4 de junho de 2026

Movimento Armorial, por Ariano Suassuna

“Em nosso idioma, “armorial” é somente substantivo. Passei a empregá-lo também como adjetivo. Primeiro, porque é um belo nome.
Imagem: Capa e folha de rosto do exemplar de O Movimento Armorial com dedicatória de Suassuna a Antonio Nobrega, músico que integrou o Quinteto Armorial (Site Itaú Cultural)

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O MOVIMENTO ARMORIAL

Ariano Suassuna, 1974

O MOVIMENTO ARMORIAL

Pode-se dizer que a Arte Armorial precedeu o Movimento Armorial, ao contrário daquilo que normalmente acontece nesses casos. De fato, o trabalho criador da maioria dos artistas armoriais começou muito antes do lançamento oficial do Movimento. Por outro lado, este ainda está em plena atuação, de modo que, em algumas áreas Artísticas ou Literárias – como o Cinema, o Teatro ou a Arquitetura, por exemplo – está apenas esboçado ou planejado, formulado teoricamente, à espera de uma realização efetiva. Todos os participantes do Movimento Armorial estão de acordo num ponto: em Arte, a criação é mais importante do que a teoria. É por isso que, até agora, tratamos mais de criar um mínimo de base teórica, e é essa base teórica que apresentamos aqui agora, reunindo pela primeira vez, de maneira sistemática e organizada – se bem que resumida – definições e posições tomadas em ocasiões diversas.

Tratemos, pois, em primeiro lugar, de apresentar uma definição geral, que abranja o Movimento Armorial inteiro. Ela foi proposta no “jornal da Semana” do Recife, em 20 de maio de 1973, nos seguintes termos:

“A arte armorial brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos “folhetos” do Romanceiro popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus “cantares”, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados”.

Exemplo da arte armorial. Gravura feita para ilustrar o romance de Ariano Suassuna, o Romance da Pedra do Reino (1971). 

O “folheto” da nossa Literatura de Cordel pode, realmente, servir-nos de bandeira, porque reúne três caminhos: um, para a Literatura, o Cinema e o Teatro, através da poesia narrativa de seus versos; outro, para as Artes Plásticas como a Gravura, a Pintura, a Escultura, a Talha, a Cerâmica ou a Tapeçaria, através dos entalhes feitos em casca-de-cajá para as Xilogravuras que ilustram as capas; e finalmente um terceiro caminho para a música, através das “solfas” e “ponteados” que acompanham ou constituem seus “cantares”, o canto de seus versos e estrofes.

O NOME “ARMORIAL”

Existindo, já, a Arte Armorial, pode-se dizer, porém, que ela só foi reunida de maneira deliberada e consciente depois que se tornou o principal elemento dinamizador dos trabalhos do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco. No dia 18 de outubro de 1970, realizaram-se, na igreja de São Pedro dos Clérigos, do Recife, um concerto e uma exposição de Artes plásticas, para cujo programa escrevi as seguintes palavras:

“Em nosso idioma, “armorial” é somente substantivo. Passei a empregá-lo também como adjetivo. Primeiro, porque é um belo nome. Depois, porque é ligado aos esmaltes da Heráldica, limpo, nítidos, pintado sobre metal ou, por outro lado, esculpidos em pedra, com animais fabulosos, cercados por folhagens, sóis, luas e estrelas.

Foi aí que, meio sério, meio brincando, comecei a dizer que tal poema ou tal estandarte de Cavalhada era “armorial”, isto é, brilhava em esmaltes puros, festivos, nítidos, metálicos e coloridos, como uma bandeira, um brasão ou um toque de clarim. Lembrei-me, aí, também, das pedras armoriais dos portões e frontadas do Barroco brasileiro, e passei a estender o nome à Escultura com a qual sonhava para o Nordeste.

Descobri que o nome “armorial” servia, ainda, para qualificar os “cantares” do Romanceiro, os toques de viola e rabeca dos Cantadores – toques ásperos, arcaicos, acerados como gumes de faca-de-ponta, lembrando o clavicórdio e a viola-de-arco da nossa música barroca do século XVIII”.

O movimento armorial pretende realizar uma Arte brasileira erudita a partir das raízes populares da nossa Cultura. Por isso, algumas pessoas estranham, às vezes, que tenhamos adotado o nome “armorial” para denominá-lo. Acontece que, sendo “armorial” o conjunto de insígnias, brasões, estandartes e bandeiras de um povo, no Brasil a Heráldica é uma arte muito mais popular do que qualquer outra coisa. Assim, o nome que adotamos significava, muito bem, que nós desejávamos ligar-nos a essas heráldicas raízes da cultura popular brasileira. E tanto assim era, que, convencendo as pessoas que (?) de criar, dizíamos naquele mesmo programa de 1970:

“A unidade nacional brasileira vem do povo, e a heráldica popular brasileira está presente, nele, desde os ferros de marcar bois e os autos dos Guerreiros do Sertão, até as bandeiras das Cavalhadas e as cores azuis e vermelhas dos pastoris da Zona da Mata. Desde os estandartes de Maracatus e Cabocolinhos, até as Escolas de Samba, as camisas e as bandeiras dos clubes de futebol do Recife ou do Rio”.

A PINTURA ARMORIAL

Nem sempre as pessoas que participam das exposições de arte Armorial ou que trabalham para o Departamento de Extensão Cultural da UFPe são artistas oficialmente armoriais, integrantes efetivos do Movimento Armorial. No entanto, foi refletindo sobre as características comuns do trabalho de uma porção de gente que se formulou – se se pode falar assim – a teoria da Pintura Armorial. Naquele mesmo programa-catálogo de 1970, falando sobre a pintura de Francisco Brennand, dizíamos algumas palavras que são fundamentais para o entendimento da pintura armorial. Eram as seguintes:

“Nos quadros do grande Francisco Brennand, certos frutos e folhagens aparecem como selos ou brasões pintados no centro da tela, como se esta fosse um enorme escudo de armas: o caju vermelho ou amarelo, é o fruto brasileiro por excelência e é, portanto, a nossa insígnia vegetal brasileira, assim como a Onça é o nosso animal heráldico mais característico”.

