4 de junho de 2026

Notícias sobre o futuro do Brasil feitas no passado

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

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Visitar sebos para procurar e comprar obras antigas, foras de catálogo e editadas em Portugal e Espanha é um dos prazeres que aprendi a cultivar. Folhear livros antigos ao acaso em sebos é outro. Fazendo isto hoje encontrei uma verdadeira jóia.

De uma pilha de livros retirei ao acaso a obra Panorama do Mundo Atual, de Pierre George, editado pela Difel em 1968. O livro pertenceu a Masabo Kawai, alguém que não conheci e cuja existência não deixou qualquer referência na internet até o presente momento. Sobre o ex-proprietário do livro só posso dizer duas coisas: era japonês ou descendente de japoneses e tinha hábitos de leitura requintados. O livro me custou apenas dez reais, uma bagatela. Comprei-o porque folheando-o li o seguinte fragmento:

“Com cerca de 8.514.000 km2, o Brasil é quase tão grande quando os Estados Unidos. Ele não tem nem a posição nem as riquezas potenciais deste, desfavorecido sobretudo do ponto de vista dos recursos energéticos. Em compensação, sofre extraordinária pressão demográfica. Em 1900, sua população era de 17 milhões de habitantes, 22% do número de habitantes dos Estados Unidos na mesma época. Em 1920, com uma população de 31 milhões, sua população elevava-se a 30% do total da população dos Estados Unidos. Em 1963, com 75 milhões, ela atinge 40% do efetivo norte-americano. Mas o produto nacional bruto é de 6 bilhões de dólares, menos de 1,5% do produto nacional bruto dos Estados Unidos. O aumento do produto nacional bruto foi de 3,5% por ano durante o último decênio para um aumento populacional de 3,6%. Nos Estados Unidos, o aumento do produto bruto foi, em 1962, de 4,6% para um aumento de população de 1,5%. Com estes ritmos, a população do Brasil será sensivelmente igual à dos Estados Unidos antes de 2.000 enquanto seu produto nacional bruto não representaria senão alguns milésimos do produto bruto dos Estados Unidos. O plano de desenvolvimento atualmente posto em aplicação tem por objetivo um crescimento anual do produto bruto de 7%. Na hipótese de uma estabilidade monetária respectiva, o produto nacional bruto passaria, em dez anos, de 6 a um pouco mais de 10 bilhões de dólares. No ritmo atual, o produto nacional bruto americano ultrapassaria, no mesmo espaço de tempo, 600 bilhões de dólares, e a percentagem do produto nacional bruto com relação ao produto nacional bruto americano teria aumentado precisamente 0,2 0,25%.” (páginas 207/208)

Panorama du Monde Actuel, Pierre George, tem 234 mil referências no Google. Sobre o autor existe uma página na Wikipédia http://fr.wikipedia.org/wiki/Pierre_George. O geógrafo francês conhecia profundamente o Brasil, tendo sido professor em Salvador (1962) e em São Paulo (1968). Ele foi membro do Partido Comunista Francês e produziu uma obra respeitável.

Não vou aqui discutir a correção dos números em que se baseou o autor para fazer sua análise da realidade brasileira. Presumirei que Pierre George empregou dados corretos, caso contrário seu livro não teria sido editado por uma editora tão prestigiada quanto a Difel. O que me interessa é avaliar a correção das projeções que ele fez para nosso país.

Uma pesquisa rápida na internet revela que o livro de Pierre George teve várias reimpressões na Europa e aqui no Brasil. A influência da obra deve ter sido bastante considerável, inclusive e principalmente entre leitores refinados (universitários, sociólogos, economistas, geógrafos, historiadores, etc…). Um leitor do livro Panorama do Mundo Atua lna época em que ele foi editado na Europa (1963) e no Brasil (1968) ficaria bastante desanimado com o futuro do nosso país. Se fosse investidor ele procuraria manter distância deste atoleiro latino-americano predestinado a afundar ainda mais. Se fosse banqueiro pensaria duas vezes antes de investir aqui ou recomendar investimentos no Brasil.

