4 de junho de 2026

Para onde foram os votos de Dilma? II

O último ano do governo Lula foi excepcional e o brasileiro passou a acreditar em si, as manifestações de junho de 2013 mudaram essa percepção na população, voltamos ao mesmo “complexo de vira-latas” de sempre e a Folha parece estar tentando instrumentalizar tal complexo contra o governo Dilma.

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Dessa leitura, os dados da pesquisa Folha na edição de 06/04/2014 deixam poucas dúvidas. A começar pela manchete:   “Com pessimismo econômico, Dilma perde seis pontos”.

Foi muito feliz quem identificou que a pesquisa da Folha tinha sido feita sob medida contra Dilma . Embora seja, em princípio, uma pesquisa sobre intenção votos, os resultados dos candidatos pouco aparecem. Já não eram fartos na edição de 05/04/2014. O destaque são os dados que comprovariam a sensação de pessimismo da população em relação ao governo Dilma.

Quanto a isso, ponto para os blogs sujos que denunciaram a manobra. A Folha achou importante uma nota explicativa“Instituto não alterou critérios da pesquisa”:

“Nos últimos dias, alguns blogs e sites, como o “Brasil 247”, acusaram o Datafolha de alterar esse procedimento para prejudicar a presidente Dilma Rousseff. Bastava consultar o registro da pesquisa no site do TSE para notar que isso não é verdade”.

Pois bem, dando a Folha o benefício da dúvida, podemos dizer que quanto desse pessimismo é real, quanto é wishful thinking de oposição da própria Folha e quanto é mais uma peça na campanha de gerar mais dessa sensação de pessimismo é algo difícil de saber. Mas que os dados apresentados são bastante questionáveis, não é difícil demonstrar.

Vejamos.

É interessante notar que alguns dados apresentados nos belos infográficos da Folha desmentem o texto onde tal sensação de pessimismo é dada como fato relacionado ao momento atual do governo Dilma.

Os gráficos sobre como se sentem os entrevistados em relação à expectativa de inflação, ao desemprego e ao poder de compra são ilustrativos de como se pode manipular uma informação, transformando um dado que mais tem a ver com a psique nacional em uma informação que mede um específico momento.

 

Nos três casos, nos é apresentada uma série que começa em nov.2007 e vai até abr.2014. Por elas, notamos que sempre o brasileiro se posicionou como um pessimista. Em todas as pesquisas, algo em torno de 40% dos entrevistados achou que a situação iria piorar. A explicação deixo aos cientistas sociais. Há, no entanto, uma exceção, o último ano do governo Lula. E aqui não é necessário nenhum cientista social para explicar. O que só reforça a ideia de que se trata de um dado sociológico e não estatístico, já que a inflação está controlada, o poder de compra subiu e o desemprego nunca esteve tão baixo.

Isso é ainda mais reforçado quando é questionada a percepção em relação à economia no plano individual e no conjunto da nação. Individualmente, 46% julga que sua situação vai melhorar e apenas 12% julga que vai piorar. Já, quando é questionado sobre o país, a situação se inverte. Então, 29% acha que a situação vai piorar e 27% acha que vai melhorar. Nada estranho, é o brasileiro. Na cabine de votação ele vai pensar em si ou no país?

Outro quadro interessante é sobre a avaliação do governo Dilma. Nesse caso, fica evidente que há um ponto de inflexão, de rebaixamento dessa avaliação em todas as regiões e faixas de renda familiar. Mas esse ponto se dá em 2013. Lógico, as manifestações de junho afetaram todos os governos, ainda que só sejam apresentados dados do governo Dilma.

Com os ricos e no sudesde Dilma tem o seu pior desempenho, com os pobres e no nordeste o melhor. É um dado relevante, porém, que o índice de avaliação “regular” se mantém em todos os casos na ordem de 30%. E os leitores desse estrato tendem a votar com a situação.  A menos que o desejo de mudança seja muito grande. E é ai que a Folha aposta suas fichas. Um gráfico sobre isso mostra que estaríamos, hoje, com Dilma – 72% de desejo de mudança, numa situação análoga a de FHC no seu último ano do segundo mandato – 76% de desejo de mudança.

Mas aqui há pelo menos duas espertezas. A primeira, os resultados referentes às vésperas da reeleição de Lula –  2006, e da eleição de Dilma – 2010, não são apresentados. Ora, a menos que se esteja em uma fase excepcional, é normal o desejo de uma mudança para melhor, ainda que não se esteja insatisfeito com a situação atual. Na reeleição de Lula a situação não era a de uma fase excepcional, muito pelo contrário, e ele foi reeleito.

A segunda esperteza é comparar setembro de 2002, fim da campanha eleitoral, com abril de 2014, quando a campanha eleitoral e, portanto, a oportunidade de Dilma falar direto ao cidadão ao resguardo da campanha negativa da mídia, ainda não começou.

Mesmo assim, Dilma não se sai mal. Lula é o cara, mas o eleitor confia tanto em Dilma quanto em Marina para executar tal mudança.

Como Lula é Dilma e Marina é a cadidata da “nova forma de fazer política”, nota-se que não será esse pretenso desejo de mudança que fará com que o estrato dos que avaliam o governo Dilma como “regular” se una ao dos que o avaliam como ruim e péssimo.

Há, por fim, uma informação muito sintomática dessa tentativa da Folha de usar o nosso niilismo atávico contra o governo Dilma. Trata-se do sucesso do Mais Médicos, e está lá, perdida no meio do texto: “Apesar de tudo, o tema economia ainda está longe de ser visto como o principal problema do Brasil na atualidade. Saúde continua sendo a campeã das preocupações, com 34% de citações, 11 pontos a menos que o apurado no início de fevereiro”. Desde a última pesquisa em fevereiro de 2014, saúde deixou de ser a principal preocupação para 11% do eleitorado.  Mas a Folha não dá nenhum destaque para essa informação, aliás, o título da coluna é “Para 65% dos eleitores, a inflação vai aumentar”.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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