O Olho de Deus. Óleo sobre tela, 110 x 145 cm, Francisco Brennand, 1980?

Miguel dos Santos participou da segunda exposição de arte armorial, realizada na Igreja do Rosário dos Pretos, em 26 de novembro de 1971. A seu respeito, escrevi, depois, as seguintes palavras, publicadas no “jornal da Semana” de 14 de Janeiro de 1973:

“Às vezes me perguntam se meu romance armorial brasileiro, “A PEDRA DO REINO”, tem ligação com o “realismo mágico”, cuja teoria foi formulada pelos franceses. De modo nenhum. Minha peça “UMA MULHER VESTIDA DE SOL” é de 1947; o “AUTO DE JOÃO DA CRUZ” é de 1950; o “AUTO DA COMPADECIDA” é de 1955. Todas elas são, já, ligadas ao Romanceiro Popular do Nordeste, e é à mesma fonte que se prendem as raízes de criação de “A PEDRA DO REINO”, bem anteriores, portanto, ao “realismo mágico” europeu. O mesmo acontece com Miguel dos Santos, que, aliás, me deu a honra enorme de pintar um belo quadro, “A BESTA BRUZAÇÔ baseado em meu romance.

O quadro foi vendido para um museu do Canadá, e nele, como nos outros, está presente esse espírito mágico – brasileiro, nordestino e de raiz popular, e não ligado, como disse, ao “realismo mágico” ou ao “surrealismo” dos franceses. Veja-se bem que existe uma diferença bastante acentuada entre os pintores surrealistas, ou ligados aos precursores do surrealismo, e um pintor como Miguel dos Santos, cuja “garra” popular e cuja força brasileira são as mesmas dos “folhetos” e Xilogravuras do Romanceiro popular nordestino.

É verdade que sou um tanto suspeito para falar assim, porque é à mesma linhagem de Miguel dos Santos ou de Gilvan Samico que eu pertenço, tanto em minha poesia, como em meu teatro, ou no meu “ROMANCE D’A PEDRA DO REINO”. Mas só sei falar com entusiasmo daquilo que realmente me toca – e a pintura de Miguel dos Santos é algo que me entusiasma, principalmente quando ele povoa seus quadros a óleo, ou suas cerâmicas, de bichos estranhos: dragões, metamorfoses, cachorros endemoniados, santos, mitos e personagens nordestinos, anjos e demônios – uma obra tão ligada ao Romanceiro e, por isso mesmo, tão expressiva da visão tragicamente fatalista, cruelmente alegre e miticamente verdadeira que o povo brasileiro tem do real”.

De outra vez, escrevendo sobre um pintor armorial, Aluízio Braga, eu lembrava, a respeito desse ex-operário que, no Movimento Armorial, quando falávamos em “ouro”, “prata” ou “pedras preciosas”, estávamos fazendo referência era aos vidrilhos, lantejoulas e metais baratos que o povo usa para enfeitar suas roupagens principescas, nos “autos guerreiros”, por exemplo.

Eu dizia que esses metais populares, apesar de baratos, eram mais valiosos do que os “verdadeiros” usados pelos ricos, porque continham uma quantidade maior de sonho humano. E dizia que Aluízio Braga, ao pintar seus quadros minúsculos, bordados, esmaltados e cheios de joiarias que parecem reencontrar o espírito das “miniaturas” persas ou hindus, estava fazendo o mesmo que os atores de “autos de guerreiros” ou “caboclos de lança”: criando motivos de sonho e abrindo portas de grandeza para nosso povo.

Ainda a propósito de outra pintora integrante do Movimento, Lourdes Magalhães, escrevi as seguintes palavras, necessárias à compreensão da pintura armorial:

“Ela (Lourdes Magalhães), como os homens do povo, sempre teve atração pelos vidrilhos e lantejoulas, tendo sido daí que se originaram as ornamentações de seus quadros, de suas figuras, de seus “tatuados”, das suas “homenagens a Pernambuco” através de signos e insígnias. Lourdes Magalhães sempre foi atraída por essa grandeza do povo nordestino, esse povo que, dentro de sua pobreza, organiza cortejos e espetáculos em que estandartes e chapéus de Príncipes populares parecem verdadeiros templos asiáticos – coisa que já vi várias vezes na Paraíba, em Pernambuco, em Alagoas”.

Mas como, ainda assim, reclamassem que, depois de tantas exposições, ninguém sabia ainda, por falta de uma definição, o que era um quadro armorial, escrevi, em 11 de dezembro de 1973, a propósito da primeira exposição de Geber Accioly, as seguintes palavras:

“Diferentemente da acusação que nos fazem, somos perfeitamente capazes de definir as características da Pintura armorial. São as seguintes: parentesco com o espírito mágico e poético do Romanceiro e das Xilogravuras populares do Nordeste; ausência de perspectiva, de profundidade ou relevo, ou então, perspectiva, profundidade e relevo apenas indicados; uso predominante de cores puras, distribuídas em zonas achatadas; desenho tosco e forte, quase sempre contornado, como herança da Pintura popular; semelhança com os brasões, bandeiras e estandartes dos espetáculos populares nordestinos; parentesco com o espírito da Cerâmica e da Tapeçaria”.

E se acrescentarmos que tudo isso aí reunido se encontra também nos quadros pintados sobre madeira do grande Gilvan Samico, teremos uma idéia bastante completa da pintura Armorial.

Três mulheres e a lua. Gilvan Samico, xilogravura, 26,5 x 27,3 cm. 1959.

A ESCULTURA ARMORIAL

Da escultura armorial, o melhor que podemos dizer é que ela origina, diretamente, dos entalhes das xilogravuras dos “folhetos”, da tradição da Escultura em madeira dos “santeiros” e “imaginários”, e das Esculturas em pedra do barroco “primitivizado” do Nordeste. O trabalho do escultor Armorial Fernando Lopes da Paz parte de tudo isso. Tem um espírito apocalíptico, que lhe vem, ao mesmo tempo, da tradição da Literatura de Cordel, da leitura dos livros proféticos judaicos e do contacto com os escritores e poetas armoriais.

