4 de junho de 2026

Urbanização e saúde pública, por Felipe Costa

O surgimento dos estados nacionais, especificamente, deu origem a novas demandas, algumas bastante curiosas e insuspeitas

Urbanização e saúde pública.

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Por Felipe A. P. L. Costa [*].

1. SAI A PILHAGEM, ENTRA O COMÉRCIO.

Com o advento do estado e o surgimento das grandes civilizações, mudou de vez a identidade das forças que pesavam sobre o destino dos grupos e a sorte dos indivíduos. Diminuiu o peso das imposições ecológicas. O protagonismo foi transferido para as lutas políticas travadas no interior de cada sociedade. As relações intergrupais mudaram de tom – e.g., saques e pilhagens foram substituídos por alternativas mais civilizadas, como o comércio [1].

O surgimento dos estados nacionais, especificamente, deu origem a novas demandas, algumas bastante curiosas e insuspeitas, como a realização de censos periódicos visando identificar e monitorar o tamanho e as demandas da população.

Nas palavras de Singer (1979, p. 11):

“Quando se pensa qualquer sociedade humana que tenha atingido o estágio de civilização urbana – em que a produção e/ou a captura de um excedente alimentar permite a uma parte da população viver aglomerada, dedicando-se a outras atividades que não à produção de alimentos – a divisão entre urbe e campo aparece claramente aos olhos. São também aparentes as relações que se estabelecem entre os que vivem nas zonas urbanas e os que vivem na zona rural, mediante as quais os segundos fornecem aos primeiros parte da sua produção, em troca de produtos da cidade ou de certos serviços reais ou imaginários (governo, segurança, religião etc.). Já a divisão das mesmas sociedades em classes nem sempre aparece com a mesma clareza. Embora haja sempre uma estrutura social explícita, em castas, estamentos, grupos raciais ou religiosos etc., via de regra a divisão em classes não é óbvia. Um assalariado, por exemplo, pertence a uma classe diferente que o seu empregador, mas sendo ambos moradores da cidade (ou do campo) o seu ‘status’ como membro da mesma comunidade ecológica é mais ‘evidente’ que sua participação em classes diferentes. Somente em determinados momentos cruciais da história, quando a dinâmica da sociedade inclusiva enseja o enfrentamento global de classe contra classe, estando o futuro de toda sociedade em jogo, somente nestes momentos a estrutura de classes aparece à luz, sobrepujando as demais divisões sociais, inclusive a ecológica.”

2. GANHOS DEMOCRÁFICOS.

O advento da agricultura permanente logo se traduziu em ganhos demográficos. Enquanto os bandos de caçadores-coletores permaneceram mais ou menos do mesmo tamanho, os assentamentos se tornaram cada vez maiores. O que fez com que as aldeias se tornassem um lugar cada vez mais seguro contra saques ou pilhagens. Aliás, essa imunidade conferida pelo tamanho pode ter sido um dos fatores a contribuir para a disseminação da agricultura.

A densidade populacional também mudou de patamar. As mesmas áreas que eram habitadas antes por pequenos bandos nômades (e.g., 50-100 indivíduos) passaram a abrigar assentamentos cujas densidades estavam agora uma ou duas ordens de grandeza acima (e.g., 500-10.000 indivíduos).

Nas palavras de Gowlett (2016, p. 6; tradução livre):

“[A]s economias de caça e coleta começaram a ser substituídas por economias agrícolas e pastoris há cerca de 10.000 anos. Até então, as populações eram relativamente rarefeitas, da ordem de 1 pessoa por km2, mas a agricultura elevou as densidades populacionais em ao menos 10 ou 100 vezes.”

Ou como anotou Ponting (1996, p. 76-7), 20 anos antes:

“Como esse sistema oferecia quantidades muito maiores de alimentos, tornou possível a evolução de sociedades estabelecidas, complexas e hierarquizadas e um ritmo de crescimento muito mais acelerado da população humana. Há cerca de 10.000 anos, antes da evolução da agricultura, a população mundial era de aproximadamente quatro milhões de habitantes, aumentando muito lentamente até chegar a cinco milhões por volta de 5000 aC.”

Aumentou ainda a expectativa de vida – e.g., ao longo do século 20, a expectativa de vida de recém-nascidos saltou de ~50 anos para ~70 anos ou mais [2].

