4 de junho de 2026

As estripulias da Nova Nordisk, um laboratório sob suspeita, por Luís Nassif

A empresa foi fundada em 1923, na Dinamarca, e produz remédios para diabetes, obesidade e doenças endócrinas raras. Atua em mais de 80 países

A indústria de remédios é uma das mais obscuras e polêmicas do planeta. Como há restrições à publicidade de medicamentos, desenvolveram canais informais de relacionamento com a mídia.

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Dei-me conta disso quando montei a seção Seu Dinheiro, no Jornal da Tarde. Além do mercado, uma das seções sugeridas era a de análise de medicamentos. Na época, conversando com o professor Maurício Korolkovas, da Universidade de São Paulo, soube que o Vitasay – remédio amplamente divulgado por campanhas milionárias – era tratado no meio farmacêutico como “Vitasay, o entra e sai”. Isso porque ele não desmanchava no estômago. Portanto, não tinha nenhum efeito terapêutico.

A proposta da seção médica não passou. E também não passou na Folha.

Mas nenhuma empresa farmacêutica jogou tão pesado no país quanto a multinacional dinamarquesa Novo Nordisk. Era fornecedora de insulina para o SUS (Sistema Único de Saúde). No período de José Serra como Ministro da Saúde, foi criada a Biobrás, que produzia insulina com base em bovinos. A chegada da Biobrás derrubou os preços da insulina praticados pela Novo Nordisk. Houve uma licitação, e, enquanto a Biobrás apresentava preços incluindo impostos, Serra aceitou que a Novo Nordisk apresentasse preços com isenção de impostos de importação. A Biobrás entrou na Justiça e derrubou a medida. A reação de Serra foi fazer compra sem licitação, praticamente acabando com a Biobrás.

No meu livro “O Caso Veja”, conto inúmeros casos de venda de matérias pela revista, divulgando os efeitos de remédios contra diabetes para tratamento de emagrecimento – algo proibido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Todas as matérias tinham o selo da Novo Nordisk.

A empresa foi fundada em 1923, na Dinamarca, e produz remédios para diabetes (insulina, análogos de GLP-1 como Ozempic e Wegovy), obesidade e doenças endócrinas raras. Atua em mais de 80 países e tem uma receita de mais de US$ 30 bilhões.

O sucesso recente de medicamentos como Ozempic e Wegovy gerou debates sobre sua publicidade e uso indiscriminado para emagrecimento, incluindo impactos no mercado alimentar.

O financiamento de pesquisas científicas, como no caso do projeto de reformulação da Classificação Nova, levanta questões sobre potenciais conflitos de interesse, especialmente porque a empresa tem interesse direto em questões de nutrição e obesidade.

A pesquisa mereceu uma carta aberta do Professor Carlos A. Monteiro à Professora Susanne Bügel, abordando preocupações sobre um projeto financiado pela Fundação Novo Nordisk para criar uma “nova geração” do sistema de classificação de alimentos Nova. 

Monteiro, que liderou o desenvolvimento da classificação Nova original, expressa objeções ao uso do nome “Nova” pelo projeto e suas potenciais implicações.

Os pontos principais da carta incluem:

  • A classificação original Nova e o conceito de alimentos ultraprocessados ​​(AUP) foram desenvolvidos pela equipe de Monteiro na Universidade de São Paulo e são amplamente reconhecidos na literatura científica.
  • O projeto financiado pela Novo Nordisk visa desenvolver a chamada classificação “Nova 2.0”, à qual Monteiro se opõe fortemente.
  • Ele critica Arne Astrup , uma figura-chave por trás do projeto, por declarações anteriores contra a classificação Nova e por suas conexões com pesquisas financiadas pela indústria.
  • A carta destaca preocupações de que o projeto poderia deturpar ou cooptar a classificação Nova de maneiras que atendessem aos interesses corporativos, potencialmente prejudicando a pesquisa existente sobre alimentos ultraprocessados.
  • Monteiro exige formalmente que o projeto não utilize o nome Nova, não implique uma associação com a classificação original Nova e não utilize o termo “alimentos ultraprocessados” em nenhuma nova classificação.
  • A carta também é compartilhada com colegas e organizações internacionais que contribuíram para a estrutura Nova.

É uma declaração forte enfatizando a integridade científica e preocupações sobre a influência da indústria na pesquisa de classificação de alimentos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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12 Comentários
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  1. Aaron Schwartz

    27 de fevereiro de 2025 10:05 am

    É O LUCRO ACIMA DE TUDO,DINHEIRO ACIMA DE TODOS SEM ÉTICA MORAL E DECÊNCIA NENHUMA,POR ISSO Q TEM Q TER LIMITES E PUNIÇÕES EFETIVAS !!!
    OBS.:NASSIF SEM FALAR OS REMÉDIOS Q ANTES TINHAM DOIS,TRÊS ANOS DE VALIDADE,DIMINUÍRAM PARA DOIS E UM ANO SÓ PARA TER MAIS GIRO,É O DINHEIRO ESTÚPIDO !!!