Fernando Lopes da Paz é um homem do povo e traz em suas veias essa forte seiva do sangue nacional brasileiro. Eu, há muito tempo não me conformava com o fato de a Escultura, no Nordeste, vir sendo feita, quase que somente, em gesso e metal. Achava, como ainda acho, que os grandes momentos da Escultura em todo o mundo coincidem com o emprego da madeira e da pedra, e foi nesse sentido que fiz um apelo a Fernando Lopes da Paz para que voltasse a empregar esses materiais. Ainda não pudemos iniciar os trabalhos em pedra.

Mas já iniciamos o de madeira, em talhas enormes como “A luta da besta Bruzaçã com o anjo”, ou em gigantescas esculturas como o “Cristo Armorial”, esculpido num só bloco de jaqueira com cerca de 2 metros de altura.

A CERÂMICA E A TAPEÇARIA ARMORIAIS

No Movimento Armorial ainda não encontramos um artista que se queira dedicar à procura de uma cerâmica como a que sonhamos. Nem criamos as condições de trabalho para aquele que porventura apareça – pois seria artificial fazer um forno e esperar pelo artista – nem encontramos um jovem ceramista que, com preocupações semelhantes às nossas, passe a pesquisar e criar nesse campo. Ainda assim, o trabalho de Francisco Brennand e o de Miguel dos Santos já deixam ver, perfeitamente, a beleza e a importância do que se pode fazer nesse campo. Temos uma tradição popular muito forte, de Ceramistas e Louceiros. Murais como “A batalha dos Guararapes”, de Brennand, ou pratos e placas como “A Besta Bruzaçã” de Miguel dos Santos, são obras de importância fundamental para a arte brasileira.

Trecho de A Batalha dos Guarapares. Francisco Brennand, 1960-61. O mural possui 2,30 x 32,5 m. Bairro de São José, Recife.

Ambos esses artistas, também, realizam santos ou animais modelados em barro, que vão ao forno como os santos feitos em Caruaru ou Tracunhaém pelos artesãos populares, e que, em alta temperatura, adquirem aquela cor metalizada e forte que dá a maior nobreza a essa bela Arte que é a Cerâmica.

Quanto à Tapeçaria, contamos, no Movimento Armorial, com o extraordinário trabalho de Maria da Conceição Brennand Guerra. Filha de Francisco Brennand – que também faz tapetes – segue, no entanto, uma linha personalíssima, original, diferente e forte. No Movimento Armorial, estamos perfeitamente conscientes da unidade cultural de toda a América Latina, e, mais, do parentesco cultural que nos une à arte hindu, à etíope etc.

Isso não significa que preguemos nenhuma uniformidade cultural monótona; pelo contrário: fazemos questão de preservar as peculiaridades nacionais e a independência individual de cada artista. Neste sentido podemos dizer que as onças, as cobras ou os animais alados e míticos de que Maria da Conceição Brennand Guerra povoa seus grandes tapetes, são ligados, ao mesmo tempo, a uma Arte Popular ainda viva e atuante no Nordeste – como as Xilogravuras das capas dos folhetos – e, ao mesmo tempo, ao espírito e às formas da arte desses estranhos impérios latino-americanos que permanecem dentro de nosso sangue da mesma maneira como foram sepultados em nosso chão, para serem desencavados e ressuscitados a cada instante, não pelo trabalho frio dos arqueólogos, mas pela revisão criadora dos nossos escritores e artistas.

É como se toda essa enigmática Cultura Latino-Americana antiga fosse uma só: florescendo entre os Aztecas ou Incas, teria decaído noutros lugares; mas têm, todas, ao que parece, uma origem única. No século XX, nós, brasileiros, mexicanos, uruguaios, colombianos, peruanos, paraguaios, bolivianos, etc., tivemos, de repente, a consciência de que esses Reinos estranhos estavam fundamente entranhados em nosso sangue, e as tapeçarias de Conceição Brennand Guerra, assim como as novelas latino-americanas, parecem sair desse chão, desse húmus, dessa poderosa terra, ao mesmo tempo familiar e estranha que é a nossa e à qual somo fiéis, talvez mesmo sem o pressentir direito.

A GRAVURA ARMORIAL

A gravura armorial identifica-se com esse grande artista que é Gilvan Samico. No Movimento Armorial não existem mestres nem discípulos: existem companheiros de trabalho que, descobrindo entre si preocupações semelhantes, passaram a se estimular mutuamente com seu trabalho criador. Certa vez, Dom Miguel de Unamuno declarou que ”não era discípulo deste ou daquele porque era discípulo de todos”. Glosando a meu modo a frase de Unamuno, escrevi, a propósito de Samico, umas palavras que, depois, estendi a todos nós, como um dos pontos fundamentais do nosso programa de trabalho: “Aluno de todo mundo e da vida, mas, por isso mesmo, único mestre de si mesmo e discípulo de ninguém”. Para dar uma idéia do que seja a Gravura Armorial de Gilvan Samico, transcrevo parte do artigo que escrevi sobre ele e que publiquei no “Diário de Pernambuco” de 1o de novembro de 1964:

O campo da gravura e do Romanceiro nordestinos é, para mim, um Reino maravilhoso, povoado de coisas, seres humanos, ações e encantamentos, um reino imaginoso, dotado de estranha beleza…É desse mundo estranho o belo do Romanceiro e das capas de “folhetos” nordestinos que brota a gravura de Gilvan Samico. É nesse mundo que ele mergulha, procurando um reencontro com as raízes de seu sangue, e de onde regressa com seus “pássaros de fogo”, seus “dragões” que, por entre folhagens e cachorros, relembram os grifos dos púlpitos da Igreja de São Francisco, da Paraíba; será talvez por isso, então, que Francisco (de Assis), essa “fera de Deus”, aqui está, ao lado de seu lobo, assim como Daniel, imune e profético, olha tranqüilamente para seu leão.

