3 de junho de 2026

Reflexão em três atos, com a ajuda de Jean-Jacques, Jorge Luís e Julian, por Felipe Bueno

Você pode gostar ou não de Julian Assange, mas é imperativo reconhecer sua importância, sua influência na maneira como vemos o mundo atual.
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Reflexão em três atos, com a ajuda de Jean-Jacques, Jorge Luís e Julian

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por Felipe Bueno

I

“O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais escravo do que eles.”

Com sua inteligência e seu desapego, houvesse nascido, por exemplo, millenial, Jean-Jacques Rousseau teria a oportunidade de transformar uma das mais famosas aberturas de livro em uma reflexão não sobre a passagem do estado de natureza para a sociedade civil, mas a transferência da humanidade do estágio pré para o pós-redes sociais.

Hoje os ferros são outros. Virtuais, diríamos; mas seguimos escravos. E muitos de nós sabemos disso; não obstante, entregamos nossa atenção a qualquer influencer por um preço irrisório, e perdemos horas sofrendo de fomo (sigla em inglês para um dos males da nossa época, fear of missing out) na mesa do café, no carro, no transporte público, no trabalho, no suposto lazer, nas refeições com familiares ou amigos e na cama.

Ao mesmo tempo, conscientemente iludidos, celebramos essa inaudita experiência de plena liberdade pelo cosmos virtual.

Nem hoje nem no século XVIII alguém pegou uma pena ou usou um aplicativo de autenticação eletrônica para assinar o tal Contrato Social.

Rousseau – assim como outros antes dele e depois, entendeu que a sociedade civil só seria possível e viável caso deixássemos de lado parte de nossa liberdade individual em benefício do coletivo, o Soberano.

Quem seria esse tal Soberano em 2024? Quais seriam suas vontades?

II

“Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam.”

Em uma das peças mais celebradas de sua obra Ficções, Jorge Luis Borges nos descreve a ideia por trás do estranho jardim-livro no qual podemos escolher, a cada alternativa, todas as opções, não apenas uma, produzindo “diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam”.

Teria o visionário escritor argentino alertado para o futuro da internet décadas antes de sua criação? Afinal, atualmente o processo de escolhas é tão veloz, irracional e descartável que não soa absurdo dizer que possuímos, de fato, todas as possibilidades, todos os futuros e todos os tempos à mão.

Temerariamente somos obrigados a reconhecer que, se tudo assim é, temos também à mão todas as verdades.

E ter disponíveis todas as verdades é na prática não ter nenhuma.

Infelizmente nem Borges, nem Rousseau seriam capazes de prever nada disso. Nem eu nem você poderíamos ter imaginado, ao apertar o primeiro enter de nossas vidas, que estaríamos entregando nossa liberdade natural em troca de uma passagem só de ida para o maior dos labirintos.

III

Já este aqui, se não teve capacidade de prever, pelo menos olhou pelo buraco da fechadura e passou adiante o que viu: você pode gostar ou não de Julian Assange, mas é imperativo reconhecer sua importância, sua influência na maneira como vemos o mundo atual. Seus atos, para o bem e para o mal, afastaram o Véu de Maya, ajudando-nos a enxergar quão podre podem ser o Estado, a imprensa, a Internet, as redes sociais, o mundo, enfim. E considere que muita coisa ainda há por revelar, se é que um dia isso será possível.

Você nada mais é que seus gostos – que acha que são seus – seus dados e sua capacidade de despertar o interesse, sabe-se lá por quanto tempo, de quem estiver do outro lado.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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