    1. Nelson N. Libbos

      27 de fevereiro de 2025 8:24 pm

      Não sabe o
      Que fala ! Com a criação da Anvisa os requisitos regulatórios subiram , justamente para garantir a efetividade do medicamento !
      Anta você poderia estar tomando produto com potência reduzida pelo tempo de armazenagem !
      Criticar é fácil !
      Hoje os medicamentos brasileiros são considerardos , pelas normas criadas e descutidas com a Anvisa, estandar mundial !
      Atirar pedra sem conhecer conteúdo é fácil!

      1. Baco.

        28 de fevereiro de 2025 12:41 pm

        Como é ingenuidade supor que tais decisões sejam apenas “científicas”, em um ambiente onde agências reguladoras são presas das indústrias que deveriam regular, aliás, a própria ideia de agência para estatal já é um convite.

        Mas, você tem, por enquanto, razão, sem prova, sem fato.

        Porém, nosso dever afastar as asneiras, mas sem perder o ceticismo necessário a qualquer processo regulatório e de fiscalização.

      2. AMBAR

        28 de fevereiro de 2025 3:28 pm

        Quem diz nos curar é o mesmo que nos envenena. Manter-nos vivos tem que dar tanto lucro quanto nos manter doentes.

      3. Emerson Rodrigues de Souza

        3 de março de 2025 8:24 pm

        Perdi o respeito quando li a palavra “anta” na sua réplica.

  2. Baco.

    27 de fevereiro de 2025 10:18 am

    Nassif,

    A existência da indústria de fármacos, por mais louco que pareça, é a principal indutora do mercado ilegal de entorpecentes.

    Não seria exagero dizer que uma não existe sem outra.

    Lugares comuns, como o oxicontin e a crise de opióides, fentanil e toda gama de produtos derivados diretamente da abordagem comercial agressiva de substâncias altamente perigosas, e que nunca poderiam ter se “popularizado”.

    Nessa esteira, a indústria age como obstáculo às pesquisas ou programas que possam significar obstáculos aos lucros.

    Exemplo, a cannabis.

    Há a hierarquia de pesquisa, onde a malária aguarda na fila há anos, já a alopécia ou disfunção erétil são tratadas como prioridade.

    Neste caso, narrado por você, classificação de alimentos, origem ou uma das origens da pandemia de obesidade e doenças crônicas, justamente, o alvo da empresa.

    Se as pessoas e governos agirem na causa, quem vai lucrar com o efeito.

    O problema nem é, apenas, o relacionamento com a mídia, uma distorção grave.

    A questão é a promiscuidade com médicos e o comércio.

    Viagens, seminários, brindes, dinheiro, suborno clássico, em visitas disfarçadas de divulgação científica, e na ponta comercial as “gueltas” para balconistas e farmacêuticos, e enfim, “os clubes de compras”, que condicionam enormes “descontos” a um cadastro onde o paciente informa o CRM do médico, que, óbvio, vai ser recompensado (ou não) na medida de seu engajamento.

    Eu sei que seu texto pode ser resultado de uma guerra que está ajudando no STF, sobre quando começou a contar o prazo de expiração da patente, se no registro no INPI (o que o entendeu, até ontem) ou se conta a partir do registro Anvisa.

    Essa diferença de lapso temporal, 2025 ou um pouco mais para frente significa alguns bilhões de dólares.

    Cabe ver se o STF está “vacinado” às pressões.

    1. AMBAR

      28 de fevereiro de 2025 3:11 pm

      STF vacinado? Ou as viagens, brindes, incentivos, palestras e derivados são só para a medicina?

      1. Baco.

        28 de fevereiro de 2025 4:48 pm

        Foi uma ironia.

    2. Carioca

      1 de março de 2025 9:25 am

      Em país continental como o nosso “Guelta” é sinônimo de “supermercado melhor no fim do mês” de milhares de atendentes.

  3. Baco.

    27 de fevereiro de 2025 10:23 am

    E não faço uma acusação leviana, supondo que o STF se curve a corrupção.

    Nada disso.

    A pressão será política, na mídia, enfim, moverá uma gama de interesses econômicos que o STF já mostrou antes, ser incapaz de resistir, novamente, sem inferir condutas ilícitas na corte, mas por questões políticas, sempre legitimadas pela “chancela da técnica jurídica”.

    Como digo há anos, a hermenêutica é um verdugo que tortura a lei, até ela se dobrar a virar uma jurisprudência favorável.

    1. AMBAR

      28 de fevereiro de 2025 3:13 pm

      Pois é, basta seguir os professos entendimentos da corte.

  4. Emerson Rodrigues de Souza

    3 de março de 2025 8:20 pm

    Çerra, sempre o Çerra!
    No baú do Çerra, em sua coleção de ROLEX, quantos haverão?
    O do trem bala: Rio, São Paulo, Campinas, tem a borda recheada de diamantes.

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