Criação – o sol, a lua e as estrelas. Gilvan Samico, xilogravura 92,5 x 53 cm. 2011. 

Só julgará que esses temas não nos pertencem, quem não sabe que o deserto da Judéia é, também, o Brasil; ou que Samico, incluindo Santos e profetas em seu mundo, está apenas, mais uma vez, sendo fiel à mais verdadeira linhagem da arte brasileira desde seus começos; e, sobretudo, quem não sabe que o Sertão é o Mundo… Sim, porque o mundo de Samico, como o mundo da gravura popular nordestina, – do qual ele é, ao mesmo tempo, o herdeiro e o Rei – é povoado de pavões, a ave-insígnia da beleza, a qual mereceu esse título por ser incrustada de pedras preciosas, por ter a cabeça-de-serpente do mal, e os pés-de-ladrão, maldosos e grosseiros, do feio mundo; de bois encantados e de cavalos misteriosos; de “guerreiros do ar” e de virgens que saem de palmas como quem sai de um incêndio ou do fogo da Sarça Ardente; de “traições”, de estandartes e demônios… Que aspecto têm essas gravuras?

Como sucede com toda verdadeira obra de arte, dão a impressão de soberana simplicidade… Seu segredo consistiu apenas em o gravador voltar a certos processos que os novidadeiros julgavam esgotados; em voltar ao uso do material mais puro, nobre e primitivo da gravura – a madeira; em regressar às suas raízes, recriando, com grande liberdade e Imaginação, o espírito e as formas da xilogravura do seu povo; em contornar as figuras de um limpo traço negro, que se destaca nos puros espaços brancos, por entre massas negras e tramas delicadamente interpostas, e toques de vermelho, verde, azul ou amarelo, que a Gravura popular não usa mas que ele fez muito bem em introduzir para recriá-la”.

À primeira vista, parece fácil, mas quem fizesse essa apreciação superficial demonstraria apenas que é incapaz de invenção, que nunca experimentou, por dentro, o que é a áspera e complexa escalada em direção à beleza, que, depois dela, aparece com sua face radiosa, simples e domada… Mas essa gente, exatamente por não ter a raça dos verdadeiros criadores, ainda não se apercebeu de que, a despeito de tudo, o Brasil já está no limiar do seu grande destino; por isso, inclinam-se diante de qualquer coisa, de qualquer pessoa, de qualquer idéia que venha de fora… Samico teve a sabedoria de ver e a coragem de realizar.

Teve tenacidade para se manter firme numa atitude que muitos julgavam anacrônica, esquecidos – como os demônios da esterilidade e da confusão que os poetas e gravadores do Nordeste evocam em seus “folhetos”- de que o verdadeiro artista sempre foi apenas um artesão mais dotado na tradição de um artesanato coletivo. O artista peculiar e soberano era o caso excepcional: surgia naturalmente, por si mesmo, não forçando as portas da originalidade, mas encontrando-a naturalmente, para tornar sua obra como que a coroa da arte de seu povo.

É por isso, por ter encontrado seu caminho pessoal dentro da maravilhosa tradição popular, que o mundo de Samico aparece com tanta novidade, com todas as contradições e purezas da violência, dentro do mundo da gravura brasileira, cinzento e monótono, onde quase que só se exercitavam os maneirismos de uma arte européia de segunda-mão e onde hoje, graças a ele, os pássaros de fogo do sol nordestino fulgem como estrelas ou dragões incendiados nas torres e bandeiras do Reino do Sertão do Brasil.

Tais palavras são suficientes para se dar uma idéia também da Pintura que Gilvan Samico vem fazendo a partir de 1971, tão grande e importante quanto sua extraordinária Gravura e que, portanto, revela mais um aspecto do gênio desse artista, que é orgulho do Movimento Armorial.

O TEATRO, O CINEMA E A DANÇA ARMORIAIS

Para ser exato, devo dizer que, dessas três artes, foi somente quanto ao Teatro, e um pouco quanto ao Cinema, que o Movimento Armorial apresentou alguma coisa, até agora. Mas pode-se dizer, também, que as idéias gerais e os trabalhos já apresentados no campo do Teatro e do Cinema valem também, devidamente adaptados, para a Dança Armorial com a qual sonhamos e que ainda viremos a realizar um dia, se tivermos condições para isso.

Nosso Teatro Armorial tem seus pontos de vista formados e próprios: Não digo que sejam os únicos certos, os único válidos. Mas, discordando, nisso, mesmo de alguns amigos e velhos companheiros de trabalho, não conhecia – nem as aceito, agora que as conheço – as formulações teóricas do teatro sectário de Bertolt Brecht e de seus seguidores latino-americanos de segunda-mão. A fórmula brechtiana começou investindo conta o “ilusionismo teatral” e está destruindo “a ilusão e a encantação do Teatro”, coisas fundamentais para essa Arte.

Sem elas, o Teatro não vive, fenecendo e afastando-se do humano, pelo intelectualismo cerebral, frio, discutidor, exclusivamente crítico e ideológico. Meus fundamentos de criação eram e continuam a ser muito diferentes das estreitas fórmulas brechtianas. Não aceito o “distanciamento” brechtiano (aliás originado de Claudel e Yeats ), fórmula crítica, política, estreitamente sectária e ideológica. Não aceito a fragmentação exagerada da ação, pois nisso, como no uso do poético e do maravilhoso, dos tipos, dos cantos, das danças, das máscaras, sou herdeiro é do Teatro Antigo, assim como, principalmente, dos espetáculos nordestinos. Mantenho a distinção entre Epopéia e Teatro.

