4 de junho de 2026

O discurso conservador e ultra-ideológico de Javier Milei em política exterior

Os “libertários” desconfiam da política exterior ativa, não acreditam em regimes internacionais e aspiram a uma ordem global sem regulação.

O discurso conservador e ultra-ideológico de Javier Milei em política exterior

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por Maíra Vasconcelos

Especial para Jornal GGN

A ultra-ideologia tem prevalecido em matéria de política exterior no governo dos “libertários”. Desde a campanha eleitoral, Javier Milei acumula insultos, agressões e declarações disruptivas contra governos e mandatários de esquerda ou centro-esquerda, que julga serem “socialistas” e “comunistas”. Chamou o presidente Lula da Silva de “corrupto” e “comunista”, em novembro do ano passado. Em janeiro deste ano, Milei publicou o twitter de um seguidor, que gerou ao menos incômodo com os chineses. “”A esquerda quer para você: o salário de Cuba, a liberdade da Coreia do Norte, a justiça da China e a abundância da Venezuela”. Desde que assumiu a presidência, o extremista não manteve ainda nenhuma comunicação direta com Xi Jinping, nem com Lula. A China é o maior sócio comercial da Argentina, seguido do Brasil.

Em recente entrevista a um canal de televisão estadunidense, Milei voltou a declarar seu favoritismo por Donald Trump e que considera o país “um aliado”. Elogiou as características político-ideológicas do ex-presidente e atual candidato a ocupar a Casa Branca, “o valorizo (Trump) por como ele entende a batalha cultural, e que o inimigo é o socialismo, o estatismo e o coletivismo”.

O discurso de Milei prima pela escassez de uma narrativa sobre os problemas que a comunidade global enfrenta. Mesmo os países liberais levam a cabo uma política acorde com as mudanças climáticas, por exemplo, uma agenda de discussão sobre políticas de energia alternativa e descarbonização**. A Argentina de Milei se encontra no rumo contrário dessas discussões, ao profetizar que a mudança climática é uma falácia, e também ao não sugerir qualquer iniciativa em favor da inclusão desses assuntos em sua agenda internacional. 

Muito pelo contrário, o economista conhecido também pela relação, digamos, excêntrica com seus “filhos de quatro patas”, como se refere a seus quatro cachorros clonados, tem se caracterizado por manter um discurso raso sobre assuntos internacionais. Os “libertários” desconfiam da necessidade de uma política exterior ativa, não acreditam em regimes internacionais e aspiram a uma ordem global com menor regulação. Como ressaltado pelo professor da “Universidad de San Andrés”, Federico Merke, no artigo, Entre el dogma y el interés*. Por isso, ignoram então a importância das organizações internacionais, ao mesmo tempo que, contraditoriamente, declararam interesse em ingressar à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)*.

Em linhas gerais, o governo Milei demonstra apoio incondicional aos Estados Unidos, a Israel e a Ucrânia, além de seu expresso sentimento anti-China. No caso da China, se a relação permanece tensa, fala-se da possibilidade de o país limitar a compra de soja. Mesmo que a Argentina possa substituir essa demanda, isso não seria tão fácil, no curto prazo, devido ao volume do mercado chinês, segundo comentou a pesquisadora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), Gisela Pereyra Doval, em seu artigo Occidentalismo y diplomacia virtual*

Sobre Israel, vale comentar que este foi o país escolhido por Milei para sua primeira visita internacional como chefe de Estado, quando expressou seu apoio em relação à guerra em Gaza; que já matou 34.844 mil palestinos, e outros 78.404 mil feridos. Durante a visita, o presidente confirmou sua intenção de mudar a embaixada argentina de Tel Aviv a Jerusalém, assim como fez Trump, em 2018.