Como descreveu Wallace (1980, p. 180-1):

“Todo mundo sabe que na maior parte de nossa história as pessoas viveram, em média, até a madura idade de 30. Por exemplo, há indícios de que o homem de Neanderthal vivia uma média de 29,4 anos; o homem Paleolítico [Superior], 32,4 anos; e o homem Mesolítico, 31,5 anos. Os seres humanos da Idade do Bronze chegavam aos 38 anos e mesmo na Grécia e Roma clássicas as pessoas só viviam uma média de 35 e 32 anos, respectivamente. Nos Estados Unidos, no início do século [20], as pessoas viviam mais ou menos até a idade de 48 anos. Só a partir de 1950 é que aumentamos nossa duração de vida provável para cerca de 70 anos, o tempo concedido pela Bíblia. […]

  “[…] Como uma pessoa jovem tinha alta probabilidade de morrer a qualquer tempo, 30 anos era a média da duração de vida provável. Mas isso tudo significa simplesmente que tantas pessoas viviam até os 60 anos quantas morriam na primeira infância. Havia pessoas velhas naquelas antigas cavernas espanholas. Havia velhos imprestáveis manquitolando no Senado romano. As populações humanas sempre tiveram um grande segmento de pessoas velhas.”

3. SAÚDE PÚBLICA.

Uma parcela desse aumento na expectativa de vida se deu por conta de quedas sucessivas na mortalidade infantil. E a mortalidade parece ter caído em razão de duas providências relativamente simples: (1) melhorias no atendimento às gestantes e parturientes; e (2) adoção de medidas básicas de saneamento público – e.g., manter limpas as fontes de água para consumo humano e cuidar dos doentes em locais separados, sobretudo em casos de doenças contagiosas.

A agricultura conseguia suprir a demanda das cidades por alimento; o combate às doenças, porém, exigia medidas adicionais [3].

Como anotou Davis (1977, p. 20-1):

“[O] obstáculo mais importante ao crescimento das cidades no passado foi a excessiva mortalidade. A água de Londres, na metade do século XIX, provinha principalmente de poços e rios poluídos. A cidade era regularmente assolada pelo cólera. Estatísticas de 1841 mostram uma expectativa de vida de cerca de 36 anos para Londres e 26 anos para Liverpool e Manchester, ao passo que para a Inglaterra e País de Gales, em sua totalidade, a expectativa era de 41 anos. Depois de 1850, [em] decorrência de medidas sanitárias e melhoria da nutrição e moradia, a expectativa média de vida elevou-se sensivelmente, mas mesmo assim no período compreendido entre 1901 e 1910 a proporção de óbitos nos municípios urbanos da Inglaterra e do País de Gales era 33% mais elevada do que a dos municípios rurais. Bernard Benjamin, estatístico do British General Register Office, notou: ‘Morar na cidade acarretava não apenas um maior risco de ser contaminado por uma epidemia… mas, também, um risco maior de contrair outras doenças decorrentes do árduo trabalho nas fábricas e do próprio desconforto urbano.’ Em 1950, entretanto, a diferença notada praticamente terminara.”

Demorou muito para que as medidas de saneamento fossem universalizadas. (Em muitos lugares, claro, a universalização jamais chegou.) Não surpreende saber que inúmeras epidemias – e algumas pandemias [4] – varreram o planeta ao longo de alguns poucos séculos. Morreu muita gente, a ponto de algumas populações desaparecerem.

4. MEGACIDADES.

Alguns milhares de anos após o surgimento das primeiras cidades, a maior parcela da população ainda estava a viver no campo, ao lado das áreas de cultivo. A urbanização acelerada é um fenômeno bastante recente.

No ano 100, por exemplo, menos de 5% da população mundial viviam em cidades, percentual que pouco mudou até 1500. Em 1900, chegou a 14%. Dobrou nos 50 anos seguintes, beirando os 29% em 1950. E quase dobrou de novo nas cinco décadas seguintes. Em 2008, pela primeira vez na história, mais da metade da população mundial estava a viver em cidades – notadamente naquelas com mais de 1 milhão de habitantes [5].

Em 1999, cerca de 300 cidades em todo o mundo abrigavam mais de 1 milhão de habitantes, 14 das quais eram megacidades (i.e., cidades com >10 milhões de habitantes). Em 2018, já com 55% da população morando em centros urbanos, o número de megacidades saltou para 33. Naquele ano, as megacidades abrigavam juntas 529 milhões de habitantes, o equivalente a 7% de toda a população mundial de então [6].

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NOTAS.

[*] Artigo extraído do livro A força do conhecimento & outros ensaios: Um convite à ciência (no prelo). Sobre os livros anteriores, ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir o pacote completo ou algum volume específico, ou para mais informações, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.