Por outro lado, não me interessam nem o Drama psicológico e burguês, nem o Drama politizado do Teatro sectário. Sempre preferi a Tragédia e a Comédia, formas mais preferidas pelo povo, mais próximas do espírito do nosso romanceiro. Pode-se dizer, portanto, que, assim como a Gravura Armorial parte das Xilogravuras populares dos folhetos, o Teatro Armorial parte dos romances, das histórias trágicas ou picarescas da Literatura de Cordel, assim como dos espetáculos populares do nordeste, e tem, no campo da arte erudita, um espírito muito semelhante ao deles.

Cena da peça O Auto da Compadecida. Embora tenha sido escrita e lançada em 1955 por Ariano Vilar Suassuna, a peça se tornou uma das referências no teatro armorial. 

Quanto ao Teatro, lembro que empreendemos, primeiro, uma dramaturgia de caráter nordestino e ligada à Literatura de Cordel e aos espetáculos populares nordestinos. Depois, procuramos também sugerir a Encenadores, Figurinistas, Cenógrafos e Atores, um modo brasileiro de se vestir, de representar e atuar no palco. Para dar um exemplo do que digo, escolho, de propósito, uma entrevista que dei ao “jornal do Comércio”, do Recife, em 29 de junho de 1963.

Essa entrevista esclarece muita coisa do que penso sobre o teatro e sobre um possível Cinema Armorial, porque foi dada por ocasião da primeira tentativa mais séria que se fez, aqui, de fazer um filme baseado em minha peça, “Auto da Compadecida”. Dessa entrevista, destaco os seguintes trechos:

“Na adaptação do “Auto da Compadecida” para o Cinema, resolvi por em prática algumas idéias que tenho há muito tempo sobre o espetáculo brasileiro de um texto brasileiro. Não creio que a meus textos de teatro se adapte um espetáculo convencionalmente realista, europeu, e ocidental… Creio que o “Auto da Compadecida” – como todo o meu teatro_ exigiria uma montagem criadora e livre, que, como o texto, se baseasse na invenção dionisíaca e espetacular do Bumba-meu-boi, do Mamulengo, da Nau Catarineta, do Pastoril… Gostaria, por isso, de ver encenadores e atores de minhas peças, entregues a um trabalho de recriação e de amor ao espetáculo popular nordestino.

Baseados em meus textos, deveriam partir deles para um espetáculo mágico, festivo, com músicas, danças, máscaras, bichos e demônios. A música deveria ser sertaneja: os tambores, os pífanos, as violas, as rabecas; a dança das facas, o xaxá, a orquestrinha do Bumba-meu-boi. A beleza dos trajes do espetáculo nordestino: o gibão dos vaqueiros, cheios de bordaduras, verdadeiras armaduras de couro vermelho; as moedas e estrelas de prata dos arreios e chapéus de couro; as esporas; as roupas de Almirante da Nau Catarineta; os Reis do bumba-meu-boi, todos vestidos de espelhos, com as cabeças ornamentadas com chapéus que parecem templos do Sião ou Mitras episcopais; os trajes litúrgicos da Igreja e dos militares; a roupa solene e cômica do doutor, os bichos fabulosos – a onça, a jumenta, o jaraguá… O espetáculo com que sonho, o teatro com que na verdade sempre sonhei, é este.

Se eu fosse montar o teatro o “Auto da compadecida” fa-lo-ia assim: com músicas e danças; João Grilo seria o “Mateus”; Chico o “Bastião”; Cristo, o “Rei”; o demônio (encourado), o “vaqueiro”; Nossa Senhora seria a “Rainha” ou a “Diana”, que eu introduziria arbitrariamente no espetáculo, seguindo, aliás, a liberdade arbitrária e inventiva da Arte popular; o padeiro seria o “doutor”; a mulher do padeiro, a “Catarina”; e, com esses personagens ao lado de outros que já seriam “tipos” – o Padre, o Bispo, o Fazendeiro, os Cangaceiros, – faria um espetáculo brasileiro de um texto brasileiro.

Na adaptação da peça para o filme, procurei introduzir esses elementos. Não exatamente como está aí, pois se trata de uma outra arte. Mas, de qualquer forma, as vestimentas e os tipos do Bumba-meu-boi foram usados, para, com a cor, acentuar a supra-realidade da cena do julgamento dos personagens: O cordão azul, com o estandarte da estrela – cavalgada de Nossa Senhora – e o cordão encarnado, com o estandarte do tridente – cavalgada do encourado, do demônio; a “dança das facas”, para dar uma idéia da oposição entre a mulher e a serpente; os cangaceiros; e, em todo o filme, sugeri que a música fosse a do sertão: zabumbas – isto é, pífanos, tambores e pratos – para o Encourado; violas e rabecas para a Compadecida – Nossa Senhora”.

Os atores Selton Mello como Chicó e Matheus Nachtergaele como João Grilo, protagonistas do filme O Auto da Compadecida (2000).

Como se vê era o desejo de um espetáculo total brasileiro, no qual se usassem as máscaras, o canto, a música, a dança, as roupagens imaginosas dos espetáculos populares nordestinos. Eu queria que o teatro, o cinema e a dança brasileira se identificassem com o espírito e a forma desses espetáculos, do mesmo modo pelo qual, no Japão, o cinema bebia nas fontes de seu teatro nacional… O “nô” e o “kabuki”. É claro que não pretendia que imitássemos o cinema e o teatro japoneses. O que eu queria era que nós fizéssemos, em relação a nosso cinema, nosso teatro o mesmo que os cineastas japoneses tinham feito em relação ao filme de “Samurai”, aproximando o cinema de sua pátria das duas formas principais de seu teatro nacional e popular.

E tanto eram essas minhas preocupações, que, em 4 de agosto daquele mesmo ano de 1963, no mesmo “jornal do Comércio” do Recife, eu publicava outro artigo, este mais especialmente sobre cinema, do qual assinalo as seguintes palavras:

“O mal que tem causado à arte contemporânea o esteticismo e o excesso de teoria é incalculável. No caso particular do cinema, por exemplo, creio que, se quando Chaplin começou a fazer filmes, houvesse tantos teóricos como hoje, ele teria seu trabalho bastante perturbado pela crítica.

