14 de junho de 2026

A despedida do Duo Assad, maior duo de violão da história

Por trás dessa família fantástica, a alma brasileira do libanês Jorge Assad e dona Ica, com a voz límpida que ouvíamos em nossas avós. 

Fomos assistir o que se anunciou como o último concerto dos irmãos Assad em São Paulo, no Cultura Artística. O Olimpo do violão brasileiro estava lá, Marcelo Khayat, Fábio Zanon, Paulo Belinatti, Sidney Molina, do fantástico Quaternalia,  e uma multidão de jovens instrumentistas, para assistir ao grande momento. 

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Num canto, puxei conversa com Khayat e Zanon. Umas três décadas atrás almocei com Khayat, recém chegado de Stanford, trocando a carreira de concertista internacional pelo mercado. Ele admitia: 

  • Para tocar bem, ensaio muito. Não sou como Raphael Rabello e Odair Assad! 

Yamandu ainda não aparecera. E Odair era conhecido apenas nas salas de concerto. 

Contei a Zanon meus tempos de serenata em São João, ao lado de Sérgio. Embaixo da sacada da namorada, ele me dizia que o sonho do duo era chegar perto dos irmãos Abreu. Comentei que tinham alcançado o objetivo. Zanon corrigiu: 

  • Foram muito além. Os irmãos Abreu tinham uma linha só. Os Assad entraram em todos os ritmos. 

Em artigo na Folha, Sidney Molina não poupou elogios ao duo.  

“Não se trata, portanto, apenas de uma música centrada em um processo de escritura com influências populares, nem vice-versa, mas de uma nova síntese, onde a corporeidade que só o pop tem nesse grau recebe a especulatividade cerebral do contraponto escrito e de uma unidade formal estruturada, em sonoridade trabalhada com extremo polimento. Nada disso existia —ao menos não desse jeito— antes dos Assad”. 

Do compositor Sérgio Assad, diz ele: 

“Assad é hoje, ao lado do cubano Leo Brouwer, o mais importante compositor para violão em atividade e, provavelmente, o compositor brasileiro vivo —e aqui incluímos a nossa música clássica ou erudita— de maior força internacional, com obras encomendadas e gravadas pelos principais solistas, grupos de câmara e instituições de ensino de violão em todos os continentes.” 

Sobre o instrumentista Odair, diz que ” ele é a mais completa tradução do que pode ser a relação de um músico com o seu instrumento”. 

Sérgio já tinha me dito que conseguia compor suas peças porque sabia que tinha Odair para interpretá-las. 

E, aí, me volto para o final dos anos 60, em São João. Sérgio já morava no Rio de Janeiro, mas venceu o 1o Festival de São João; eu venci o 2o. Nos conhecemos pouco depois, nas serenatas da cidade. 

É curiosa a história dos Assad. O pai, seu Jorge, era relojoeiro e bandolinista. A mãe, dona Ica, uma senhora doce e, ao mesmo tempo, forte como uma rocha. Sempre foi o ponto de equilíbrio da família, ajudando a moderar um pouco a vontade de seu Jorge de mudar de cidade. 

O duo nasceu em Mococa. A família mudou-se para São João provavelmente atrás de José Lanzac, o maior violonista brasileiro dos anos 30, mas que abandonou os concertos após um acidente. 

Em São João, os irmãos tiveram aula com José Lopes, um aluno de Lanzac, mas sem fôlego para acompanhar os irmãos. 

Seu Jorge veio a São Paulo, então, atrás do maestro Isaias Sávio, o grande mestre de violão da época. Achou que Isaias não mostrou entusiasmo à altura do talento dos filhos. Ledo engano! O mestre uruguaio era apenas formal. 

A história abaixo me foi contada por Eduardo Gudin. Houve um concurso de violão, na época, para escolher o melhor intérprete de música erudita e o melhor de música popular. Odair venceu a modalidade erudita. Sérgio venceu a modalidade popular, interpretando “Bachianinha”, de Paulinho Nogueira. Gudin ficou em segundo lugar.

Decepcionando-se com o que considerou pouco entusiasmo de Sávio , seu Jorge resolveu ir para o Rio consultar a grande Monina Távora, uma uruguaia que teve aulas com André Segóvia – o maior violonista do século -, acho até que foi companheira dele, e fora professora dos irmãos Abreu. 

Ela aceitou os Assad como alunos, sem nada cobrar, exigindo apenas total dedicação. Era uma mestra fantástica, conforme Sérgio me contou. Queria que os meninos ouvissem grandes pianistas e outros instrumentistas, para não ficarem presos apenas ao estilo de interpretação dos mestres do violão. 

Nos anos 70, Sérgio segurou um pouco as composições. Estudava também na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e a música erudita brasileira passou por uma fase terrível, amarrada ao experimentalismo da música concreta. 

Foi-se soltando aos poucos até sde transformar no mais solicitado compositor de peças para violão da atualidade.  

Em 1984, Astor Piazzolla compôs especificamente para eles o “Tango Suite para dois violões”. Em 2002, o álbum “Sergio & Odair Assad Play Piazzolla” recebeu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Tango. 

Em algum momento, os Assad se separaram. Sérgio foi residir em Chicago, Odair foi para Bruxelas. Encontram-se anualmente para suas excursões internacionais, para o Festival Assad, em São João. Ao mesmo tempo, a família Assad foi desabrochando em muitos outros talentos, sua irmã Badi e Clarice, a filha de Sérgio que se tornou uma das mais importantes compositoras contemporâneas para piano. 

A história de Badi é outra excepcionalidade dos Assad. Quando ela começava a entrar na adolescência, seu Jorge temeu por sua segurança onde morava, no Rio, e decidiu voltar para São João. Sem o apoio dos dois filhos, no regional, ensinou alguma coisa a Badi.

Em visita à família, Sérgio percebeu o talento da irmã e começou a prepará-la para um Festival Villa Lobos. Mandava as instruções por carta e, eventualmente, por telefone. Badi concorreu e venceu ao lado de Fabio Zanon, que já despontava como um dos grandes solistas brasileiros.

Por trás dessa família fantástica, a alma brasileira do libanês Jorge Assad e dona Ica, com a voz límpida que ouvíamos em nossas avós. 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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