Sugerido por Assis Ribeiro
Do Educacional
Yves de La Taille, psicólogo especializado em desenvolvimento moral, fala sobre como, apesar da crise por que passam, sobretudo na família e na escola, a moral e a ética continuam a ser pontos fundamentais na educação e desenvolvimento das crianças.
Educar. Palavra de apenas seis letras que traz consigo um amplo leque de responsabilidades que deixa qualquer pai ou educador que se proponha à árdua tarefa de ensinar uma criança a trilhar os caminhos do mundo inseguro. A violência, a falta de respeito e o individualismo — algumas das marcas registradas dos dias atuais — levantam questões sobre como andam e como transmitir dois conceitos fundamentais da boa educação e do convívio social: a moral e a ética.
Para Yves de La Taille, professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, a situação do mundo hoje é paradoxal. “De um lado, verificamos um avanço da democracia e do respeito aos direitos humanos. Mas, de outro, tem-se a impressão de que as relações interpessoais estão mais violentas, instrumentais, pautadas num individualismo primário, num hedonismo também primário, numa busca desesperada de emoções fortes, mesmo que provenham da desgraça alheia”, afirma.
La Taille nasceu na França, mas, desde criança, vive no Brasil. É professor de Psicologia do Desenvolvimento Moral na USP. É co-autor dos livros Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias Psicogenéticas em Discussão, Indisciplina na Escola (Summus Editorial) e Cinco Estudos de Educação Moral (Casa do Psicólogo) e autor, entre outros, de Limites: Três Dimensões Educacionais (editora Ática). Investiga o desenvolvimento moral desde a década de 80 e é um dos especialistas mais respeitados do país nessa área.
Segundo ele, a crise moral e ética atinge tanto a escola quanto as famílias, e uma empurra a responsabilidade da educação das crianças para a outra. “Muitos professores acusam os pais de não darem, por exemplo, limites a seus filhos, e muitos pais acusam a escola de não ter autoridade e de não impor a disciplina”, diz. Mas completa que tanto uma quanto a outra têm grande responsabilidade no desenvolvimento moral e ético das crianças.
Leia a seguir a entrevista com o professor.
A definição de moral e ética é muito discutida atualmente. Como você define cada uma delas?
Entre as alternativas de definição e diferenciação entre os dois conceitos, eu tenho empregado estas: moral é o conjunto de deveres derivados da necessidade de respeitar as pessoas, nos seus direitos e na sua dignidade. Logo, a moral pertence à dimensão da obrigatoriedade, da restrição de liberdade, e a pergunta que a resume é: “Como devo agir?”. Ética é a reflexão sobre a felicidade e sua busca, a procura de viver uma vida significativa, uma “boa vida”. Assim definida, a pergunta que a resume é: “Que vida quero viver?”. É importante atentar para o fato de essa pergunta implicar outra: “Quem eu quero ser?”. Do ponto de vista psicológico, moral e ética, assim definidas, são complementares.
Alguns estudiosos definem como uma característica da pós-modernidade a crise nos valores morais e éticos por que passam as civilizações, principalmente as ocidentais. Outros falam até em ausência total da moral nas relações entre as pessoas nos dias de hoje. A que você credita essa crise? É possível vivermos sem moral e ética?
A situação parece-me de certa forma paradoxal. De um lado, pelo menos no mundo ocidental, verificamos um avanço da democracia e do respeito aos direitos humanos. Logo, desse ponto de vista, saudosismo é perigoso. Mas, de outro lado, tem-se a impressão de que as relações interpessoais estão mais violentas, instrumentais, pautadas num individualismo primário, num hedonismo também primário, numa busca desesperada de emoções fortes, mesmo que provenham da desgraça alheia. Assim, penso que, neste clima pós-moderno, há avanços e crise. É como se as dimensões política e jurídica estivessem cada vez melhores, e a dimensão interpessoal, cada vez pior. Agora, como não podemos viver sem respostas morais e éticas, urge nos debruçarmos sobre esses temas. De modo geral, penso que as pessoas estão em crise ética (que vida vale a pena viver?), e essa crise tem reflexos nos comportamentos morais. A imoralidade não deixa de ser tradução de falta de projetos, de desespero existencial ou de mediocridade dos sentidos dados à vida.