Na verdade, quase todas as cenas de seus filmes podem se passar entre quatro paredes, num palco, são cenas de pura pantomima: e, se os teóricos tivessem tido oportunidade de falar, talvez ele tivesse sido acusado de fazer, não “Cinema puro”, mas sim “mímica filmada”… Um outro cinema de primeira qualidade e baseado numa tradição teatral é, a meu ver, o japonês.

O filme de “Samurai”, com suas ações guerreiras, sua esgrima que é quase uma dança – às vezes com um leve matiz cômico – suas armaduras, suas espadas que cintilam ao sol, seu tom épico, seus diálogos espirituais, a beleza das vestimentas – tudo isso herdado do teatro japonês – constitui, a meu ver, muito mais do que o “western” americano – que, junto dele, não passa de uma brincadeira de adolescentes – o herdeiro moderno do “épico” antigo””.

Já se entende, então, que não era apenas uma frase ou uma simples brincadeira a afirmativa que eu faria depois, quando da estréia do filme “A compadecida”, dizendo que, na minha opinião, um filme para ser bom tinha que ter quatro elementos fundamentais – além de outros, acessórios: mulher, punhal, cavalo e bandeira. Era uma maneira de fazer o público comum entender que, para mim, trágico ou cômico, um filme tinha que ser marcado pelo elemento épico, festivo e espetacular do teatro popular nordestino – do “Auto de Guerreiros” ao “Fandango”, do “Mamulengo” ao “Bumba- meu-boi”.

Quanto à dança, em 1959, tentei, juntamente com Ana Regina – uma das professoras de balé do Recife naquele ano – realizar uma dança erudita nordestina baseada em raízes populares. Escrevi uma história intitulada “os medalhões” para uma música de Guerra Peixe, e o espetáculo foi encenado no Teatro Santa Isabel, pelas alunas da referida professora, nos dias 6, 7 e 8 de novembro daquele ano com Eliane Isis Vieira, Elvira Amorim e Sílvia Suassuna nos papéis principais.

Mas, para que se atingisse o que realmente era necessário, faltava muita coisa a ele: de modo que a Dança armorial, por enquanto, é apenas uma aspiração nossa, sonhada nas mesmas linhas mestras acima apontadas para o teatro e o cinema, à espera de coreógrafos e dançarinos com preocupações semelhantes às nossas e com suficiente espírito criador para “esquecer” o que aprenderam errado, ver o que o nosso povo faz em matéria de dança e recriar tudo num sentido mais alto e mais profundo.

Fotografia do espetáculo Abô, do Grupo Grial de Dança, de vertente do movimento armorial, em apresentação no Recife, no ano de 2015. 

Não esquecer que o Brasil é hoje, talvez, no mundo, o único país capaz de mobilizar, num espetáculo só – o carnaval popular – milhares de figurantes, numa dança que não foi encarada até agora com a importância que merece, pois parece que só teve coisa parecida no mundo mediterrâneo, com os jogos e espetáculos gregos antigos.

A ARQUITETURA ARMORIAL

Em 26 de agosto de 1961, na Faculdade de Filosofia do Recife, li um ensaio que escrevera sobre a Arte brasileira, numa espécie de conferência, depois repetida na Faculdade de Arquitetura. Nesse ensaio, manifestava minha insatisfação com a Arquitetura brasileira atual, nos seguintes termos:

A arquitetura brasileira contemporânea, nem é arquitetura – pois é feia, fria e desagradável – nem é brasileira – pois é copiada de Le Corbusier, internacionalista, cosmopolita, requentada, brancosa, cartesiana, de paredes nuas, brancas, retas, e tendo, ainda por cima, desterrado de dentro de si a Pintura, a Cerâmica e a Escultura. Certa vez, Le Corbusier indignou um grupo de jovens arquitetos brasileiros que o visitavam, dizendo que toda a Arquitetura brasileira moderna originava-se da dele.

Le Corbusier tinha razão, e ainda foi delicado, porque não acrescentou que ele próprio faz, às vezes, por acaso, coisas boas, e nossos arquitetos só têm feito é copiar o que ele tem de pior, de mais brancoso, cartesiano e calvinista, repetindo fórmulas e o feio jargão de “gabaritos” “soluções”, e outras coisas “funcionais”. Tudo isso não tem nada de brasileiro.

Nossa arquitetura teria de ser imaginosa, meio demente, colorida, violenta, irregular, ardente e forte em certos casos, e, noutros casos, tranqüila e acolhedora; isto é, Arquitetura pública, no primeiro caso, e particular no segundo, ambas ligadas ao espírito popular brasileiro. Assim como o povo, dionisíaco, nos espetáculos populares públicos, se veste de Reis, e cria a “festa”, a dança, a sagração, assim deveriam ser criados nossos prédios públicos; e assim como também nosso povo é tranqüilo e acolhedor em suas moradas, assim deveria ser nossa arquitetura particular, que perdeu o segredo dos velhos mestres-de-obras, os quais tanto sabiam fazer os acolhedores casarões aristocráticos como as simples e agradáveis casas populares.

Os atuais “caixões” de paredes despidas e duras, semelhantes a postos de gasolina, não nos servem, não correspondem ao Brasil. Mas onde está nosso arquiteto jovem, bastante corajoso para empreender a revolta? Quem lhe encomendaria e pagaria os projetos, com o mau-gosto de hoje? Não acredito, como os regionalistas, que se deva “voltar ao colonial”.

Exemplo de arquitetura e escultura armoriais no terreno da Oficina Ricardo Brennand, Recife.

Temos é que criar, em relação a nosso tempo, uma arquitetura brasileira que a ele corresponda. Sonho com uma arquitetura civil e religiosa brasileira, a qual, partindo do bom-senso meio mouro e chão da arquitetura das casas, desse o salto maior para o divino, com florestas de pedra, colunas de arenito retorcidas em forma de troncos vegetais, dividindo fachadas e espaços revestidos de azulejos e cerâmicas, com linhas curvas, cariátides de pedra, algo que se lançasse tortuosa e triunfalmente para o alto através do maciço, do pesado e do irregular, exatamente como faz a alma humana que “compensa a rotina com a poesia e a exatidão com a loucura”.

