potencial para desencadear uma guerra nuclear.

Num mundo em que o capitalismo neoliberal e os donos do dinheiro não podem ser desagradados, as escolhas à disposição do público são igualmente desanimadoras: guerra nuclear, eventos climáticos catastróficos ou ambos juntos e misturados.

O caso de Zizek é grave. Ele já é incapaz de admitir os fatos: a OTAN não é uma organização defensiva e a Rússia tem razões históricas para repelir a proximidade dessa organização que já deveria sido desmantelada quando o Pacto de Varsóvia deixou de existir.

Zizek disse à que a verdade está lá fora, mas se colocou dentro do grupo de inimigos mortais da maioria dos russos que elegeu Vladimir Putin. Colocar a filosofia a serviço de uma guerra nuclear é um paradoxo risível, mas ao que parece o filósofo esloveno se rendeu à magia de um sistema de poder que não aceita verdades desagradáveis. Ele sabe que será ignorado pela mídia se desrespeitar a principal regra do jogo?

Ao ver a entrevista mencionada cheguei à conclusão que Zizek se tornou uma criatura da mídia, totalmente viciado em receber a atenção de jornalistas. Ele é capaz de matar a filosofia para ter visibilidade. O problema: numa guerra nuclear o público dele será exterminado e todos os meios de produção de visibilidade serão destruídos.

E já que estamos falando de filosofia, pode-se dizer aqui em apertada síntese que os Cínicos e os Epicuristas riam da predileção dos Estoicos por uma seriedade quase trágica envolta em severa moralidade. Mas apenas os Epicuristas eram adeptos da vida boa e confortável. Como os Estoicos, os Cínicos não se importavam muito com as privações econômicas e até preferiam-nas ao luxo. O princípio do prazer era valorizado por Epicuristas e Cínicos e recusado pelos Estoicos.

Nenhuma dessas três escolas filosóficas deu muita importância para a política. Cínicos a rejeitavam como produto artificialmente criado pelos homens. Estoicos aceitariam a política apenas se pudessem moralizá-la. Pragmáticos os Epicuristas podiam conviver bem com qualquer tipo de regime político.

Cínicos, Estoicos e Epicuristas defendiam seus pontos de vista sem se preocupar se iriam ou não desagradar seus interlocutores ou a plateia. O jornalista brasileiro Luis Nassif desafia o consenso neoliberal fazendo jornalismo e valorizando a teoria econômica desprezada pelos especuladores e seus “canetas” na imprensa.

Submisso à regra do jogo, Zizek se distingue dos Cínicos, Estoicos e Epicuristas e do editor do Jornal GGN porque se esforça para agradar a mídia neoliberal. Nisso o famoso filósofo se parece mais com o CEO da Boeing e com os membros do governo Lula que abandonaram a plataforma política e econômica desenvolvimentista para não desagradar a Faria Lima e a imprensa tupiniquim.

Advogado há mais de três décadas aprendi que não é possível representar interesses que são objeto de intensa resistência sem uma saudável disposição para ser desagradável. Minha missão profissional é obter o melhor resultado possível e para fazer isso tenho que desagradar os advogados adversários, promotores e até os juízes. Endurecido por minha profissão sou obrigado a considerar o mundo neoliberal uma excrescência dominada pela hipocrisia que só consegue acelerar a entropia empresarial e estatal.

Confesso que apreciava a obra de Zizek. Felizmente não preciso agradá-lo e posso dizer que doravante pretendo ignorar tudo que ele tem a dizer sobre a realidade mundial. Ficarei melhor em companhia dos filósofos Cínicos, Estoicos e Epicuristas.

Algumas vezes é preciso demonstrar desprezo peidando como um Cínico diante de alguém autoritário e desagradável. Outras vezes é preciso zombar das próprias tragédias pessoais bebendo e comendo como um bom Epicurista. A melhor maneira de lidar com os Estoicos modernos é reforçar as crenças deles para que eles se tornem mais severos consigo mesmos até se tornarem menos felizes.

O mundo neoliberal é um palco em que todos querem ser aplaudidos e os poderosos desejam apenas ser agradados? Melhor cuspir nesse teatro de malucos. Vida longa ao Bob Cuspe. Afinal, ao que parece os velhos personagens de HQ se tornaram mais reais do que a própria realidade.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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2 Comentários
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  1. RUBENS AGUIAR PADIAL

    30 de março de 2024 6:09 pm

    Agradar a Faria Lima fica barato.
    Pior é subsidiar o AGROÉTECAGROÉPOPAGROÉTUDO com 365 bilhões de Plano Safra 2023. Valor maior que o orçamento da saúde ou da educação.
    Isso representa R$ 165,00 por mês extorquido de cada brasileiro para subsidiar latifundiários incompetebtes.

  2. Ricardo

    30 de março de 2024 7:57 pm

    Obrigado pelo texto e referência a essas correntes filosóficas. E também, a referência ao Bob Cuspe, do craque Angeli. Benditos seja m os artistas, entidades maravilhosas, com o dom de ver/sentir o que muitos temos dificuldade. Abraço e feliz Páscoa.

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