Então, essa crise das questões morais e éticas tem relação direta com a violência, o desrespeito, o individualismo, etc. vividos atualmente?
Veja: se o projeto de vida de alguém for, como é freqüente hoje em dia, ter muito dinheiro e glória, esse alguém tende a ver as outras pessoas como adversários (o dinheiro não dá para todos) ou como súditos de seu sucesso. Nos dois casos, são instrumentos de seu projeto. Manipula-os quando necessário, elimina-os quando não pode manipulá-los. Eis a violência instalada. Muitos valores presentes na sociedade contemporânea levam a relações fratricidas, e a violência no interior da própria comunidade passa a ser vista como modo inevitável de convívio e qualidade dos “fortes”.
É interessante observar como muitos anúncios de propaganda, na televisão e no rádio, apresentam relações sociais competitivas, rudes e violentas, e isso para vender serviços telefônicos, carros, vídeos, etc., ou seja, objetos ou serviços nada bélicos.
De que maneira essa crise afeta as relações na escola e na família?
Ela afeta todas as relações e, por conseguinte, aquelas que unem a família e a escola. Nesse caso, o que se verifica é a constante delegação de responsabilidade a outrem — da família para a escola e vive-versa — e também a constante acusação mútua de incompetência ou desleixo. Muitos professores acusam os pais de não darem, por exemplo, limites a seus filhos, e muitos pais acusam a escola de não ter autoridade e de não impor a disciplina.
No mesmo livro, você afirma que existe uma contradição, na qual se verifica, ao mesmo tempo, a falta de limites em muitas pessoas (e não apenas nos jovens, como reza o senso comum) e que o excesso desses limites também sufoca a maioria delas. Qual é a medida certa para transpor alguns limites e amadurecer e como impor limites que permitam a vida em sociedade?
A questão pode ser retomada por meio dos conceitos de moral e ética. A moral trata de limites no sentido restritivo (deveres). A ética, por remeter a projetos de vida, trata dos limites no sentido da superação, do crescimento, da busca de excelência. Ora, se há excesso de limites, em breve, se a sociedade, em vez de estimular o crescimento, valorizar a busca de uma vida que não vá além do mero consumo e que se contente com o aqui-agora, com a mediocridade, ela vai prejudicar a perspectiva ética e, conseqüentemente, a perspectiva moral. Uma pessoa somente agirá moralmente se vir, nesse tipo de ação, a tradução de uma vida que vale a pena ser vivida. Como a moral impõe restrições à liberdade, uma pessoa somente vai aceitar tais restrições se fizerem sentido num projeto de vida coletivo e elevado.
Numa palestra, você afirmou que, em sua maioria, os pais de hoje foram os filhos, nas décadas de 60 e 70, que lutaram com todas as forças contra a repressão, por isso, às vezes não impõem os limites corretos aos filhos por terem medo de parecer “autoritários”. Como fazer para dosar a disciplina em casa e transmitir os valores éticos corretamente sem parecer antiquado?
O medo de ser autoritário é um sentimento importante. Mas o que é autoritarismo? É impor regras injustas, arbitrárias. É impor regras — mesmo que boas — negando à pessoa que deve obedecê-las a possibilidade de compreender sua origem e sentido. Exercer autoridade é outra coisa. Para tanto, as regras colocadas devem ser justas e devem também ser explicadas. Um bom exemplo de relação com autoridade é a relação que temos com um médico: seguimos suas prescrições porque o consideramos como representante de um conhecimento legítimo, inteligível (por mais difícil que seja) e que pode nos fazer algum bem. A relação de autoridade, seja na família, seja na sala de aula, deve seguir essa mesma lógica: os pais ou os professores devem ser reconhecidos como pessoas que detêm conhecimentos legítimos e necessários ao pleno desenvolvimento das novas gerações. Assim sendo, é claro que a moral (o respeito pelo outro) e projetos éticos de crescimento pessoal e social correspondem a valores preciosos para a vida. A criança começará a pensar neles referenciada em figuras de autoridade e, quando conquistar a autonomia, vai se libertar da referência à autoridade certamente com gratidão.
