4 de junho de 2026

“O menino de sua mãe”, por Fernando Pessoa

do blog de Gilberto Cruvinel

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No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».
.
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

………………………………………………………………………………………………….
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). – 217.
1ª publ. in Contemporânea , 3ª série, nº 1. Lisboa: 1926.

…………………………………………………………………………………………………
vídeo: Fernando Pessoa por Paulo Autran

http://www.youtube.com/watch?v=8CIZ2n_kKAQ

 

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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  1. jc.pompeu

    30 de março de 2014 10:35 pm

    [197]          TOMAMOS A

    [197]          TOMAMOS A VILA

    DEPOIS DE UM INTENSO BOMBARDEAMENTO

    A CRIANÇA loura

    Jaz no meio da rua.

    Tem as tripas de fora

    E por uma corda sua

    Um comboio que ignora.

     

    A cara está um feixe

    De sangue e de nada.

    Luz um pequeno peixe

    – Dos que bóiam nas banheiras – 

    À beira da estrada.

     

    Cai sobre a estrada o escuro.

    Longe, ainda uma luz doura

    A criação do futuro…

     

    E o da criança loura?

    Fernando Pessoa / Cancioneiro

     

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