A história confirmou ou não as previsões sombrias de Pierre George? Vamos aos números. Em 2000 as populações e o PIB de EUA e Brasil eram os seguintes:

PAÍS         PIB                                     POPULAÇÃO

EUA     10,29 trilhões de dólares      281,42 milhões

Brasil    1,09 trilhões de reais           169,80 milhões

Os números revelam que as previsões feitas por Pierre George na década de 1960 para o Brasil do ano 2000 estavam totalmente erradas. Não só a população brasileira continuou sensivelmente menor que a dos EUA, como a economia do Brasil se expandiu para muito mais do que alguns milésimos do PIB daquele país como previu o geógrafo francês.

Se tivesse feito previsões em relação ao Brasil de 2010, provavelmente Pierre George teria aprofundado o abismo entre os dois países. A julgar pelas projeções que ele fez na década de 1960 para o nosso país em 2000, o Brasil de 2010 seria ainda pior. Provavelmente nosso país teria uma população maior que a população dos EUA e um PIB per capita infinitamente menor do que tem hoje.

A comparação dos dois países em 2010 revela o seguinte:

PAÍS       PIB                                      POPULAÇÃO

EUA      15,04 trilhões de dolares     308,74 milhões

Brasil     3,67 trilhões de reais          190,73 milhões

Ninguém precisa ser um especialista para perceber que a realidade do Brasil tem sido e é muito melhor do que aquela que foi antecipada pelo geógrafo francês. E isto a despeito de todo o pessimismo que ele difundiu na sua obra Panorama du Monde Actuel ao fazer previsões terríveis sobre o futuro do nosso país.

É em razão disto, em suma, que considerei precioso o achado que fiz hoje no sebo. A obra de Pierre George prova como a ciência pode se enganar. A realidade é dinâmica e não se comporta como os modelos criados pelos cientistas com base nos números que eles dispõe. Por melhores que sejam os dados empregados pelos especialistas, o futuro é e sempre será incerto. Quem faz projeções e antecipa futuros plausíveis geralmente está fadado a cometer erros colossais.

O que levou Pierre George a cometer o erro que cometeu? Há várias explicações possíveis para este fenômeno. O primeiro e mais evidente é o desprezo que os europeus, inclusive os cientistas sociais de esquerda, devotam aos habitantes do terceiro mundo. Nós somos tratados como se fossemos vira-latas, como se estivéssemos condenados a ser vira-latas. No fundo foi isto que Pierre George disse. Mesmo remando contra a maré de pessimismo difundida pelo grande geógrafo, os brasileiros fizeram um país muito melhor do que ele imaginou. E isto, meu caro, diz mais sobre nós mesmos do que qualquer cientista social ou economista poderia dizer sobre o Brasil e os brasileiros (aí incluídos aqueles economistas das Agências de Risco que rebaixaram a nota do Brasil e que provavelmente são leitores ou discípulos de Pierre George).

O Brasil não tem um destino manifesto (isto é coisa de norte-americano). Tampouco tem um destino nefasto como o antevisto por cientistas sociais europeus do passado e do presente. Nosso país já provou que pode ser melhor do que a melhor ciência européia que se fazia sobre ele na década de 1960. E isto, meus caros, tem mais valor para mim do que qualquer outra coisa que possam dizer sobre o Brasil no presente.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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17 Comentários
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  1. DeBarros

    11 de abril de 2014 3:44 pm

    Verdade,
    Existe uma certa ma

    Verdade,

    Existe uma certa ma vontade por parte dos EUA e Europa contra o Brasil. Ora o Brasil eh visto como terra de gente insolente e pregicosa, ora como terra de prazeres e coisas exoticas, nada alem disso. Esse cenario comecou a mudar um pouco, depois que Lula assumiu o poder e pelos resultados obtidos, amealhou mais de respeito ao Brasil, mas o resquicio continua.