[1] Há uma longa e sangrenta tradição de contatos inamistosos entre grupos humanos, como já vimos antes neste livro. O motivo? Saques, pilhagens, guerras etc. Embora a adoção da diplomacia como um modo de estreitar laços e resolver conflitos seja algo milenar, alguns dos mais importantes organismos multilaterais só foram criados no século passado. A ONU, por exemplo, foi fundada em 24/10/1945 e a OMS, em 7/4/1948. Sobre o peso sombrio das guerras modernas, eis as palavras de Koestler (1981, p. 15): “Se me pedissem para mencionar a data mais importante da história e pré-história da raça humana, eu responderia sem a mínima hesitação: o dia 6 de agosto de 1945. A razão é simples. Desde o alvorecer da consciência até o dia 6 de agosto de 1945, o homem precisou conviver com a perspectiva de sua morte como indivíduo. A partir do dia em que a primeira bomba atômica sobrepujou o brilho do Sol em Hiroshima, a humanidade como um todo deve conviver com a perspectiva de sua extinção como espécie. Aprendemos a aceitar a efemeridade da existência pessoal, ao mesmo tempo em que tínhamos como certa a potencial imortalidade da raça humana. Essa crença deixou de ser válida. Precisamos rever nossos axiomas. A tarefa não é fácil. Antes de uma ideia se firmar na mente, existem períodos de incubação. A doutrina de Copérnico, que tão drasticamente degradou o status do homem no Universo, demorou quase um século para penetrar na consciência dos europeus. A nova degradação de nossa espécie para o status de mortalidade é muito mais difícil de digerir.

[2] 70 anos é uma média sujeita a variações, a depender de país, renda, sexo etc.

[3] Muitos avanços na luta contra as doenças foram obtidos tão somente pela suspensão de hábitos que promoviam a disseminação de patógenos. Um estudo de caso que se tornaria paradigmático, datado de meados do século 19 (antes, portanto, da identificação dos micróbios como agentes etiológicos), investigou a causa da morte de parturientes por febre puerperal (condição provocada por bactérias que se instalam no interior do sistema reprodutor feminino) em uma maternidade na Áustria – ver Hempel (1973, p. 16-20); para detalhes e problematização, Oliveira & Fernandez (2007). A falta de higiene dos médicos que atendiam as mulheres estava na origem do problema.

[4] Para um balanço do impacto das doenças transmissíveis em escala global, ver Garrett (1995). Diz-se que uma doença transmissível é endêmica quando a sua manifestação é recorrente, embora de alcance limitado, restrito a uma região. Se a disseminação ultrapassa os limites habituais, falamos então em epidemias. Uma epidemia de alcance mundial, como foi o caso da Covid-19 (2020-2023), é referida como pandemia. Nas palavras de Wilson (1980, p. 45-6): “O termo endêmico é usado para descrever uma situação na qual, embora possam ocorrer flutuações estacionais, as características da doença repetem-se a cada ano. O nível de endemicidade, ou prevalência, não é necessariamente alto em situação de doença estável. Reciprocamente, a prevalência de algumas doenças, como a esquistossomíase, pode ser maior do que 90% em certas comunidades. O termo epidêmico é usado para descrever situação em que os níveis de doença mostram variação aleatória e extrema. A malária e a fasciolíase são dois exemplos que podem mostrar essa característica. As epidemias são muito dramáticas, porém, [no] longo prazo, a doença endêmica pode causar maior dano, particularmente se a prevalência for alta. Parece razoável supor que as doenças endêmicas sejam reguladas de algum modo para produzir um padrão estável, mas que as epidêmicas não estejam sujeitas às mesmas restrições.

[5] Sobre as estatísticas citadas, ver Grauman (1976) e ONU (2019).

[6] Dessas 33 megacidades, seis estão na China; cinco na Índia; duas no Brasil, EUA, Japão e Paquistão; e uma em cada um dos seguintes 14 países: Argentina, Bangladesh, Colômbia, Congo (RD), Egito, França, Indonésia, Nigéria, Peru, Filipinas, México, Rússia, Tailândia e Turquia.

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REFERÊNCIAS CITADAS.

+ Davis, K. 1977 [1967]. A urbanização da humanidade. In: Vários. Cidades: A urbanização da humanidade. RJ, Zahar.

+ Garrett, L. 1995 [1994]. A próxima peste. RJ, Nova Fronteira.

+ Gowlett, JAJ. 2016. The discovery of fire by humans: a long and convoluted process. Philosophical Transactions of the Royal Society B 371: 20150164.

+ Grauman, JV. 1976. Orders of magnitude of the world’s urban population in history. United Nations Population Bulletin 8: 16-33.

+ Hempel, CG. 1973 [1966]. Filosofía de la ciencia natural. Madri, Alianza.

+ Koestler, A. 1981 [1978]. Jano. SP, Melhoramentos.

+ ONU. 2019. World Urbanization Prospects: The 2018 Revision (ST/ESA/ SER.A/420). NY, United Nations (UN/DESA/PD).

+ Ponting, C. 1995 [1991]. Uma história verde do mundo. RJ, Civilização.

+ Singer, P. 1979. Economia política da urbanização, 6ª ed. SP, Brasiliense.

+ Wallace, RA. 1980. Sociobiologia: O fator genético. SP, Ibrasa.

+ Wilson, AR. 1980 [1979]. Introdução à parasitologia, 2ª ed. SP, EPU & Edusp.

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