A arquitetura precisa da pintura e da Escultura e estas decaíram quando abandonaram aquela. No seu caso – mais talvez do que em qualquer outro – é preciso voltar a encarar as artes dentro do fecundo caos original, numa fraternidade semelhante à de nossos sangues, reunidos na América Latina numa posição diametralmente oposta à uniformidade monótona sonhada pelos racistas. É por isso que nossas artes sentem necessidade de se aplicar, de se arejar, de partir para os grandes espaços, para o épico e o grandioso.

Em suma, deveríamos fazer o contrário de tudo isso que anda por aí com o nome de “moderno” ou de “funcional” e que resulta, simplesmente, da falta de imaginação criadora, e da mania de imitação do que vem de fora, da falta de coragem para lutar contra as idéias estabelecidas. Dizem que o “funcional” é uma imposição de caráter econômico, assim como dos materiais modernos, fabricados em série. Tal afirmação quando não é hipócrita é apenas uma saída para desculpar rotinas e acomodações.

Eu só acreditaria que a arquitetura brancosa e esterilizada que se faz atualmente no Brasil seria decorrente do preço mais barato dos materiais se não tivesse visto, já, inúmeras vezes, os burgueses e arquitetos se juntarem para derrubar partes de um casarão belo e sóbrio para revesti-lo com as aparências falsificadas do pretensiosamente chamado “estilo funcional”.

Quanto aos materiais, lembro o caso daquele que talvez tenha sido o único arquiteto de gênio do século XX, o grande catalão Antônio Gaudi, o qual reinventava e recriava cada material que ia empregar, que não tinha medo das formas imaginosas nem das cores fortes e cuja arquitetura pode servir de exemplo e ponto de partida para a nossa. É claro que não iríamos imitar Gaudi; iríamos tentar, em relação ao Brasil e à América Latina, o que ele fez em relação à Espanha.

Na cor dessa arquitetura que sonho, ora vejo o azul e o verde marinhos e da zona da mata, ora o vermelho, o ocre, o castanho e o amarelo do Sertão, com a presença de frutos e animais, em quadros, em cerâmicas e esculturas em pedra ou madeira, não “apostas” artificialmente ao resto, mas sim integradas harmoniosamente no conjunto. Uma catedral de uma (?) como uma jóia enorme e incendiada que Deus pudesse avistar com alegria.

Bem, esses eram meus sonhos em 1961. E, ainda hoje, o Movimento Armorial espera, em vão, que apareça o jovem arquiteto que, a seu modo, reinvente o que está aí, balbuciado em termos literários, por alguém que é apenas escritor e que, portanto, está perfeitamente disposto a abandonar seus sonhos por outro qualquer, mais eficaz, mais forte e mais formulado nos termos da própria arte que os despertou – a Arquitetura.

A LITERATURA ARMORIAL

No Movimento Armorial há poetas que são armoriais mais por serem “emblemáticos” como é o caso de Deborah Brennand, e outros que se ligam mais diretamente ao espírito e à forma do Romanceiro popular Nordestino. A poesia de Ângelo Monteiro seria uma espécie de ponte de ligação entre a poesia aristocrática e emblemática de Deborah Brennand e a de Janice Japiassu e Marcus Accioly (o de “Nordestinados”), estas últimas mais diretamente ligadas à Literatura de Cordel. No “poema do sertão”, de Deborah Brennand, o espírito Armorial é visível em bandeiras e estandartes, imagens emblemáticas e heráldico-populares, recriadas num espírito meio épico que poderíamos comparar a essa Arquitetura violenta, recortada e cheia de cores quentes de que acabamos de falar. É o seguinte:

Quando a serpente de ouro agonizar nas pedras
e o cardo do tempo agreste, longe, muito longe,
florir para ninguém seu único coração,
guarda o punhal e deixa no escuro a cruz de estrelas
santificar os brutos carrascos da noite.

Escuta o silêncio bicado por uma garça selvagem
ou o vento que arranha nos espinhos do sonho.
Escuta tudo, até o sino ordenar um sangrento levante
e a profecia cigana ler o destino do verão.

Então, não lamentes o amanhã. Ajaeza teu cavalo e segue,
entre o cheiro das juremas, nos ramos da terra clara.
Nos rios mortos, apanha o teu brasão, as três medalhas.
O gavião da luz devora um vôo de sombras frágeis.
Segue e rasga o lenço vermelho: está acesa a batalha!

Recordo, mais uma vez, que os “brasões” e “medalhas” de que se fala aqui são evocativos dos vidrilhos e lantejoulas populares. E, explicado isso, passo a dizer que Ângelo Monteiro, em seu livro “Armorial de um caçador de Nuvens”. Usa, numa “linha aristocrática e refinada, a sextilha” característica de Cantadores e autores de folhetos do Nordeste. É o caso do poema que transcrevo aqui, uma das ”Cantigas de fingimento” incluídas naquele livro:

Dormem panteras no corpo
como nuvens, como águas.
Mais serenas do que o sopro
de um campo feito de mágoas.
Nuvens de calma, só rendas:
como um desenho nas águas.

Dormem panteras no corpo
guardadas por mil desvelos.
Nem mesmo para domá-las
ninguém desperte os seus pelos:
elas mancharão as salas
com malhas de pesadelos.

Mas Ângelo Monteiro usa – como, aliás, também eu e Marcus Accioly – outras formas poéticas ligadas ao Romanceiro, como, por exemplo, o “galope-à-beira-mar”.

Janice Japiassu, às vezes emprega o romance monorrimado, que herdamos da Península Ibérica, mas que hoje, apesar de não muito freqüentemente, ainda se usa no Sertão. Outras vezes, usa também a mesma “sextilha” dos cantadores, como neste seu romance intitulado “Cirino”:

Às sete horas da noite
Se estava o prazo findando
um cabra bateu à porta
Cirino foi levantando
a lua brilhou na espora
sete estrelas clareando.

