4 de junho de 2026

Jesus até marcha, mas Exu esse caminha, desfila e samba!, por Ellen Souza e Daniel Pereira

No dia 18 de agosto a Avenida Paulista foi palco de uma manifestação intitulada “Marcha para Exu” que reuniu mais de 150 mil pessoas
Imagem disponível em: https://www.uol.com.br/carnaval/noticias/redacao/2022/04/27/de-familia-evangelica-exu-da-grande-rio-exalta-respeito-entre-religioes.htm

Jesus até marcha, mas Exu esse caminha, desfila e samba!

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por Ellen de Lima Souza e Daniel Aparecido Pereira

No último domingo dia 18 de agosto a Avenida Paulista foi palco de uma manifestação intitulada “Marcha para Exu” que reuniu mais de 150 mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar, este foi o segundo ano consecutivo do evento. Em tese as notícias atribuem a organização do evento a um influenciador digital “Jhonatan Pires” de 36 anos, que conta com mais de 600 mil seguidores no Instagram e se intitula empresário e pai de família. O organizador sugeriu a arrecadação de alimentos e as cores pretas e vermelhas como padrão de uniformização para o evento. O slogan curto e direto “Nunca foi sorte, sempre foi Exu”, ajuda a construir a noção de bloco.

Veículos como o Mídia Ninja noticiam que houve dificuldades da organização em diálogo com a polícia militar “Achei que ia ter algum problema, né? Pela Paulista estar aberta, mas o povo do Axé, o povo que é fiel a Exu, fechou, literalmente, a Paulista de ponta a ponta”. Ou seja, reconhecimento e proteção do Estado não houve.

É muito óbvio que a intenção da “Marcha para Exu” seja confrontar o discurso com a “Marcha para Jesus”, que está na 2 edição consecutiva e no último feriado de Corpus Chiste que contou com apoio estatal, só em 2024, a Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB), por meio da Secretaria Executiva de Limpeza Urbana (SELIMP), escalou 211 pessoas para a realização da Marcha para Jesus 2024. Além disso, disponibilizou 23 veículos para o evento e instalou dez cestos aramados, 25 papeleiras e sete Pontos de Entrega Voluntária. A marcha para Jesus reuniu 2 milhões de pessoas que marcharam da Estação da Luz até a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira.

É fundamental lembrar que segundo o Datafolha em uma pesquisa de 2020, 2% da população brasileira, ou seja, mais de 4 milhões de pessoas são adeptos da Umbanda, Candomblé e outros seguimentos das religiões de matriz africana. A professora Silvia Fernandes da UERJ aponta que “O Brasil é um ator essencial no cenário cristão mundial: é o segundo país com mais cristãos (185 milhões), atrás dos EUA (253 milhões)”.

Faz todo o sentido que um cristão marche, os valores do cristianismo de proselitismo, universalização, assombro e temor pelo pecado, e não por acaso a religião que coaduna com a perspectiva neoliberal. O louvor a um só Deus, não por acaso homem, em uma tríade de pai, filho e espírito santo. Aquele que se sacrifica em nome da multidão que deve então se redimir e obedecer, ainda que pela culpa. Dessa forma, o doutor e babalawo Ivanir dos Santos em sua tese “Marchar não é caminhar: interfaces políticas e sociais das religiões de matriz africana no Rio de Janeiro” editada pela Pallas, mostra o quão diferente são os valores das religiões de matriz africana, há anos a referida autoridade organiza a caminhada pela liberdade religiosa e pede respeito aos povos de terreiro que são sistematicamente atacados.

Tais ataques sistemáticos seguem ainda que forjados por boas intenções que são altamente perigosas para o nosso povo de terreiro, quando despolitizadas. Mas, afinal, alguém imagina o dono da ginga marchando? Quem conhece Exu pode imaginar o seu arquétipo marchando? Sem a síncopa, em movimentos padronizados e quadrados? Definitivamente marchar não é um movimento para Exu, com Jesus combina, mas com Exu não!

