13 de junho de 2026

O limite do humor deve demarcar o lugar óbvio de restrição aos violentos, por Luiz Lima Faria

O riso, quando passa a instrumento disciplinador da divergência, já não nos serve como linguagem de liberdade. Torna-se exclusão.
Reprodução

O limite do humor deve demarcar o lugar óbvio de restrição aos violentos

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Luiz Henrique Lima Faria

Foi ao escutar, pela enésima vez, a máxima “o limite do humor é ter graça ou não” que compreendi o quanto essa frase funciona como uma senha para a violência. Sempre que alguém a pronuncia, minha mente se antecipa à chegada de alguma crueldade disfarçada. Quase sempre, o que vem em seguida tenta justificar o injustificável, com piadas que zombam de minorias e reforçam estereótipos racistas, sexistas, etaristas ou capacitistas, sob a desculpa de que tudo não passa de uma legítima manifestação da liberdade criativa em nome do riso.

Tenho refletido sobre isso à luz de pensadores que admiro. Antes mesmo de recorrer à teoria, contudo, há questões incômodas que merecem atenção: por que naturalizamos tanto a ideia de que o riso é sempre inocente? Por que insistimos em ignorar que ele pode operar como uma forma sutil e eficaz de dominação? Há uma perversidade latente na maneira como certas piadas são construídas, não para questionar os detentores do poder, mas para preservá-los. Em vez de expor a injustiça estrutural, desviam a atenção escarnecendo corpos que fogem ao padrão estético dominante, vozes dissonantes e histórias que ousam desafiar o que se consolidou como norma cultural hegemônica.

O riso, quando passa a operar como instrumento disciplinador da divergência, já não nos serve como linguagem de liberdade. Torna-se ferramenta de exclusão. É nesse ponto que começo a buscar respaldo crítico em outros pensadores. Recorro ao ensaio Diante da Dor dos Outros, de Susan Sontag, que nos convida a olhar com honestidade para o modo como nos habituamos à desgraça alheia. Sob esse sentido, rir do outro é uma forma sofisticada de aplacar os alarmes da empatia. O humor, nesse caso, não revela o absurdo da desumanização: ele o reforça.

Quando naturalizamos o riso como desculpa para qualquer brutalidade, o que estamos fazendo é transferir o peso da responsabilidade ética do emissor para o receptor. A culpa passa a ser de quem se ofende, nunca de quem ofende. Reforçando minha percepção, uma passagem de Theodor W. Adorno, em Minima Moralia – reflexões a partir da vida danificada, afirma que “o riso, em si, já é o traço da barbárie”. Isso não significa que todo riso seja condenável, mas que, em muitas situações, ele serve para escarnecer os fracos, reforçar hierarquias e anestesiar o pensamento crítico.

Não construo aqui, é claro, um manifesto contra o humor. Sem ele, o mundo se tornaria insuportável. O que proponho é refletir sobre sua função e, sobretudo, sobre seus efeitos. O humor pode servir à resistência, desafiar hierarquias, subverter padrões e abrir brechas de liberdade. Mas também pode funcionar como instrumento de dominação, e com frequência é exatamente isso que faz. A fronteira entre o cômico que liberta e o que oprime não se limita ao campo estético. Trata-se, antes, de uma questão profundamente ética.

Na política contemporânea, essa fronteira tem sido atravessada com uma frequência cuidadosamente calculada. Basta observar como o humor foi instrumentalizado por regimes autoritários, de Goebbels a Steve Bannon, passando por subcelebridades nacionais de quinta categoria. A piada racista contada com ar de inocência, o deboche contra corpos obesos disfarçado de alerta sobre os riscos da preguiça, os vídeos virais que ridicularizam travestis ou pessoas neurodivergentes não se limitam a manifestações individuais de mau gosto. São peças articuladas para produzir efeitos psicossociais, acionando gatilhos de identificação emocional com discursos de ódio.

Esses gatilhos, embora frequentemente acionados pela ignorância ou pela boçalidade, não operam ao acaso quando maquinados. Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, demonstra como nossas emoções rápidas e viscerais moldam os julgamentos antes mesmo que a razão possa intervir. Nessa lógica, o humor que violenta, ao ser repetido e amplificado, atua como vetor de condicionamento: instala atalhos cognitivos que, sob o disfarce do riso, naturalizam a crueldade e esvaziam a empatia. A violência simbólica, assim, se torna palatável, assimilada sem resistência crítica, como se fosse apenas mais uma piada.

Então, para concluir esse fluxo de ideias, convido o leitor que ainda tem dúvidas sobre qual seria, afinal, o limite do humor, a refletir antes sobre até onde vai a disposição do emissor em ferir. Se o riso depende exclusivamente da humilhação alheia para existir, talvez não mereça sequer ser chamado de humor. Talvez seja apenas crueldade disfarçada, dissolvida em sorrisos que mascaram o desconforto. Rir de quem não dispõe das mesmas defesas diante da violência recebida não é ousadia, mas covardia legitimada pelo aplauso fácil da claque.

Assim, encerro esta crônica com a afirmação de que o verdadeiro limite do humor deve estar onde o riso abdica da empatia e passa a funcionar como instrumento de opressão. Nesse ponto, já não se trata mais de liberdade criativa, mas de conivência com a barbárie que projeta a distopia.

