4 de junho de 2026

A opção do jornais pelo catastrofismo

Sugerido por Romulo Cabral de Sá

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Do Observatório da Imprensa

 
Por Luciano Martins Costa
 
Na quarta-feira (14/5), a menos de um mês do início da Copa do Mundo, a imprensa oscila entre dois pontos contraditórios: num deles, parece apostar no recrudescimento de conflitos que poderiam colocar em risco o sucesso da festa internacional do futebol; no outro, precisa que a sociedade vista a camiseta da seleção nacional, para manter vivo o mito heroico do esporte e continuar faturando com a publicidade.
 
Exemplos desse movimento ambíguo podem ser vistos em fragmentos do noticiário econômico, na política e até mesmo no jornalismo cultural ou de entretenimento. Selecionamos, por exemplo, uma reportagem do Estado de S. Paulo, na qual se lê que a média dos salários nos doze meses até março subiu 8,2%, acima da inflação do período, que foi de 6%.
 
Trata-se de um paradoxo para a imprensa, mas de um resultado lógico para quem enxerga a política econômica com olhos curiosos, sem os antolhos do dogmatismo liberal. O desemprego segue abaixo da linha histórica, os salários nominais ganham da inflação, e isso compõe basicamente o atual modelo brasileiro, explicando por que a maioria do eleitorado teme uma mudança radical desse cenário.

 
Também no Estado, o leitor encontra nova atualização do indicador IED, de Investimento Estrangeiro Direto, onde se lê que, nos primeiros quatro meses do ano, foram realizadas 235 grandes fusões e aquisições no Brasil, média 21% superior à do mesmo período no ano passado. Não se trata de especulação, mas de dinheiro investido diretamente em produção. Por que será que o apetite de investidores estrangeiros por negócios no Brasil segue alto?
 
Na Folha de S. Paulo, destacamos uma entrevista com o economista francês Thomas Pikerty, autor do livro O Capital no século 21, a ser lançado até o final do ano em português. Sua obra, na versão em inglês, há quase dois meses entre os cem livros mais vendidos da Amazon, está em segundo lugar entre os best-sellers, atrás apenas de um romance para adolescentes. Suas ideias estão mudando a maneira de pensar a economia e a sociedade, e o núcleo de seus estudos coincide em grande parte com os preceitos da política econômica adotada pelo Brasil na última década.
 
O rock errou
 
Agora, imagine o leitor ou leitora dotados de senso crítico, como fica a cabeça do cidadão que toma as manchetes da imprensa como retrato fiel da situação do Brasil.
 
Não erra quem afirmar que o público típico da mídia tradicional acredita que o país está afundando, embora a realidade mostre que a circunstância atual é melhor para a maioria, aqueles que vivem do seu trabalho, embora ainda restem muitos problemas estruturais a serem resolvidos.
 
Como disse a empresária Luiza Helena Trajano, dona do Magazine Luiza, há cerca de dois meses, durante debate num programa de televisão, não se trata apenas de olhar o copo “meio vazio” ou “meio cheio”: trata-se apenas de enxergar ou não enxergar aquilo que está diante do nariz.
 
Com todas as turbulências a que estão submetidas as economias nacionais no contexto global dos negócios, a situação do Brasil não pode ser descrita como catastrófica, como fazem supor as manchetes. A realidade está bem escondida em reportagens que nunca vão para a primeira página, como as que citamos há pouco.
 
E por que razão os jornais demonstram diariamente essa opção preferencial pelo catastrofismo, se, afinal, um estado de espírito derrotista prejudica até mesmo os negócios das empresas de mídia? Porque os editores sabem que os fundamentos da economia são apenas parcialmente afetados pelo noticiário: os grandes investidores não costumam tomar decisões por notícia de jornal.
 
O interesse do noticiário negativo é o de influenciar o cidadão comum, o eleitor, e fazer com que ele manifeste nas urnas um desejo de mudança que foi insuflado diariamente pela imprensa. Simples assim.
 
Nesse jogo, entra até mesmo a produção cultural e de entretenimento. Veja-se, por exemplo, a extensa reportagem do Globo sobre a volta à cena da banda de rock Titãs, com chamada na primeira página sob o título “Um retrato pesado do Brasil”. Na entrevista do lançamento de um novo disco, o guitarrista e compositor Tony Bellotto repete o refrão e afirma (com o perdão pela expressão): “É uma merda pensar como o Brasil há 30 anos ou patina, ou piora”.
 
Ora, o Brasil de hoje é muito melhor do que há 30 anos, mas na sua ignorância ruidosa, o roqueiro faz coro ao discurso da imprensa, que procura incutir no brasileiro um sentimento de automenosprezo.
 
