4 de junho de 2026

A repercussão da viagem de ônibus da global Lucélia Santos

Sugerido por Henrique Torres

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

De O Globo

Lucélia, uma cidadã

 

No seu monumental “Ensaio sobre a cegueira”, José Saramago descreve uma epidemia que se alastra impiedosamente entre os humanos, tornando-os, todos, incapazes de enxergar. A praga atira o mundo num caos de seres dominados pelos instintos mais primitivos, à exceção de uma mulher que misteriosamente mantém a visão e observa a iniquidade à sua volta. Libelo sobre o que há de mais selvagem em nossa espécie — dominação, ganância, egoísmo, impotência, abandono —, a obra de um dos maiores escritores de língua portuguesa serve de metáfora para inúmeras histórias reais, cotidianas. Entre elas, o trânsito de megalópoles como o Rio de Janeiro.

São cegos insensatos os que veem no automóvel a solitária alternativa de transporte do dia a dia. O venenoso combustível do individualismo entope ruas e pontes, avenidas e viadutos, polui o ar e transforma em fumaça a qualidade de vida, numa ciranda maldita. Experimente convidar o motorista, qualquer um, por trás dos vidros pretos da caminhonete gigante ali ao lado, para acelerar no caminho da conscientização, deixando, vez ou outra, seu brinquedo na garagem. Sem chance. Irremediavelmente viciado no exílio refrigerado de bancos de couro e computador de bordo da sua cidadela sobre rodas, ele estará nas ruas amanhã e para sempre. Milhares deles, todos cada vez mais cegos — e engarrafados.

Na vida real do escaldante canteiro de obras chamado Rio de Janeiro, a epidemia se alastra nos engarrafamentos que inviabilizam as viagens curtas, médias e longas. Nem a moldura majestosa de mar, floresta e montanha presta para amenizar a avalanche de estresse e atraso que sufoca os cariocas. Nas filas imóveis, fica ainda mais fácil encontrar os motoristas solitários em seus latifúndios movidos por direção hidráulica e câmbio automático.

Mas uma mulher mostrou que enxerga e ofereceu uma lição cidadã à cidade. Na desnecessidade irresistível do noticiário das celebridades, Lucélia Santos, ícone da TV brasileira, foi a protagonista da semana, ao ser flagrada viajando de pé num ônibus pagão — e lotado. Ela seguia seu caminho no 524 (Botafogo-Barra, via Humaitá) e aparece na imagem feita por celular — despejada quase instantaneamente numa rede social, claro — de camiseta branca, os cabelos despojadamente presos, rosto sem maquiagem. Estilo gente normal.

Choveram comentários debochados, pela cena de um famoso entre os anônimos, algo quase bizarro no reino dos equívocos onde vivem cariocas e brasileiros. Fora da TV há quatro anos, Lucélia Santos estaria pobre, condição exclusiva dos que andam de ônibus. Afinal, vale tourear qualquer dívida para se livrar do suplício dos transportes públicos por aqui, e pôr mais um carro na rua.

De fato, o serviço prestado pelos ônibus cariocas, concessões públicas com cara e jeito de capitanias hereditárias, patina há décadas na incompetência de seus gestores, protegida pela endêmica cumplicidade dos governantes. O distinto público que se aperte, se vire, se dane — nos ônibus sim, em metrô, trens e barcas também. O tal jogo jogado.

Aqui, a ficção oferece a segunda metáfora. A atriz que viveu a inesquecível Escrava Isaura esculpiu o discurso da libertação. “O Brasil é o único país que conheço em que andar de ônibus é politicamente incorreto!!!!!!! Vai entender… Isso porque os ônibus aqui, e transportes coletivos de um modo geral, são precários e ordinários, o que mostra total desrespeito à população! Em qualquer país civilizado, educado e organizado, é o contrário. As pessoas dão prioridade a transportes coletivos para proteger o meio ambiente. Os governos deveriam investir em transportes decentes para a população, com conforto e dignidade (…). A imprensa deveria usar sua inteligência para divulgar campanhas para os transportes públicos coletivos de primeira grandeza. Terminando: o Brasil deveria ler mais, se instruir mais, desejar mais e sair da burrice de consumo idiota e descartável que lhe dá carros!”, escreveu ela, também via redes sociais. (E depois, posou para a foto acima, num outro ônibus, ratificando sua convicção.)

