28 de junho de 2026

Brasil tem potencial para maior protagonismo internacional, mas se resume à agenda do Norte

Cristina Pecequilo diz ao Nova Economia que o país tem política externa fragmentada e que, por isso, perde oportunidades com parceiros do Sul
Crédito: Reprodução/ TVGGN

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De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Mercosul enfrenta uma crise nos últimos anos, tendo em vista a perda de prioridade no contexto da política externa brasileira ao longo da gestão de Jair Bolsonaro (PL), além de descumprimentos da tarifa externa comum, entre outros fatores. 

A eleição de Javier Milei como presidente da Argentina agravou o cenário. Para comentá-lo e analisar o papel do Brasil e dos Brics no cenário mundial, o programa Nova Economia da última quinta-feira (18) contou com a participação do economista e professor de pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (FCE/UFRGS), Andrés Ferrari Haines, e da professora de relações internacionais da Unifesp e autora de ‘A reconfiguração do poder global em tempos de crise’, Cristina Pecequilo. 

Cristina descreve a situação política internacional do Brasil como uma grande contradição. “O Brasil é um país geopoliticamente muito forte, tem território, tem recursos naturais, aquilo que hoje chamamos de minerais críticos, ou seja, o Brasil tem tudo de bom para dar certo. Uma localização privilegiada, toda uma região sul-americana que também é tão rica quanto o Brasil poderia estar em um outro nível de poder global.”

No entanto, as políticas públicas brasileiras estão em dissonância com a vocação do país. “Tem um potencial enorme, mas não investe em um estado forte, em saúde, educação, inovação, tecnologia e por isso acaba ficando para trás e acaba perdendo oportunidades”, continua a professora.

Outro ponto sensível que dificulta maior protagonismo do Brasil, na avaliação da entrevistada, é a geocultura que tende a se deslumbrar com agendas internacionais do norte, em especial a dos Estados Unidos, em detrimento das próprias oportunidades.

Nem tudo está perdido

Apesar do contexto atual, Cristina Pecequilo acredita que o país não está tão perdido assim no panorama global, tendo em vista um sistema internacional de situações adversas, a exemplo da Guerra na Ucrânia e em Gaza, e da visão política externa fragmentada. 

“Desde 1989, quando cai o muro de Berlim e toda essa história de que o mundo ia ser pacífico, o Brasil tem uma política externa que reflete as funções do seu pacto político interno que é fragmentado. Por um lado vai ter um grupo que vai defender o desenvolvimento mais atrelado aos Estados Unidos, outros vão falar em um desenvolvimento mais segmentado, especializado em commodities e outros vão para outro caminho, que acho que é meio simbólico do que poderia e deveria ser a política externa do Brasil no século XXI, que é a ideal da cooperação Sul-Sul, contrabalanceada por uma boa relação Norte-Sul  e é justamente o governo Lula 1 e 2. Mas o mundo mudou”, continua a entrevistada.

Para a professora de relações internacionais, o governo deveria ainda prezar pelo equilíbrio entre políticas transnacionais e internas, já que o país é muito grande e tem um importante trabalho de reconstrução pela frente. 

“O Brasil ainda não entendeu o desmonte que houve das conquistas da primeira década do século XXI. Então, como você desmonta tão fácil a Unasul? O que é o Mercosul hoje? Vamos apostar nos Brics? Antes de caminhar para frente, temos de entender por que deu errado atrás. Se a gente não entender isso, a gente não vai conseguir refazer essa política externa de cooperação do Sul”, emenda Cristina. 

Mercosul

O economista André Ferrari comenta que, anos atrás, a situação era oposta: era o Brasil, sob a gestão de Bolsonaro, que não priorizava o Mercosul, papel hoje desempenhado pelo presidente da Argentina.  

“Dentro desta relação bilateral não podemos tomar decisões definitivas sobre a conjuntura. Acho mais profundo temos de pensar realmente que esse Mercosul, porque um projeto que já tivemos em 1985, começaram o Sarney, ou 1991 quando se formalizou e até hoje é praticamente permanente de conflitos e que não deslancha. O mundo, inclusive, se transformou muito nas últimas décadas. O Mercosul não tem mais a importância da década de 1990, quando se acreditava que os estados nações estavam desaparecendo”, ressalta o economista. 

Assim, Ferrari acredita que além de não estar claro, o projeto do Mercosul ainda foi impactado desde a Guerra da Ucrânia, pois o mundo está em mudança desde então e a relevância do Mercosul passou a cair diante o movimento do Sul global, o que inclui os Brics.

Confira o programa na íntegra:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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1 Comentário
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    21 de julho de 2024 8:45 am

    “O que eu seria se fosse menos que um negro?” – esta frase, que o personagem de Gene Hackman atribui ao seu pai no filme Mississippi Burning (1988) assombra e domina secretamente a consciência da elite norte-americana atualmente e orienta em grande medida a política externa dos EUA. A versão moderna é: “O que nós seríamos se fôssemos menos que russos ou chineses?”
    No contexto do filme, o agente do FBI Rupert Anderson refere-se à forma violenta e vergonhosa que seu pai usou para impedir que o vizinho negro prosperasse. No contexto que aqui nos interessa, a forma violenta e vergonhosa utilizada pelos EUA para humilhar a Rússia (imaginando que ela poderia ser derrotada pela Ucrânia) e para impedir o desenvolvimento da China (guerra dos microchips, pressão sobre a Holanda para não vender máquinas de litografia EUV para os chineses e assim por diante), nos permite perceber que a mediocridade e o racismo que caracteriam o pensamento norte-americano dominante não são qualitativamente diferentes daqueles que são problematizados no filme Mississippi Burning (1988). A elite do governo dos EUA pode agora ser descrita como um bando de cavaleiros da KKK invejosos e enloquecidos. Eles galopam não para impor a sua hegemonia, mas para serem destruídos. Sob o comando de Javier Milei, a Argentina acredita que pode recuparar alguma vantagem diante do Brasil se unido ao galope dos cavaleiros racistas neoliberais de Washington. O Brasil oscila entre cuidar dos seus próprios interesses e se submeter à dinâmica KKK que governa os EUA. Nos três casos (EUA, Argentina e Brasil) tudo depende menos dos formuladores locais de política externas do que do que a China e a Rússia farão. Esse é o fato mais importrante aqui.

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