Funciona assim.
 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

17 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. IV AVATAR

    16 de maio de 2014 10:50 am

    Triste esse exército de vira-latas repetindo o discurso do pig

    Mas dos bilhões de reais no bolso os latifundiários da imprensa não abrem mão não, muito pelo contrário

  2. SertaN

    16 de maio de 2014 11:04 am

    A velha mídia regional também

    A velha mídia regional também age assim. Em BH, o jornalãozinho “estado de minas¨” já dizia na véspera que seria um mega evento, numa clara demonstração de torcer para inflar os arruaceiros.

     

  3. Antonio Carlos Silva - RJ

    16 de maio de 2014 11:05 am

     
    Eu já comentei isso,

     

    Eu já comentei isso, mas….

    Seria possível a Dilma convocar os mafiosos que controlam a mídia brasileira e os informarem rispidamente, que caso eles continuem sabotando a copa com o intuito de prejudicar a imagem do País, ela, Dilma, logo em 2015, apresentaria um projeto de lei propondo a abertura através de uma concorrência internacional para que grupos de mídias estrangeiras liderem e fossem responsáveis exclusivos pela cobertura da Olimpiada de 2016 ? .

    Há grandes grupos de mídias no Japão, Coréia, Canadá, Alemanhã etc…. que aceitaríam de imediato esta grande desafio .

     

  4. sergioa

    16 de maio de 2014 11:09 am

    Que droga!
    Mais uma banda

    Que droga!

    Mais uma banda nacional que vou ter que quebrar todos os CD’s e mudar de rádio toda vez que tocarem.

    Vão ser mal-intecionados lá no Inferno.

    Para mim seja quem for, se faz coro com o PIG, descarto imediatamente.

    Já tenho na lista dos excluídos:

    Ultraje a Rigor

    Lobão.

    Que venha o próximo.

     

  5. Leandro_O

    16 de maio de 2014 11:11 am

    Pois é, hoje em dois meios

    Pois é, hoje em dois meios distintos:

    OGlobo: Protestos contra a Copa no Brasil ganham repercussão em jornais e revistas no exterior

    BBC: ‘Termômetro’ para Copa, protestos mobilizam menos que o esperado Que diferença.

  6. Assis Ribeiro

    16 de maio de 2014 11:36 am

    Um texto de esperança para

    Um texto de esperança para aqueles que tiveram suas mentes “lavadas” pela grande mídia e que se ainda conseguirem fazer alguma reflexão poderão perceber o quanto foram manipulados e usados.

  7. W K

    16 de maio de 2014 11:43 am

    Para acabar com esse catastrofismo idiota …

    … alguma autoridade do governo poderia fazer o seguinte:

    chamar os patrocinadores da copa, principalmente os privados e avisá-los de que, caso continuem a anunciar nessa imprensa calunienta e marronzista (Saudades do Odorico Paraguaçu!) , o governo pediria ao povo para boicotar essas empresas. 

    Fazendo isso às 19:00 horas de um dia de semana qualquer, esses anunciantes iriam encostar a faca nesses barões da imprensa para mudarem o tom. 

    Imagino que até informativos bonnerísticos iriam mudar radicalmente suas posturas ainda na mesma noite. Afinal, o que enche cofrinhos são anúncios e os donos destes cofrinhos certamente detestariam em sair das listas de bacanas endinheirados, não é? 

    1. Nicolas Crabbé

      16 de maio de 2014 3:40 pm

      Não entendi

      Se você quer que a economia vá para o buraco faça isso. 

  8. Gardenal

    16 de maio de 2014 12:33 pm

    O Boechat, hoje, está

    O Boechat, hoje, está inconsolável diante do fracasso das manifestações. Está conclamando os “coxinhas” a tirarem as bundas das cadceiras e irem para as ruas. É que o patrão dele, um dos próceres da Ku-Klx-Klan do B,que por essas bandas atua sob o codinome de UDR, deve ter estabelecido alguma gratificação atrelada ao sucesso da anarquia. 

  9. Gerson Pompeu

    16 de maio de 2014 12:55 pm

    Fé cega e faca nos dentes

    Esse carro completo, com GPS, air-bags, ar digital, etc., é muito pior do que aquele fuka com a caixa de ar podre que você tinha antes.

    Acreditem, acreditem, acreditem, ACREDITEM, PORRA!