Ataque direto e impecável aos bobos da nossa elite, que acham chique o metrô de Nova York e os ônibus de Londres, mas aqui se escondem solitários em seus carros. Além de cegos, surdos — porque, se ouvissem os ensinamentos acima, apostariam no transporte coletivo, aumentando a pressão por um serviço digno, de qualidade.

E aí, seriam, afinal, cidadãos. Como Lucélia Santos.

 

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

13 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Francy Lisboa

    16 de março de 2014 1:16 pm

    Simplesmente muito bom!

    Simplesmente muito bom!

  2. Adma Andrade Viegas

    16 de março de 2014 1:59 pm

    Não apenas policitamente

    Não apenas politicamente incorreto. Andar de onibus é considerado humilhante para um artista, uma “celebridade” (sic). Porque isso o iguala ao “povão”. Mas foi o próprio público que introjetou essa mentalidade. Como se artistas fossem deuses.

    Quanto aos transportes públicos do Rio, são um lixo, concordo inteiramente com o artigo.  Até o metrô que antes, embora atendesse uma parte  pequena da cidade, era eficientíssimo,  se tornou um suplicio. Essa semana peguei de manhã um metrô na estação São Francisco Xavier até a Cinelândia e levei mais que o dobro do tempo  que  a viagem levaria porque o trem parava um bom tempo  entre uma estação e outra. Só voltou ao normal, andando devagar, a partir da estação Central do Brasil.

  3. alfredo machado

    16 de março de 2014 2:09 pm

    Transporte urbano

    Henrique Torres,

    Artigo excelente, algo que imagino como difícil no jornal do trio Marinho.

    Na zona su do RJ existe uma turma razoável (devo ter sido um dos precursores da dita cuja) que já não dirige para trabalhar há alguns anos, e não tenho notícia de quem tenha morrido por andar de ônibus ou metrô. Adorava carro, tanto que omecei a dirigir aos 13 anos( o mundo era outro, hoje seria impossível), rodei centenas de milhares de quilômetros, não ia à esquina a pé e, quando parei, não senti falta do volante em momento nenhum.

    Com o metrô chegando na Barra, o sujeito poderá ir da rua Uruguai, na Tijuca, a Santa Cruz  em transporte limpo, com ar condicionado, sem risco de enfrentar tráfego e preço barato, ida e volta por $$ próximo dos 12 reais, que horror.

    Quanto aos comentários debochados a respeito de Lucélia Santos, é a típica reação dde qualquer dos milhões de vira-latas que estão soltos por ai. 

    Um abraço

    1. Adma Andrade Viegas

      16 de março de 2014 3:29 pm

      Só discordo de seu comentário

      Só discordo de seu comentário no que se refere ao metrô.  Nos quesitos  limpeza e segurança ele é OK. Mas em termos de conforto, organização  e rapidez, tem deixado muito a desejar. As pessoas andam apinhadas, tipo trem da Central (outro transporte problemático).

      Tudo começou após a “gambiarra” que Sérgio Cabral criou ligando as estações de São Cristóvão a Central do Brasil, que complicou o transito dos trens.  Tudo porque não se completou o trajeto original traçado para a linha 2, que iria até a Carioca, onde se faria a baldeação. Hoje ela é feita na Central, não mais no Estácio, o que causa os problemas de tráfego de trens, descritos no.  meu comentário abaixo.

      1. alfredo machado

        17 de março de 2014 12:18 am

        Metrô RJ

        Adma,

        Obrigado  pelo retorno.

        Em termos de conforto e organização, o metrô do RJ sequivale a qualquer outro, e a rapidez encontra-se estrangulada em função do aumento de passageiros por conta das obras na cidade. Linha 2 até a Carioca, assim como Carioca até Itaboraí (existe o projeto fantástico) são sonhos, em minha opinião projetos inexequíveis neste momento,, e entendo que o trecho que você critica só pode ir até a Central do Brasil, não existe caminho possível para chegar à Carioca.

        Considero o intervalo entre composições o maior problema do metrô, que não obedece ao estipulado no contrato de concessão, no máximo 3 minutos entre elas, enquanto o governo não se utiliza das prerrogativas de contrato para regularizar a situação. Nesta fase atual existem mais composições em uso, devem estar cumprindo os 3 minutos ´pr conta da necessidade, depois deverá voltar ao normal, intervalo de 5 minutos ou mais entre as composições. 

        O poder público, quem sabe um dia será capaz de fazer o que não conseguiu até hoje, fiscalizar concessionários de serviços de acordo com o estipulado nos contratos de concessão, sejam eles de ônibus, barcas, lanchas, metrô ou outros.