Vestiu o manto de couro
lustrou a faca com as mãos
sete moedas de cobre
Derramaram-se no chão
o candeeiro finou-se
com o sopro da maldição.

Às sete e meia da noite
o cavalo foi armado
um rastro de mau presságio
luziu no olho do gado
A sorte, sela de bronze,
Cirino nela montado.

A terra gemeu com trote
secaram-se os olhos d’água
cantou a rasga-mortalha
grito de coruja amarga
o cavalo rompe o tempo
atrás da hora aprazada.

Às oito horas da noite
a hora encontra o local
dois dragões silenciosos
regem a dança do punhal
e o ferro encontrou o sangue
que esperava – principal.

A aurora estendeu os corpos
lavou-os com os dedos frios
molhou-os com olhar de relva
guardou o eco de seu brio
– diamantes da madrugada
que não hei de repeti-los.

Marcus Accioly emprega, além da “sextilha”, do “quadrão”, do “martelo” e de várias outros ritmos dos cantadores nordestinos, certos processos enumerativos, presentes, por exemplo, na famosa “peleja de João Martins de Athayde com Leandro Gomes de Barros”, composta pelo primeiro. É o caso desta estrofe de seu poema “Quadrão”:

Um revólver-parabelo
dois rifles papo-amarelo
três jagunços no duelo
quatro disparos do cão
cinco soldados no chão
seis punhais desembainhados
sete pescoços sangrados
oito mortes no quadrão.

Aliás, Janice Japiassu já usara o mesmo processo enumerativo num poema publicado em 1970, nos “Sete cadernos de amor e de guerra”:

Um lençol de renda branca
dois castiçais encarnados
quatro cavalos na estrada
um poço malassombrado…

(…)

O Movimento Armorial passará, um dia, como é da natureza de qualquer movimento. Isso demorará, porém, porque, como ficou demonstrado por estas palavras, estamos, ainda, em plena atuação e com muitas áreas de realização a preencher. Mas, mesmo quando ele se extinguir como Movimento, ficarão as obras Armoriais que tiverem qualidade para resistir ao tempo e ficará sua influência, seu rastro na cultura brasileira.

A Escola do Recife durou dos fins do século XIX até os começos do século XX, somente. Mas “Os sertões” de Euclydes da Cunha e a “História da Literatura Brasileira” de Sylvio Romero perduraram, assim como permanece ainda hoje a influência da Escola, da qual, direta ou indiretamente, brotaram essas duas obras: prova disso é o próprio Movimento Armorial que se considera, entre outras coisas, uma continuação da Escola do Recife, ou, mais precisamente, dessa grande Escola Nordestina que, há tanto tempo, vem se preocupando com a criação de uma Arte, de uma Literatura, de um pensamento brasileiro, que nos sirva, ao mesmo tempo, de meio de expressão às nossas características e de ligação e identificação com o mundo em geral e com a América Latina em particular.

As correntes mais “estrangeiras” e “cosmopolitas” querem obrigar os brasileiros a se envergonharem de suas peculiaridades, de suas singularidades. Só o povo é que mantém, até os dias de hoje, essas características brasileiras, que nós, atualmente, procuramos defender e recriar, contra a corrente “europeizante e cosmopolita”, o que fazemos procurando ligar nosso trabalho de escritores e artistas criadores à Arte, à Literatura e aos Espetáculos populares.

Nenhum de nós pretende ser “primitivo”: o que procuramos é mergulhar nessa fonte inesgotável, em busca das raízes, para unir nosso trabalho aos anseios e ao espírito do nosso povo, fazendo nosso sangue pulsar em consonância com o dele e revigorando nosso pulso ao contacto com aquilo que tais artes e espetáculos têm de festa – entendida no sentido Latino-americano de celebração e sagração dionisíaca do Mundo.

Recife, 22 de março de 1974

Ariano Suassuna

* * *

Transcrição da dedicatória de Suassuna no exemplar de “O Movimento Armorial” para Antonio Nóbrega:

“Antonio Carlos: No momento em que lhe dou o livreco onde procurei juntar nossos sonhos, quero lhe dizer que você é uma das raras pessoas que nos ajudam a viver. Seja qual for seu caminho – como conversamos uma vez – tenho certeza e confiança em que você chegará onde deve. Um afetuoso abraço deste que se orgulha de ser seu amigo

Ariano

Recife, 22·XI·74″

Suassuna fala sobre a utopia latino-americana de A Pedra do Reino: https://www.facebook.com/MovimentoArmorial/videos/1475426479149969/

“Desenhos criados por Ariano Suassuna são revelados mais de 40 anos depois”. Jornal do Commercio, 02/08/2015. Álbum com as imagens: https://www.facebook.com/media/set/…

Ocupação Antônio Nóbrega: https://www.itaucultural.org.br/ocupacao/antonio-nobrega/

Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais Luís Adriano Mendes Costa. Link: https://static.scielo.org/…/pdf/costa-9788578791865.pdf

A Música no Movimento Armorial. Ariana Perazzo da Nóbrega, UFPB. Link: https://hugoribeiro.com.br/…/Nobrega-musica_movimento…

Playlist de vídeos “Ariano Suassuna – aulas, palestras e entrevistas” https://youtu.be/w1GRs-BahJM?

Playlist de vídeos “Movimento Armorial 50 anos”: https://youtu.be/HF5uNC5rs9c?list=PLKFOy8Re6TKc40EyDyP7q-LzMMyW-FzX_list=PLKFOy8Re6TKenYnNuSgBVliM3sYnjiSDG

Playlist de músicas “Armorial 50 anos”: https://spoti.fi/3Tf55nx

Link da publicação original com o texto na íntegra:

https://seguindopassoshistoria.blogspot.com/…/o-movimen…

15 de outubro, Dia da Professora e do Professor. #ArianoSuassuna#DiaDosProfessores#CentenárioDarcyRibeiro

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