  2. DanielQuireza

    11 de abril de 2014 3:46 pm

    Realmente. Nâo se pode

    Realmente. Nâo se pode extrapolar dados indefinidamente. Há muitas variáveis em jogo e o futuro é SEMPRE incerto, por é o resultado da vontade e ação de diversos atores.

    1. alfredo machado

      11 de abril de 2014 4:30 pm

      Previsões

      Daniel,

      Nunca vi uma previsão para vinte ou mais anos, sobre qualquer assunto, vingar. Aqui, a previsão do “economistas” para inflação, PIB e o que mais tiver $$$ não suportam um mês, previsão arespeito de consumo, de perigo quanto à redução de água doce, camada de ozônio, etc.., em todas as previsões existe um traço comum, o erro por vezes grosseiro.

      Agora, a minha previsão- Nenhuma das previsões de longo alcance a serem anunciadas durante os próximos dez anos acertará o alvo.

      Um abraço

      1. Lucinei

        12 de abril de 2014 3:55 am

        Alfredo, Daniel,
        desculpem-me

        Alfredo, Daniel,

        desculpem-me por atalhar mais uma vez a troca de ideias de vocês, mas, a meu ver, as tais “previsões do mercado” no limite não têm o alcance de mais de um ano, que é o horizonte do planejamento dos resultados financeiros das empresas.

        Aliás, para mim, a tal “pesquisa” focus nada mais é do que uma INDEXAÇÃO à taxa de lucro média do estamento financeiro.

  3. André Oliveira

    11 de abril de 2014 4:12 pm

    Não foi propriamente um erro,

    Não foi propriamente um erro, senão todos que façam prognósticos sobre o futuro estarão fadados a errar, muito ou pouco.  Pierre George fez uma previsão para um futuro bem distante usando os instrumentos disponíveis na época, a partir das condições gerais do mundo na época. O tempo passou, as condições gerais mudaram e o prognóstico ficou longe do imaginado. Prá começar o geógrafo não considerou que o crescimento populacional do Brasil vinha desacelerando.

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      11 de abril de 2014 4:42 pm

      Discordo. O erro é evidente.

      Discordo. O erro é evidente. Ciência, meu caro não se faz com advinhação. As teorias científicas devem ser construídas a partir da análise criteriosa da realidade, a coleta de dados deve ser feita de maneira objetiva, os modelos construídos a partir delas devem ser fidedignos e o resultado das experiências realizadas tem que ser repetidos por outros cientistas. Pierre George não fez isto.

      O geógrafo francês apenas projetou no futuro os dados de crescimento populacional e econômico referentes ao passado. O resultado que ele obteve não somente não foi confirmado pelos fatos, como pode ter produzido um dano a auto-estima dos brasileiros e a economia do nosso país. O pessimismo difundido pela obra comentada certamente induziu o mesmo sentimento em milhares de leitores do livro, alguns dos quais podem ter tomado decisões objetivas (de rejeição ao Brasil) com base no modelo altamente subjetivo que construiu por Pierre George. Não há nada de científico no que ele fez e, como cientista, ele poderia ou deveria ter sido mais cuidadoso.

      Uma coisa é fazer análise do presente com base em dados referentes ao passado recente. Isto qualquer geógrafo pode fazer com maior ou menor acuidade científica dependendo de sua formação e capacitação intelectual. Outra coisa é antecipar um futuro incerto e improvável, apresentando o resultado das próprias especulações como se estas fossem ciência de primeira qualidade. Pierre George não errou apenas porque a História provou que ele estava errado. Errou principalmente porque um cientista não deveria fazer o que ele fez.

      1. André Oliveira

        11 de abril de 2014 6:14 pm

        Ele não foi o primeiro e nem

        Ele não foi o primeiro e nem será o último a fazer previsões que, depois, não se concretizam. Ainda hoje é prática corriqueiro entre estudiosos. É difícil acertar previsão até para o futuro próximo que dirá para muitos anos a frente. Como disse o Delfim Netto é mais seguro prever o passado.