Você acredita que a violência a que estão expostos os jovens — através da TV, videogames, etc. — pode por si só influenciar e tornar as crianças violentas ou isso pode variar de acordo com os valores morais implícitos?É uma questão difícil de ser respondida e sobre a qual não temos dados confiáveis. A meu ver, não é tanto a exposição a cenas de violência que pode causar comportamentos violentos, mas sim o sentido dado a elas. Se filmes mostram a violência como recurso último, cujo uso segue certas balizas morais e cujo objetivo é, ele mesmo, moral (lutar pela justiça), é uma coisa. Agora, se glorificam a violência em si, se a colocam a serviço do próprio prazer, se a colocam como primeira opção de resolver conflitos, é outra coisa. No primeiro caso, a violência é apresentada com crítica, no segundo, não. Isso pode exercer uma influência sobre o sistema de valores de jovens. Mas é preciso lembrar que há tantas variáveis e influências em jogo que não se pode eleger os meios de comunicação e entretenimento como grandes vilões.
CELSO ORRICO
22 de março de 2014 3:35 pmas crianças brasileiras
saiu uma pesquisa relatando que as crianças na sua maioria são responsaveis pelo consumo das famílias ao mesmo tempo constatamos na maioria das propagandas , até de remédios, que sempre tem uma criança inserida nelas…desde os baixinhos da Xuxa que as crianças foram capturadas pela marketing do consumo, com essa realidade não tem Pedagogia que funcione , além do mais é muito comum os pais , atarefados pela vida pós moderna, substituirem algumas horas de suas vidas por algum “presentinho” da hora..o futuro fica comprometido com a falta de valores básicos das relações humanas, a geração coxinha é um exemplo emblemático da falência da família e da escola..
Bispo da Dama
22 de março de 2014 4:30 pmRegra Simples
Para se bem educar filhos não é necessário toda essa parafernália psicológica, se assim não fosse o filho de um operário seria malcriado quando comparado ao filho de um doutor.
A regra básica é dar exemplos. Nossa conduta é a diretriz do comportamento de nossos filhos.
Os pais consumistas terão filhos consumistas, pais teimosos terão filhos obstinados, inconseqüentes terão filhos irresponsáveis, indolentes terão filhos preguiçosos, maledicentes terão filhos hipócritas e por aí vai.
O exemplo não é a melhor maneira de educar as crianças, é a única.
Marly
22 de março de 2014 5:32 pmParabéns Bispo!
Com poucas palavras você resumiu toda a verdade. O melhor ensinamento é o bom exemplo.
helcio dias de sa
22 de março de 2014 6:19 pmregra simples.
Parabens bispo da dama.Karl Marx,era um pai amoroso e dedicado ,que costumava dizer que “os filhos deviam educar os pais”.Ele foi um dos intelectuais mais citado na literatutra mundial e o menos lido,e o menos entendido,precisou até de um amigo Engels para escrever livros explicando o amigo.ninguem faz filhos,faz sexo que resulta um premio chamado filho.E a “bula” chama-se : Exemplo.Rousseau foi o tal pensador que dizia que a sociedade é quem corrompe o ser humano,para isso doou seus filho para um orfanato cuidar,seu intelecto mostrou sua incapacidade e ele caiu na real.Vou ensinar aos outros porque nao sei fazer.Quem nao comunica vira professor de comunicaçao.
jc.pompeu
22 de março de 2014 4:33 pmno resumo resumido da ópera de moral edificante
no resumo resumido da ópera de moral edificante para apreciação do Conselho de Administração do GGN- Nassif:
“é de pequeno que se torce o pepino”
38. “Torcer o pepino”
“Provérbio chegou ao Brasil com os portugueses
O provérbio “É de pequeno que se torce o pepino” é usado para transmitir a ideia de que, quanto mais cedo se ensina, melhores são os resultados, de que é na infância que se educa. Trata-se de um provérbio antigo, que chegou ao Brasil, provavelmente antes de 1600, trazido pelos portugueses. Os lusitanos, porém, preferiam a variação “De pequenino, se torce o pé ao pepino”.