A ultra-ideologização do governo se vê também, por exemplo, na decisão de sair dos BRICS, nem bem iniciado o governo. Com o argumento de que o bloco é político, quer dizer, menos orientado à economia. No entanto, o próprio governo atua em consonância com líderes como os presidentes da Ucrânia, Volodimir Zelenski, e de Israel, Benjamin Netanyahu, em um aceno de tom meramente político, já que essa mostra de aliança não representa um ganho para a economia argentina. A construção da política exterior do governo de ultradireita tem se mostrado como uma dessas áreas onde o conservadorismo tem ganhado do tão proclamado libertarismo.

A postura de desinteresse em relação aos laços do país junto a propósitos de cunho internacional, poderia ser explicado pelo fato de que Milei está ocupado com os assuntos da economia local. Sendo essa uma de suas principais preocupações, segundo declarações do próprio presidente. E as promessas de diminuição da inflação, de ajuste fiscal e equilíbrio das contas públicas, foi o que em grande medida catapultou Javier Milei à presidência.

A chanceler agropecuária Diana Mondino

Durante a campanha eleitoral de 2023, a economista e produtora agropecuária Diana Mondino já era cogitada ministra de Relações Exteriores. Apesar da postura de Milei em política exterior, Mondino guarda algumas diferenças sobre como tem conduzido a agenda do ministério. Como ressaltado pelo professor Federico Meker, a chanceler tem se mostrado “muito focada em ampliar os vínculos comerciais e a rede de investidores globais”.

Em fevereiro, enquanto o ministro da Economia Luis Caputo tentava renegociar o swap (como fixação de taxas de juros entre credores e devedores) com a China, Mondino deu uma declaração que complicou as relações. “Nem com a China, nem com qualquer outro país, teremos esses acordos comerciais entre Estados. As empresas privadas podem fazer o que quiserem dentro das regras do nosso país e do país com os quais fazem negócios”.

Por outro lado, fora das questões de chancelaria, Mondino tem opinado sobre questões sociais, o que poderia passar como falas polêmicas, como categorizou o jornal Clarín, se não fossem homofóbicas e xenófobas. Em novembro do ano passado, Mondino comparou o matrimônio gay com o fato de se ter piolhos. Em outra ocasião, em um dos programas de televisão mais populares da Argentina, conduzido pela mítica apresentadora Mirtha Legrand, a chanceler foi contra os aposentados, ao comentar sobre um suposto caso de corrupção no órgão público responsável pela gestão das aposentadorias e pensões, Administração Nacional de Segurança Social (ANSES). “Isso também é absurdo, pois, por definição, todos nós vamos morrer um dia e, se você for aposentado há não sei quantos anos, com certeza vai morrer”, disse.

Mas, voltando às relações exteriores, se os “libertários” têm afirmado a necessidade de reforçar uma agenda econômica, e assim distanciar-se de propósitos políticos, Mondino também teve suas declarações contraditórias a esse respeito, quando disse que “a Argentina deve priorizar as relações políticas com “democracias liberais””. Como lembram as autoras do artigo Las nuevas ropas del emperador**. E a afirmação foi proferida, nada menos, que após uma visita à República Socialista do Vietnã.

Parece que a construção de uma política de relação exterior ainda está em aberto e com estratégias ainda difíceis de serem identificadas, ou apenas confusas, como dito por analistas citados neste texto. Enquanto isso, internamente, a chanceler derrapa, ou apenas reforça com suas declarações anti-direitos sociais a batalha cultural dos “libertários”, e o extremista Javier Milei se abraça com líderes como Trump, Zelenski e Netanyahu, levando à frente alianças políticas em pleno período de guerra.  

*Fonte: todos os artigos citados são da edição de abril do jornal Le Monde Diplomatique, Cone Sul.

**Las nuevas ropas del emperador, por Martín Schapiro e Agostina Dasso; ex-subsecretário de Assuntos Estratégicos do governo; Mestre em Política e Economia Internacional, pela Univ. de San Andrés, doutoranda na Universidade de Princeton.

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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  1. Jicxjo

    11 de maio de 2024 8:39 am

    Em resumo, os argentinos defecaram na urna com força. Ideologia rasteira travestida de “pragmatismo econômico”. É a doutrina de choque num novo patamar, aplicada furiosamente por lacaios de Washington.

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