        1. serralheiro 70

          11 de abril de 2014 9:17 pm

          Previsões x urubulogia

          Se é para errar, chamem os espertos da groubo.

      2. Lucinei

        12 de abril de 2014 4:06 am

        Perdoe-me a imprecisão,

        Perdoe-me a imprecisão, Fabio,

        mas lembro de ter lido em algum lugar há bastante tempo atrás que Simon Kuznets começou a fazer medições de produto interno ou nacional, não importa, no  final da década de 40. Nem sei dizer (seria interessante alguém trazer) quando o IBGE começou a produzir dados mais sistematizados. Lembro dessa citação de um estudo de alguém, que infelizmente não lembro também, da escola de engenharia daqui do rio de janeiro…

        Enfim, o que me ocorre é que os instrumentos de medição ainda eram muito precários mesmo no final da década de 60… Somados esses preconceitos de acadêmicos do atlântico norte, então…

        Saudações.

  4. Iara G

    11 de abril de 2014 4:26 pm

    Previsões tão úteis como comentários de jogo que já se encerrou

    O esquecidíssimo fundamento da entropia (que se abate sobre tudo, mas parece que nos alienamos disto) é sempre uma “praga” a afetar as idéias e ideais ilusórios da visão “romântica” de evolução (ou o mito do desenvolvimento). Os previsíveis e aproximados racionamentos de água e energia e a escassez de alimentos decorrentes, que já ocorrem aqui e ali, nos darão tempo e distância para boas reflexão. Aliás, não. Reviso já minhas palavras: quando chegarmos a estes períodos de exceção, com a intolerância galopante (olha a entropia pessoal e social ai) e a facilidade atual para viver reclamando ou ego-afetado (sofisticadamente chamada por indignação), vai sobrar é muita confusão e muito pouca reflexão. Espero que estejamos preparados para os gritos e choros apocalipticos.

  5. Rafael Cruz

    11 de abril de 2014 4:48 pm

    Essa Frase me fez ganhar o dia…

    Nosso país já provou que pode ser melhor do que a melhor ciência européia que se fazia sobre ele na década de 1960. E isto, meus caros, tem mais valor para mim do que qualquer outra coisa que possam dizer sobre o Brasil no presente.

  6. Jose de Almeida Bispo

    11 de abril de 2014 5:10 pm

    Só nos falta uma coisa.

    Só nos falta uma coisa. Essencial, infelizmente: uma elite patriótica. Porque em qualquer instância, a elite de um país é sua cabeça. E, quando a cabeça inexiste, ou vive ébria, o corpo não tem muito aonde ir. Este é nosso único problema: falta a cabeça.

  7. aliancaliberal

    11 de abril de 2014 6:15 pm

    (Sem título)

    1. Fábio de Oliveira Ribeiro

      12 de abril de 2014 11:35 am

      O Brasil nem decolou, nem vai

      O Brasil nem decolou, nem vai afundar como dizem as previsões das agências de risco (ou uma outra capa da mesma revista que mostra o foguete-redentor rodopiando e indo para baixo).

       

      No caso desta revista especializada em economia o mais provável é que ela fomente deliberadamente expectativas positivas e negativas por uma única razão: criar flutuações que permitam aos especuladores cambiais terem lucros fabulosos durante um período de tempo muito curto no Brasil para depois irem saquear a economia de outro país.

  8. Adir Tavares

    11 de abril de 2014 6:24 pm

    Previsão

    Só sei que os tucanos em São Paulo em 20 anos não previram que ia faltar água em 2014!!!

  9. Flavio Martinho

    11 de abril de 2014 11:13 pm

    De tudo e o mais grave é que

    De tudo e o mais grave é que muitos brasileiros, normalmente bem-postos, acreditam e querem nos fazer crer em muitas bobagens, comprovadamente bobagens, que escrevem, falam sobre o Brasil. E não adianta argumentar. Eles acreditam piamente como muitos acreditam nesses pastores, que não conseguem disfarçar, que são pilantras. E olha que muitos foram à escola, à Universidade mas não aprenderam.

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