A despolitização da fé que afeta diretamente o povo-de-axé. É sintomático que não tenhamos o mínimo de leitura de mundo e política, que acaba nos levando para armadilhas podem ter consequências desastrosas. Efeitos danosos do racismo religioso, é fundamental reconhecer o esforço teórico do professor Ivanir dos Santos que segue caminhando com Exu em um dos Estados brasileiros que mais agride os religiosos de matriz africana, sim Exu caminha! Exu caminha e ginga para que possamos co-existir.

As narrativas construídas a partir das diferentes visões de mundo devem, sim, ser respeitadas, mas sob o olhar crítico de quem vive numa sociedade marcada pelas profundas desigualdades sociais. Dados do Disque 100, ligado ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), registram um aumento de 80% no número de ataques à liberdade religiosa, em comparação ao mesmo período de 2023. Das denúncias registradas pelo órgão, até junho deste ano, mais da metade das 647 foi cometida contra pessoas pretas ou pardas, sendo praticantes das religiões de matrizes africanas, como a umbanda e o candomblé os maiores afetados.

As religiões de matriz africana apregoam ainda a senioridade é estranho que tal marcha não tenha contado com a presença dos mais velhos, pois estes sabem que Exu não se sujeita a marchas, seu ritmo, seu tempo e seu espaço são outros. A cooptação mercadológica das religiões de matriz africana vem ascendo vertiginosamente, e o cristianismo compulsório chegando ao seu ápice fazendo macumbeiros/as/es marchar…. O que vem depois desse slogan? “Nunca foi sorte, sempre foi Exu”. Exu acima tudo?  Depois de fazê-lo marchar vão imobilizá-lo em um lugar de cruz?  Exu desfila, isso sim, lindamente apresentado pela Grande Rio em 2022 “Lá na encruza, onde a flor nasceu raiz /Eu levo fé nesse povo que diz/ Boa noite, moça, boa noite, moço/ Aqui na terra é o nosso templo de fé/ Fala, Majeté”. Por fim, lembremos, Exu não é serviçal dos desejos alheios, Exu não é pé de coelho ou patuá de sorte. E por fim, Exu não é mercadoria!

Profa. Dra. Ellen de Lima Souza – professora adjunta da Escola de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Unifesp e Ekedi.

Prof. Daniel Aparecido Pereira – mestrando em Educação pela Unifesp e Babalorixá.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. AMBAR

    24 de agosto de 2024 1:41 pm

    Exú é o terror dos crentes, o apavoro dos católicos e a garantia dos dissidentes. Engana-se quem duvida que Exu e outras entidades das religiões de matizes africanas vão perecer no meio dessas dissensões religiosas. Longe de ser banido, o culto africano se confunde com o carnaval, o samba, e outras práticas que malgrado todas as tentativas de proibição sobrevivem. A marcha para Exu (idéia legal) em breve poderá tornar-se um evento tão interessante quanto a marcha do orgulho gay ou o carnaval, deixando para trás a cafoníssima marcha para Jesus.
    As razões são simples: o visual, a novidade e a alegria. Essas coisas dão dinheiro, trazem diversão e não são caretas. E quando dá lucro o santo maior vence: Mamon.

  2. DOUGLAS BARRETO DA MATA

    24 de agosto de 2024 2:09 pm

    Religião, ópio do povo, seja à esquerda, seja à direita.

    A manifestação de fé ou crença religiosa livre é um direito, desde que se limite às esferas privadas do cidadão, no máximo, seu círculo familiar.

    Ao ganhar dimensão pública, se tornam a mesma porcaria:
    Disputa temporal de poder político, o que é um perigo, já que a base não é construída com dialética e dúvida, mas com a “certeza” dogmática.

    Exu, Jesus, Alah, Buda, Jeová, Javé, Zeus, é tudo a mesma porcaria para explicar o mundo pelo filtro autoritário e misógino, já que todos são homens, e em todos, as mulheres são subordinadas.
    (Talvez as divindades femininas da umbanda, um pouco menos submissas.

    Lixo.

    Religião é lixo, atraso, nível inferior de consciência humana.

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