4 de junho de 2026

Qualquer resultado na Venezuela seria contestado, por Frederico Firmo

Curiosamente todas as críticas ideológicas contra a Venezuela jamais deixaram claro qual é de fato a política econômica na Venezuela.
Reprodução Redes Sociais

Comentário ao post: “Brasil espera resultado final da Venezuela para reconhecer vitória de Maduro

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Alguém tinha alguma dúvida de que fosse qual fosse o resultado a eleição seria contestada?

O petróleo venezuelano é o objeto de cobiça, mas jamais aparece na retórica deste conflito. Não se trata sequer de um conflito contra a esquerda. Afinal, um governo de esquerda de tantos anos deveria ter uma economia de esquerda. Mas, mesmo com Chaves isto jamais se consolidou. A elite venezuelana não perdeu sua influência durante Chaves, apenas perdeu posições de poder. Porém isto não é um grande problema, quando se pode controlar boa parte da vasta máquina estatal através de seu corpo de funcionários e servidores, muitos concursados, amigos e familiares espalhados por toda a máquina estatal.

Todos conhecemos isto, ou será que aqui alguém pensa que as instituições brasileiras, mesmo depois de tantos anos de PT, está na mão de progressistas. Aqui como lá é fácil cooptar, seja quando o cooptado já pertence à velha oligarquia, seja quando é um classe média que abraça como ninguém o discurso de sempre e passa a defender políticas do tipo Banco Central ou defende as democracias ocidentais, o terraplanismo econômico e o neoliberalismo que se diz meritocrático.

Os interesses de Petróleo foram de uma forma ou de outra mantidos na Venezuela e através de seus diversos associados. Muitos tecnicamente competentes continuaram associados à indústria do petróleo. USA jamais quebrou laços com a PDVESA e, quando foi conveniente, por causa da guerra da Ucrânia, e o perigo Chinês, levantou as sanções.

Me parece que com o acordo de Barbados tentaram justificar o levantamento das sanções. Não creio que os USA estejam preocupados com a democracia. Se levantaram as sanções, não o fizeram antes de dar as reservas venezuelanas no exterior para o famoso presidente autointitulado Guaidó. Acho que Guaidó desapareceu com o dinheiro ou fez grandes negócios.

A ojeriza da população à esta velha elite é muito grande na Venezuela, o que é por eles chamado de populismo. Mas isto é conhecido no Brasil, afinal aqui a população cansou do PSDB. Talvez um cansaço com as incapacidades de Maduro e uma grande campanha midiática movam os eleitores, não se sabe para onde.

A deterioração de governos como o de Maduro não é um fenômeno Venezuelano e curiosamente todas as críticas ideológicas contra a Venezuela jamais deixaram claro qual é de fato a política econômica na Venezuela.

Na época de Chaves se tinha algumas medidas voltadas para políticas sociais, mas nada muito claro na economia. Não se pode dizer que tenhamos notícias sobre estatais estratégicas, política de desenvolvimento, coletivização, estatização etc… Eu realmente desconheço. Ou seja, para mim o discurso direita versus comunismo parece ser apenas retórico.

No momento na America do Sul temos apenas o caso Milei, onde a retórica ultraliberal, explicitamente ideológica, tenta a todo custo se implementar com medidas econômicas. No restante da América do Sul, o que temos são tentativas claras de ganhos neoliberais, com algumas privatizações, mas sem que queiram de fato rifar o estado. Afinal todos, inclusive a Faria Lima, depende tanto do estado que faz de tudo para dominar o BC e tenta tutelar o governo com ameaças e oscilações na bolsa.

O que temos é uma briga constante pelo controle do estado. O discurso retórico contra um pretenso governo comunista só serviu para alimentar uma guerra violenta e suja pelo controle do estado venezuelano. Agora a dita mídia democrática do ocidente, fala de uma oposição escondendo suas facçoes de ultradireita e passando a imagem de um candidato moderado e de centro, contra os extremismos. (Esta frase parece piada encomendada).

A mídia não nos informa nada sobre quem são, quais as políticas que defendem, apenas dizem ser heróis da resistência contra a ditadura de Maduro e a favor de uma abstrata democracia.

Me parece que a Venezuela esta presa na retórica que, fingindo ser ideológica, joga um véu sobre a realidade econômica e social. A Venezuela está presa dentro de uma narrativa que terá consequências dramáticas na realidade. Nós conhecemos isto, pois desde o mensalão, passando pela Lava Jato, alimentamos uma narrativa, descolada da realidade mas que teve como consequência o fascismo.

A narrativa elegeu Bolsonaro, que fez um governo eminentemente retórico, servindo de cortina de fumaça para esconder a realidade, causando uma destruição que ainda vai nos acompanhar por muito tempo. A narrativa se tornou tão forte que o cinismo penetrou profundamente em todas as instituições.

Transformar a ação do governo brasileiro com relação à Venezuela em leniência com uma ditadura é puro cinismo quando vem dos mesmos jornalistas e mídia que prega uma leniência, “moderação” e diálogo com governos como os de Milei e Netanhyahu.

Frederico Firmo – Possui graduação em Bacharelado Em Física pela Universidade de São Paulo (1976), mestrado em Pos Graduação Em Física pela Universidade de São Paulo (1979) e doutorado em Física pela Universidade de São Paulo (1987). Atualmente é professor associado I da Universidade Federal de Santa Catarina.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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