  10. Aline C Pavia

    16 de maio de 2014 1:19 pm

    Perdidos na noite

    Quem assiste a apresentação de 17 minutos ao vivo dos Titãs no Perdidos na Noite do Faustão – lá nos idos da década de 80 – pode se perguntar que mal terrível e incurável pode acontecer na cabeça dos roqueiros brasileiros para virarem sexagenários retrógrados, reacionários e ranzinzas?

    Lobão, Ultraje, Dinho Ouro Preto, Titãs, Rita Lee, Ney Matogrosso, ainda bem que Cazuza e Renato Russo já morreram, pois meu pobre coraçãozinho roqueiro não ia aguentar Cazuza tomando chá com Danuza Leão e Viviane Senna, ou Renato Russo discutindo com Jean Wyllys pelo twitter.

    Ainda bem que o Frejat tá quietinho, pois se temos um ex-mendigo de rua como Seu Jorge “muso” dos coxinhas, e o Rappa sendo a música-tema do Itaú que levou “o gigante acordado” para as ruas no ano passado – lembrar que até o Rappa se vendeu à excrescência chamada “rodeios” – nossa última esperança se deposita no Frejat.

    Aliás, pobre rock’n’roll. Até o Robert Plant mandou todos os vovôs do rock se aposentarem para irem pescar e cuidar dos netos. E o que temos no Brasil? CPM22? NXZero? Restart? Pitty com Emicida? Ô dureza….

    Saudade de Angra, Cavalera, Sepultura, Ratos do Porão, Viper, Raimundos… a gente era muito mais liberal, menos cafona, menos politicamente correto, menos patrulhado, mais inocente, mais feliz – e não sabia. Saudade do Dado quebrando o estúdio com o João Gordo…. 

    Basta assistir qualquer apresentação de rock dos anos 70 e 80 pra ver o quanto éramos “revolucionários” – não esqueço aliás a apresentação do Red Hot Chilli Peppers no Brasil em 1992 – eles entraram pelados no palco, com meias penduradas nos pênis e maçaricos na cabeça…. quem teria coragem de fazer isso hoje? System of a Down? Slipknot?

    Definitivamente estou na década errada…. 

    1. Sergio SS

      16 de maio de 2014 7:31 pm

      Muito bom… e voltando um

      Muito bom… e voltando um pouco mais, temos hoje a neocareta Rita Lee, os Mutantes ainda fora de órbita, o suíço Paulo Coelho… acho que só o Raul nos salvaria…rs

  11. Eduardo - Curitibano

    16 de maio de 2014 1:20 pm

    O Brasil é o único país do mundo

    em que os roqueiros e humoristas são de direita…

    Não existe jabuticaba maior…

     

     

  12. emerson57

    16 de maio de 2014 1:27 pm

    vela

    Isso é a mídia partidária.

    ela acende diariamente vela para dois santos:

    o primeiro é o santo golpe, (batman), para remover “essa gente” do poder e voltar ao sistema de castas com abismos sociais,

    o segundo é para são lucro que transformou os donos do PIG nos maiores bilionários do Brasil.

    os Lobões, Neys, Rogers, Sherazades etc. são apenas os serviçais do golpe que disputam as migalhas caidas da mesa do poder. 

  13. Heitor de Assis

    16 de maio de 2014 2:10 pm

    A marola de protestos

    Pode ser que a esperada tsunami de manifestações fomentadas pelo Pig para enxovalhar o Brasil durante a Copa do Mundo, não passe de uma marolinha. Ao Globo, Estadão, Folha e demais, restará editar na primeira página, uma foto ampliada de uma marolinha no Arpoador, e escrever na primeira página, em letras garrafais – A MAIOR MAROLA DO MUNDO -.

  14. autonomo

    16 de maio de 2014 4:40 pm

    Para quem entende um pouco

    Para quem entende um pouco sobre edição de imagens fica ainda mais visivel a manipulação.

    São escolhidos os angulos precisos para enganar na dimensão da “manifestação”, dando a impressão que tem muito mais gente envolvida.

    Ao mesmo tempo,  os detalhes das pessoas são pouco mostrados,  para não revelar que, na maioria, os”contra a copa” são formados por rapazes e senhoritas de classe media, não de trabalhdores.

  15. Severino Fernandes

    16 de maio de 2014 10:21 pm

    A opção da imprensa

    A opção da imprensa (direitista) pelo catastrofismo (que eles chamam de “pauta negativa”) nada tem de inocente, muito pelo contrário. É uma opção política e ideológica voltada para derrubar o governo trabalhista de Dilma Rousseff, que não é da confiança dos mercados e do interesse do pessoal do capitalismo financeiro (dos quais a mídia direitista é um porta-voz e ao mesmo tempo representante ativo).

Recomendados para você

Recomendados