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Antonio Uchoa Neto

    24 de julho de 2025 2:52 pm

    “Certos defeitos ou imperfeições físicas costumam ser objeto de chacota, embora permaneçam bastante sérios para aqueles que os carregam.”
    Ernest Hemingway.
    Até onde eu sei, o homem é o único animal que ri. Nosso parente próximo, o macaco, tem algo de semelhante, e, apesar de jamais ser refletido, para mim é a mesma coisa; mas isso não nos deve impressionar, aqui. Até porque, sendo parte da natureza, como nós, não faz parte da natureza humana, de nossa criação e uso exclusivos.
    Uma outra (até onde sei, novamente) particularidade do homem, a adolescência, é uma época da vida em que os defeitos e as imperfeições físicas acima mencionadas saltam aos olhos – desgraçadamente, os dos outros, também.
    E, mais desgraçadamente ainda, esses pares de olhos podem ser, por exemplo, daquele comediante (sic) recentemente condenado, de quem não lembro o nome – e não vou, de forma alguma, recorrer ao google para lembrar. Limito-me a afirmar que, como se diz por aí, trata-se de um daqueles seres que saíram da 5ª série, mas a 5ª série não saiu deles. E a 5ª série, como se sabe, está repleto de adolescentes.
    Mas, indo direto ao ponto: as redes sociais introduziram uma forma reciclada de incivilidade na sociedade, incivilidade retoricamente dada por morta a partir da consolidação da Revolução Francesa, e seu código civil. Mas, como os ratos da peste de Camus, essa incivilidade estava apenas adormecida, à espera de uma ordem para acordar e ir morrer numa cidade feliz. Não se tratou, nesse caso, de uma cidade feliz, mas um mundo profundamente infeliz, que, inconsciente disso, está a receber esses ratos por toda parte, acolhendo-os, e, diga-se tudo de uma vez, emulando-os. E a ordem partiu do algoritmo. Uma peste pior que a bubônica. Porque hoje, as gozações que antes fazíamos para consumo interno (família, escola, amigos), hoje divulgamos desbragadamente, via redes sociais, instantaneamente e para o mundo inteiro, graças aos twitters, facebooks, instagrams, tiktoks, kwais da vida…e sem um pingo de arrependimento, e monetizados.
    Rimos da desgraça dos outros (e da infelicidade, desajuste, solidão, expressões mentais dos mesmos defeitos e imperfeições físicas já nossas conhecidas) porque podemos rir, de qualquer forma que seja, refletidamente ou “como nossas emoções rápidas e viscerais moldam os julgamentos antes mesmo que a razão possa intervir.” Ah, que eu ainda vou viver para ver o Dr. Benjamin Libet ser vindicado.
    O homem criou a natureza humana para justificar-se e assentar a base de sua verdadeira vocação: dominar, explorar, acumular. Mas, assim como Deus (seu provável e inconsciente modelo) teve o desprazer de ver sua criação favorita desprender-se de si, e enveredar por caminhos diametralmente opostos aos que lhes designara, também o ser humano vê que sua auto-impostura (civilizado, generoso, solidário) não resiste à sua própria natureza original.
    Os animais que não fazem parte dessa natureza seguem sendo os mesmos: não matam (salvo para se alimentar), nem exploram iguais ou dessemelhantes, ao menos não de forma organizada ou sistemática, vale dizer: consciente. E nós, que para nos diferenciar completamente deles, criamos uma natureza própria e a decodificamos (a assim chamada Moral), e adaptamos os ditames de nossa consciência ao sabor de nossos desejos e conveniências, seguimos sendo o que sempre fomos: cúpidos, cruéis, assassinos, etc., etc., etc.. E ainda nos rimos disso, com orgulho. E, em alguns casos, ganhamos dinheiro com isso.

  2. Luiz Faria

    25 de julho de 2025 3:45 pm

    Prezado Antonio,

    Sua resposta é instigante e digo isso com genuíno apreço. Confesso que comecei a leitura impactado por sua dedicação e terminei com um sorriso que só as boas provocações nos causam. Você me lembrou que, por mais que tentemos entender os limites do humor, seguimos às voltas com os limites do humano. E aí, de fato, que a coisa fica boa para prosear.

    Concordo com muitas das imagens que você traz, e a dos ratos da peste camusianos, agora reanimados pelos algoritmos, é um bom achado. Uma peste de outra especificidade, mas nem por isso menos devastadora. Também percebo que a adolescência, esse laboratório de sensibilidades, é um terreno fértil para feridas e chacotas, muitas vezes cultivadas e replicadas na vida adulta com aparência de piada.

    Afinal, muitos de nossos irmãos brasileiros sequer conseguem completar seu percurso cognitivo, por diversas razões que misturam desigualdade, precariedade e negligência social. E, nesse cenário, o riso cruel encontra terreno fácil para prosperar.

    Talvez aqui resida uma sutil diferença entre nossa percepção sobre o assunto: enquanto você aponta com lucidez para os aspectos mais sombrios do riso humano, eu ainda me agarro a uma réstia de esperança. Acredito que o humor pode, sim, ser lapidado. Pode servir à ternura, à crítica, à emancipação. Não sempre, não facilmente, mas pode.

    Na crônica, meu propósito era apenas lembrar que há pessoas sendo feridas para que outras riam. E, sinceramente, isso diz muito sobre quem ri e quase nada sobre quem é alvo.

    Agradeço a generosidade do seu texto, que convida mais ao diálogo do que ao dissenso. Seguimos, então, proseando. Com afeto e crítica, com riso e cuidado. Afinal, o que seria de nós sem esse tipo de encontro?

    1. Antonio Uchoa Neto

      25 de julho de 2025 7:54 pm

      Obrigado, Luiz. Seus textos são sempre relevantes, e como nossos pontos de vista nem sempre são os mesmos, eu agradeço sua atenção aos meus contrapontos.

Recomendados para você

Recomendados