Como o pepino era raríssimo em Portugal nesse período, tudo indica que o provérbio tenha se originado na França. De acordo com o escritor Luís da Câmara Cascudo, no livro Locuções Tradicionais no Brasil, pepino também podia significar, para os franceses, sentimentos como a paixão e os caprichos amorosos. L. L. (AVENTURAS NA HISTÓRIA – Ed. Abril)”
por isso, aproveitando a douta aula magna do padre missionário francês Yves de La Taille, é urgente o governo brasileiro convidar outra vez outra leva missionária francesa, só que desta vez, especializada com a missão humanitária salvadora da lavoura arcaica de instituir na educação brasileira, no lugar do isento na faixa Sistema S da burguesia industrial iletrada, o Sistema Universal Nacional de Creche Pública made in France.
Bispo da Dama
22 de março de 2014 4:38 pmDesculpe, Pompeu
Mas o post é sobre a educação de crianças, não sobre plantação de pepinos.
Antonio C.
22 de março de 2014 7:52 pmMistificações.
Não sei se o mundo é moderno, contemporâneo ou pós-moderno – ou mesmo pós-humano. É uma grande armadilha apoiar-se em um conceito inicial e, daí, deduzir todo o resto; fica tudo bem amarradinho, mas meio capenga quando se preocupa em descrever o fenômeno que busca resumir em um conceito. Por exemplo, se pós-moderno significar uma hiperindividualidade, então, não existe pós-modernidade, apenas modernidade (a modernidade se baseia na noção de sujeito); se for a fragmentação do sujeito, dá no mesmo (por exemplo, o tempo físico e o tempo como intuição aparecem em Newton e em Kant, respectivamente, o que não tem nada de pós-moderno).
De qualquer modo, falar de uma (ou mais de uma) psicologia que busca descrever o desenvolvimento do sujeito, ao mesmo tempo que fala sobre ele como ser social, deixando de lado as estruturas da sociedade – pois comportamento é, antes de tudo, contexto – leva a incompreensões desta espécie, que é falar sobre direitos humanos onde também sobra individualismo.
Tudo isso pra retomar uma discussão sobre moral e ética, e cair num reformismo e no lugar-comum, em que devemos educar nossas crianças.
Ora, ora, uma sociedade (qual sociedade?) em que se permeia violento individualismo e direitos humanos, por qual motivo se começa por aquilo que se “deve ser” (seguir uma regra ou ser responsável por sua ação) e não como as coisas são?
Acho que o que o nazismo “ensinou”, como caso-limite, é a situação em que a burocracia e a estrutura econômica não dependem de nenhuma questão ética (em torno de seus fins). O que importa é a máquina funcionando. Onde fica a personalidade (sic) se apenas cumpro ordens?
Existe uma “fobia” crônica em se declarar que se vive em uma sociedade contraditória sem dar-lhe rostos, nomes e endereços; fica tudo muito lindo, muito abstrato. Só não dizem que, desde Aristóteles, somente uma ação voluntária é possível quando uma pessoa tem em si as causas da sua ação. No entanto, amarrado em relações recíprocas que nada tem a ver com afeto, empatia, mas mera burocracia ou necessidade, quase nada se tem aí como causa própria da ação. Numa hipótese muito arriscada, significaria que quem possui condições econômicas favoráveis é que pode ser ético; isso não soa muito estranho, para dizer o mínimo?
Quanto à famíla e escola, também se tratam de generalidades. A família tal como imaginamos não tem mais do que 300 anos e está fadada a morrer, mais cedo ou mais tarde. E nunca foi um modelo de amor; ora, é dessa família excelente que nascem os individualistas violentos; então, é quase uma máfia. A escola nunca foi um dos melhores lugares para a convivência social e as obrigações burocráticas e monetárias (fora a desabrida perda de tempo que possa haver em algumas aulas) não deixam muito espaço para o pensamento experimental e livre. Não existem escolas dissidentes, de pedagogia progressista, que façam da curiosidade, da construção e da pesquisa o centro de seus interesses – e nem poderiam.
Com tantos interesses em jogo, para mim, falar em “educar nossas crianças” é tratar de uma benevolente sabotagem.
Como se não víssemos o tempo todo que ter princípios é quase como ser um idiota dostoievskiano, um quixote, um cristo. Com pessoas que sabem que o mal ocorre, mas essas mesmas pessoas riem daqueles que tentaram e, combalidos, nada mais têm; fantasmas de si mesmos.
Por isso é que digo: não tenho medo de criminosos, eu tenho medo de gente comum.