         

  4. Djijo

    16 de março de 2014 2:18 pm

    Tudo por interesses de alguns

    Nesse tema deveria haver leis que colocassem os transportes como bem público e o estado explorasse. E não adianta dizerem que o Estado é ineficiente. Isso era antes e continua nos governos neoliberais enrolados nos governos estaduais e municipais.

  5. agincourt

    16 de março de 2014 4:30 pm

    copiando e colando

    Lucélia: “Terminando: o Brasil deveria ler mais, se instruir mais, desejar mais e sair da burrice de consumo idiota e descartável que lhe dá carros!”

    Lula: “Depois de anos que lutei para chegar à classe média, vem essa mulher e esculhamba com a classe média”

    Nem careceu de mutatis mutandis, bastou copiar e colar.

    Grande pequena Lucélia: bonitinha e extraordinária.

  6. Leandro A.

    16 de março de 2014 7:10 pm

    Em BH fui aluno de uma juíza
    Em BH fui aluno de uma juíza militar que ia a pé da Faculdade de Direito da UFMG, onde é professora, até a justiça militar. Era tida por burra ou ingênua pelos deslumbrados, e, “com vontade de aparecer”, pelos seus pares. Pelo que sei, ainda contina fiel a seu estilo, magra, e faz discípulos. Ser normal, deveras, tornou-se aberração.

  7. Assis Ribeiro

    16 de março de 2014 8:07 pm

    Para entender a bomba prestes à explodir.

    “O Brasil é o único país que conheço em que andar de ônibus é politicamente incorreto!!!!!!! Vai entender… Isso porque os ônibus aqui, e transportes coletivos de um modo geral, são precários e ordinários, o que mostra total desrespeito à população! Em qualquer país civilizado, educado e organizado, é o contrário.”

  8. janes salete

    16 de março de 2014 8:14 pm

    Estou começando a ficar

    Estou começando a ficar assustada com a estupidez a que está chegando a raça humana. Ficar reclamando que atriz não pode andar de ônibus, é de matar qualquer esperança que o ser humano continue humano. Como alguem já escreveu, falou “- a mídia está formando seres tão vis quanto ela-“.

  9. Nilva de Souza

    17 de março de 2014 1:27 am

    Sempre coerente. Gosto de

    Sempre coerente. Gosto de gente que faz o que prega.

  10. xtecnico2

    17 de março de 2014 11:31 am

    Mundo particular

    Não é por nada não, mas acho que quem escreveu este artigo e uma boa parte dos comentaristas deve morar na Zona Sul do Rio. Lá realmente compensa andar de ônibus, ou metrô (porque tem). Grande parte da frota é relativamente nova, tem ar condicionado, etc.

    Vai preferir usar o transporte público que mora na Zona Norte, Zona Oeste, Baixada, onde não tem metrô (só uma parte da Zona Norte tem), os ônibus estão caindo aos pedaços, nenhum tem ar condicionado.

    Se há boas opções em transporte coletivo, concordo que devam ser usadas. Mas crucificar quem quer andar de carro não é o caminho. É pensar igual a nosso novo prefeito maluquinho, onde tudo é culpa do povo.

    Só uma observação, não tenho carro e não gosto de dirigir.

  11. monicalarosa

    31 de outubro de 2014 6:21 am

    andar de onibus em europa
    quando estava no Brasil andei sempre de ônibus nas grandes cidades mesmo porque nas horas de ir e vir do trabalho e melhor a causa da quantidade de carros.queria dizer que agora que moro na europa os motivos que fazem as pessoas ir de ônibus o metro são bem diferentes daquelas citadas pela atriz!
    todos tem que pagar preços altíssimo de estacionamento para ter uma ideia eu teria que pagar 300 reais por semana detalhes disso trabalho 5 dias em um turno de 6 horas por isso imaginem vcs
    outro problema achar uma vaga porque esse preço e para deixar o carro na rua e tem tantos carros que para você achar um lugarzinho tem que rodar pelo menos 30 minutos ou mais por. isso tem que sair de casa preparando bolso e muita paciencia.ah ja esquecendo
    sem contar que se VC vive numa cidade como Roma Turim Milão etc tem que pagar pedágio para entrar no centro e são outro 15 reais por dia e se tiver um carro mais velho paga multa entenderão agora!

Recomendados para você

Recomendados